Aldeias históricas de granito: roteiro de Castelo Rodrigo a Monsanto
Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Mendo, Sortelha, Monsanto e Idanha-a-Velha: as seis aldeias nasceram do granito. A pedra assentou, a tradição também. Paredes e telhados contam histórias de quem vive junto à fronteira. Siga a viagem de norte para sul, com os olhos nos detalhes.
Há casas em Monsanto que nunca precisaram de telhado. Foram construídas debaixo de grandes penedos, do tamanho de um camião.
Entre os distritos da Guarda e de Castelo Branco, na zona raiana, outras cinco aldeias esculpiram-se na pedra que estava à mão. Ora encaixando-se nela, ora assentando bases, ora desenhando estruturas em forma de estrela. Conhecê-las é revisitar as linhas defensivas, bem como experienciar as tradições e os sabores de quem vive junto da serra.
Castelo Rodrigo abre caminho entre muralhas e vistas sobre Espanha
Comece por Castelo Rodrigo, ao final da tarde, quando o Sol baixa e a pedra das casas e da muralha ganha tons alaranjados. Está a uma das maiores altitudes desta viagem e, do topo da fortificação, a paisagem estende-se até Espanha.
As ruas fazem-se de calçada, paredes antigas e cruzes nas ombreiras das portas. Aqui, até as ruínas contam histórias que vão além da localidade, como as do antigo Palácio de Cristóvão de Moura, incendiado pela população em 1640, por altura da Restauração da Independência, porque a família servia o rei vizinho.
Almeida, a fortaleza desenhada como uma estrela
A cerca de 20 km a sul, surge Almeida. Aqui, a pedra não ficou onde estava. Foi mexida, talhada, reposicionada com um propósito: uma praça-forte, com seis baluartes, 2,5 km de muralha e fossos profundos, com taludes cobertos de erva. Um selo na fronteira após a Restauração. De baixo, não se percebe, mas, numa vista aérea ou num mapa de Almeida, vê-se que toda a vila mora dentro de uma estrela.
Entre pelas portas duplas, atravessando a muralha pelo túnel que curva de forma a travar possíveis invasores. Foi ali que entraram os franceses, em 1810, após duas semanas de cerco e a explosão do paiol que matou 500 homens e fez desaparecer o castelo medieval.
Guarde uma manhã para dar uma volta a pé por Almeida, visitando as casamatas à prova de bomba, hoje transformadas em museu militar.
Castelo Mendo guarda berrões de pedra
A justificação para visitar Castelo Mendo está logo à entrada: de cada lado da Porta da Vila há uma figura de granito em forma de porco, também conhecida como berrão, atribuída aos vetões, povo que ali vivia antes da chegada dos romanos.
Entre casas quinhentistas, habitações de estilo manuelino ou grandes solares, a freguesia de Castelo Mendo tem apenas algumas dezenas de habitantes, mas, em tempos, organizava uma feira franca que durava oito dias. Faziam-na três vezes ao ano, e atraía visitantes de toda a região.
Sortelha, onde o granito fala mais alto
Em Sortelha não houve terreno para nivelar. As casas assentaram onde a rocha deixou. Repare nas janelas quinhentistas, com os cantos em bico e os pequenos parapeitos onde se punham os vasos. Depois, suba ao topo da muralha pelas escadas feitas de lajes salientes.
Nos arredores, entre os penedos, há um que o vento e a chuva moldaram e que parece um rosto. Chamam-lhe a Cabeça da Velha. Fique até ao final do dia, altura em que os autocarros se vão embora e o vento passa a ser o único ruído. Aproveite para jantar num dos restaurantes locais, onde o cabrito, o arroz de lebre e o bacalhau na brasa reconfortam a alma.
Monsanto: primeiro o penedo, depois a casa
Monsanto merece a primeira hora da manhã, pelas cores e pela subida, sempre entre penedos. É o que torna a aldeia tão especial. A pedra veio primeiro e as casas foram-se encaixando, algumas aproveitando blocos inteiros como cobertura. São conhecidas como as casas de uma só telha.
Suba ao castelo ou ao que sobra dele. No alto, a vista abre-se sobre a planície até à fronteira. Depois, siga pelo trilho da Rota dos Barrocais (PR5) para encontrar os Penedos Juntos, dois grandes blocos encostados, que obrigam a baixar a cabeça.
Na aldeia, no topo da Torre do Lucano, também conhecida como Torre do Relógio, está um galo de prata. O material dá nas vistas tendo em conta o cinzento do granito. É uma réplica do prémio que a aldeia ganhou em 1938, num concurso para eleger a aldeia mais portuguesa de Portugal.
Idanha-a-Velha com vestígios romanos gravados
A última paragem fica a um quarto de hora. Idanha-a-Velha é plana e silenciosa, e o granito é material reaproveitado. Passeie devagar e procure, nas esquinas das casas, os blocos com letras latinas, testemunho da cidade romana que ali existiu. Aliás, a coleção epigráfica romana de Idanha-a-Velha, que pode visitar no Arquivo Epigráfico, é um dos maiores conjuntos em Portugal.
Visite a zona do antigo fórum, onde a Torre dos Templários assenta sobre o pódio de um templo romano, e a antiga catedral. Siga depois até ao rio Pônsul e atravesse-o a pé pelas poldras, ou seja, blocos de pedra.
Entre Idanha-a-Velha e Castelo Rodrigo, distam pouco mais de 150 km, sempre com a mesma pedra cinzenta. O que muda é o que cada aldeia decidiu fazer com ela: telhados, muralhas, degraus, paredes e até berrões que guardam a entrada e contam a história dos povos que por ali passaram.
Informações úteis para a viagem Almeida, Castelo Rodrigo e Monsanto
Em Almeida (Guarda), o custo mínimo da viagem a dois, de 27 a 29 de novembro, é de 146 euros. Inclui alojamento em hotel de quatro estrelas, com pequeno-almoço.
Se preferir um programa com passagem por duas aldeias, o orçamento dispara para 315 euros. Começa em Castelo Rodrigo (Guarda), de 25 a 27 de novembro, em turismo rural, e acaba no Geo-Hotel Escola de Monsanto (Castelo Branco), de 27 a 29 do mesmo mês. Os preços foram recolhidos online a 6 de outubro.
Quando ir
Vá no inverno, para captar a luz dourada do final do dia, o fumo e o cheiro das lareiras nas aldeias, os magustos e os madeiros de Natal. Escolha a primavera e o verão, para ver as cegonhas nos ninhos, a Festa das Cruzes e as recriações históricas.
Como chegar
Vá de carro, para ter total mobilidade. Use a A23, se viajar a partir do sul, e a A25, se for desde o norte. Se viajar de autocaravana, em todas as aldeias históricas estão sinalizados os locais de pernoita.
Quanto tempo
Reserve três a quatro dias para fazer este roteiro. Se tiver mais tempo, deixe, pelo menos, um dia para ir até ao Vale do Côa e visitar o museu e as gravuras rupestres.
Grande Rota 22: descobrir aldeias históricas a pé ou de bicicleta
Siga pela Grande Rota 22, de bicicleta ou a pé, para visitar todas as 12 aldeias históricas de Portugal, incluindo as que lhe trazemos aqui. São quase 900 km que, desde 2023, incluem também locais históricos em Espanha.
|
O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROteste, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições. |
