Mafra e Ericeira: o que fazer e visitar do Palácio Nacional à reserva mundial de surf
Entre o palácio que um rei mandou erguer e a vila que nasceu da força do mar, vão apenas 10 quilómetros. Pelo caminho, ficam livros guardados por morcegos, veados que florescem na tapada e as ondas de reconhecimento mundial.
As bibliotecas são casas pensadas com a esperança de que os livros que albergam sobrevivam por gerações e continuem a contar histórias. A biblioteca do Palácio Nacional de Mafra não é diferente. Naqueles 88 metros de comprimento, vivem mais de 30 mil livros, preservados como um tesouro.
A National Geographic e a Taschen consideraram-na uma das bibliotecas mais bonitas do mundo. Podíamos pensar que seria um exagero sobre uma única sala, mas as belas estantes em estilo rococó, o chão em mármore azul, branco e rosa e o teto alto dão-lhe uma envolvente luminosa, mesmo quando a luz natural é controlada em prol da preservação das obras.
E depois os morcegos, escondidos de quem visita o espaço durante o dia. Estes conservadores comem os insetos que atacariam o papel, a tinta e a cola.
Palácio monumental
A biblioteca do Real Edifício de Mafra, como é oficialmente conhecido, é um dos grandes atrativos de um palácio monumental mandado construir por D. João V em 1717. Este é um dos maiores monumentos do barroco português, reconhecido pela UNESCO como Património Mundial em 2019, incluindo ainda uma basílica, um convento franciscano, o Jardim do Cerco e a Tapada de Caça.
Para o construir, foram necessários mais de 45 mil homens e, no seu estaleiro, formou-se uma geração de mestres e engenheiros que aprenderam técnicas, que, décadas depois, seriam usadas na reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755.
Outro tesouro está guardado nas torres da basílica: 120 sinos, dos quais 93 formam dois carrilhões fundidos em 1730 em Liège e em Antuérpia. É o conjunto sineiro histórico mais importante do mundo. Desde o tempo de D. João V, esta foi a residência escolhida pelos monarcas portugueses para fugirem da cidade e entregarem-se ao ócio e à caça de veados e javalis na tapada.
Aliás, foi para aqui que D. Manuel II fugiu quando, na madrugada de 4 de outubro de 1910, estalou a revolução republicana. Passou a última noite em Portugal em Mafra. No dia seguinte, com a mãe, D. Amélia, e a avó, D. Maria Pia, seguiu para a Ericeira, a apenas 10 km, e embarcou na Praia dos Pescadores rumo a Gibraltar e ao exílio em Inglaterra.
Seguindo os passos reais
Este é o percurso que sugerimos numa viagem que tem tanto de pedra como de mar. Comece com a visita ao Palácio Nacional de Mafra. Foi recentemente alvo da primeira grande obra de conservação e restauro em 300 anos, uma limpeza que devolveu os tons naturais da pedra lioz.
De lá, passe para o Jardim do Cerco, onde encontra a nora centenária, o Horto das Aromáticas, com cerca de 39 espécies, e a Horta dos Frades, com as plantas que abasteciam a botica do Convento de Mafra.
Aqui, todos os anos, tem lugar o Festival do Pão, de entrada gratuita, que celebra um dos produtos mais famosos da região com uma feira repleta de tasquinhas, artesanato, folclore e animação.
Tapada Nacional de Mafra com mais de 370 espécies
A Tapada Nacional de Mafra é a próxima paragem, antes de traçar rumo à Ericeira. Esta coutada real, criada em 1747 e cercada por 21 km de muro, guarda hoje 833 hectares e mais de 370 espécies, entre as quais, veados, gamos, javalis, raposas e aves, como a águia-de-bonelli.
Está aberta o ano todo e permite fazer percursos pedestres, andar de bicicleta, passeios de charrete ou participar em demonstrações de falcoaria. Em dias de risco de incêndio muito elevado, as experiências ficam restritas à zona do vale.
Ericeira classificada como Reserva Mundial de Surf em 2011
A brisa que corre pela tapada não está isenta de sal. Está a apenas poucos quilómetros do mar.
A Ericeira pode ter ido parar aos livros de História por culpa da revolução de 1910 e pode até ter sido procurada como estância de verão durante décadas pelas elites de Lisboa e arredores. Mas hoje é um dos principais destinos de surf europeus. E isso sente-se nas pequenas ruas de calçada e nas praias feitas de rocha e ouriços.
Em 2011, foi classificada como Reserva Mundial de Surf, a primeira da Europa e a segunda do mundo, depois de Malibu, na Califórnia. Em apenas 4 km de costa, concentra sete ondas de qualidade reconhecida. As mesmas ondas que desafiam, desde sempre, aquela comunidade piscatória são hoje impulsionadoras de uma economia que tem feito a localidade florescer: das lojas e escolas de surf aos cafés repletos de turistas e nómadas digitais, passando pelos restaurantes onde o peixe e o marisco são reis.
Vale a pena ir até ao Largo do Jogo da Bola e apreciar o buliço do centro da vila a partir de uma das esplanadas. Desça depois até ao antigo casino, hoje centro cultural, para apreciar a fachada, e siga para o miradouro sobre a Praia dos Pescadores. A mesma que viu sair um rei que nunca mais voltou.
Informações úteis para a viagem à Ericeira
O custo mínimo da viagem a dois, de 16 a 18 de outubro, é de 277 euros. Inclui alojamento em hotel de quatro estrelas, com pequeno-almoço, na Ericeira. Para o período de 17 a 23 de outubro, o orçamento mínimo é de 774 euros. Os preços foram recolhidos online a 7 de agosto.
Como chegar e circular
De Lisboa, siga pela A8 e depois pela A21. Do Porto, tome a A1 até à zona de Leiria e, daí, a A8 e a A21. De autocarro, a Carris Metropolitana liga Lisboa (Campo Grande) à Ericeira, passando por Mafra.
Faça contas ao tempo
O palácio pede de uma hora e meia a duas horas para ser visto com calma. Para a Tapada, guarde, pelo menos, meio dia para apreciar com calma a paisagem e os animais. Na Ericeira, fique um dia ou mais, para aproveitar a praia, experimentar um ou dois restaurantes e, quem sabe, ter a primeira aula de surf.
Vai com a família?
A Tapada Nacional de Mafra oferece atividades diárias tendo em vista os mais novos, como passeios de charrete, demonstrações com aves de rapina e ateliês de apicultura. Pode também reservar cestas de piquenique para uma refeição sob o olhar atento dos veados.
Elite do surf na ericeira
Ribeira d'Ilhas recebe anualmente o EDP Ericeira Pro, uma etapa do WSL Challenger Series. A edição de 2026 decorre entre 6 e 12 de outubro. Pela mesma praia, passa a Liga MEO Surf, o principal campeonato nacional.
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