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Óbidos: o que visitar durante o FÓLIO, Festival Literário Internacional

Em outubro, o FÓLIO enche as ruas de Óbidos de escritores e amantes de livros. Mas a vila literária que a UNESCO distinguiu vai muito além deste festival. Vive nas antigas igrejas, mercados e adegas.

Editor:
11 setembro 2026
Vista de Óbidos, com o castelo ao fundo

Marlene Marques

Há vilas que se leem. Nas páginas de um livro ou a percorrer as ruas, Óbidos é assim. Basta entrar pela porta certa.

Todos conhecemos a fotografia: uma vila medieval, no topo de uma colina, com casas caiadas de branco e barras azuis e amarelas. E a ginjinha, em copo de chocolate. A imagem é verdadeira, mas superficial. A vila teve ocupação romana e muçulmana, e passou de mão em mão como parte do dote das rainhas de Portugal. Tudo cabe em 1,5 km de muralha, hoje percorrida a pé.

UNESCO integra Óbidos na Rede de Cidades Criativas da Literatura

Em 2013, o inesperado aconteceu. Óbidos caminhava para a decadência, com vários edifícios devolutos, cada vez menos habitantes e uma economia assente nos autocarros que ali paravam. Mas a resposta foi além de mais lojas de ímanes e copinhos de ginja.

O livreiro José Pinho, o mesmo que abriu a livraria Ler Devagar em Lisboa, trouxe a ideia do País de Gales: abrir livrarias nos espaços devolutos. Dois anos depois, em 2015, a UNESCO integrava Óbidos na sua Rede de Cidades Criativas da Literatura, ao lado de Dublin, Edimburgo e Barcelona.

Onze dias dedicados à leitura

A vila recebe, entre 8 e 18 de outubro, o FÓLIO, Festival Literário Internacional de Óbidos. A escala parece quase absurda. Falamos de uma vila com menos de uma centena de habitantes que, nestes dias, e segundo os dados do ano passado, tem mais de 100 mil visitantes a percorrer a calçada de pedra, a saltitar entre mesas de conversa, apresentações de livros, sessões de autógrafos e concertos.

Os nomes desta 11.ª edição justificam a viagem. O cabeça de cartaz é Jon Fosse, o norueguês distinguido com o Nobel da Literatura em 2023, autor de uma obra traduzida em mais de 50 línguas. A acompanhá-lo estão Leïla Slimani, Kiran Desai, Yann Martel e os portugueses Valter Hugo Mãe e Ricardo Araújo Pereira, entre outros.

Além da lista de autores consagrados, o FÓLIO promove a debate um tema na ordem do dia: a Inteligência Artificial. No FÓLIO Tec, vai-se falar sobre a escrita feita por máquinas e sobre direitos de autor quando o texto não é "humano".

Óbidos feita de livros

Mesmo depois do festival terminar, as livrarias continuam abertas para quem quiser visitá-las. A começar pela Igreja de São Tiago, no largo com o mesmo nome, junto à entrada que leva ao castelo. Esta igreja data do séc. XII, tendo sido reconstruída após o terramoto de 1755.

Por aqui já não se reza a missa. Os bancos e as estátuas religiosas deram lugar a estantes que vão do chão ao altar-mor. Chama-se Livraria de Santiago e o silêncio continua o mesmo de um templo, apenas quebrado pelos passos de quem sobe as escadas ou folheia as páginas de um livro.

Daqui, siga pela Rua Direita até ao n.º 27, a Livraria do Mercado. O nome não é em vão. Este antigo quartel de bombeiros é hoje uma livraria que partilha o espaço com um mercado biológico.

Por aqui, compra um romance em segunda mão, bem ao estilo dos alfarrabistas, retirado de uma prateleira feita com caixas de fruta, ao mesmo tempo que leva uma couve para a sopa que vai fazer para o jantar. Não vai conhecer muitos sítios como este, onde o cheiro do papel velho se mistura com o das maçãs acabadas de apanhar.

A poucos metros, no Espaço Ó, encontra a Livraria da Adega. Aqui, os livros estão dispostos em caixas de vinho e pode beber um copo enquanto decide qual obra literária vai levar para casa.

Mas os espaços dedicados aos livros não ficam por aqui. Pode visitar a Casa José Saramago, sede da biblioteca da vila, ou, já fora das muralhas, em Casais Brancos, O Bichinho de Conto, a primeira livraria portuguesa especializada em literatura infantil.

Colado ao exterior das muralhas está o The Literary Man, um antigo convento do séc. XIX transformado em hotel, com mais de 65 mil livros espalhados pelas paredes dos corredores e quartos.

A vila para lá das palavras

Óbidos faz-se em meio dia, exceto se quiser passar horas a fio na companhia do livro que comprou, mas o Oeste à volta merece o seu tempo.

A 15 minutos de carro ficam as Caldas da Rainha, que cresceram à volta do hospital termal fundado por D. Leonor. Se for logo de manhã, encontra a Praça da Fruta, o mercado hortícola diário mais antigo do País. Uma delícia para todos os sentidos.

Não saia da cidade sem visitar o Museu José Malhoa, o Parque D. Carlos I e a Fábrica Bordallo Pinheiro, que conta com uma loja onde pode comprar peças inspiradas no trabalho do famoso ceramista português, a preço mais em conta.

Mais uns quilómetros e chega à Lagoa de Óbidos. É a maior lagoa costeira de Portugal e em tempos alcançou o sopé de Óbidos. Hoje, encontra-se com o mar na Foz do Arelho e deixa-se ler pelos amantes de birdwatching nas várias torres de vigia que encontra ao longo dos trilhos e pelos mariscadores que percorrem a areia em busca dos buracos de amêijoa.

Informações úteis para a viagem a Óbidos

Em Óbidos, o custo mínimo da viagem a dois, de 9 a 11 de outubro, é de 280 euros. Inclui alojamento em hotel de quatro estrelas, com pequeno-almoço, em Óbidos. Para o período de 12 a 15 de outubro, o orçamento mínimo é de 289 euros. Evita a maior agitação do fim de semana. Os preços foram recolhidos online a 29 de julho.

FÓLIO

O festival acontece de 8 a 18 de outubro sob o tema "Para além da Pele". Existem atividades de entrada livre, mas alguns concertos ou masterclasses podem exigir bilhete pago ou reserva de lugar. Consulte o site do festival antes de ir.

Quando ir

Se for possível conciliar, escolha os dias de semana. Para ver os livros com tranquilidade, falar com os livreiros e fotografar as ruelas sem multidões, planeie a visita de segunda a quinta-feira. Os fins de semana atraem milhares de visitantes.

Viaja de carro?

O acesso ao interior das muralhas estará condicionado. Há vários parques pagos fora do centro histórico. Os mais próximos da Porta da Vila ficam junto ao Posto de Turismo. Existe ainda o parque do Aqueduto, gerido pelos bombeiros.

Onde comer

Vá à Capinha d'Óbidos pelo bolo em forma de ferradura, ao Jamón Jamón para petiscos, ao Avocado para comida vegetariana e ao Lounge para cozinha portuguesa.

 

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