Estremoz: o que fazer e visitar na cidade de barro e mármore
No meio da planície alentejana, Estremoz convida à visita. Do castelo medieval aos bonecos tradicionais, passando pelas modernas adegas, esta cidade revela-se de diferentes formas. Todas ricas em histórias. Uma escapadinha de fim de semana a dois custa a partir de 175 euros.
Vista de longe, a torre de menagem do castelo de Estremoz domina a paisagem como um farol no meio da planície alentejana. É essa imagem, de casas caiadas e uma torre que vigia tudo, que chama a atenção quando passamos pela EN4.
Mas é vista mais de perto que Estremoz se revela verdadeiramente. Entre ruas estreitas cheias de detalhes em mármore, ateliês de barristas que dão forma à vivência local e adegas onde o vinho envelhece e ganha corpo, esta cidade conta uma história que vai muito para lá das suas muralhas.
Duas cidades numa só
Estremoz divide-se em dois mundos. A cidade alta, medieval e entre as muralhas, e a cidade baixa, mais recente e comercial. É esta vida dupla que dá à localidade o seu charme.
Comece por subir ao castelo por ruas onde o mármore aparece com frequência. Um luxo que só esta região oferece, já que está assente no Anticlinal de Estremoz, uma das mais importantes zonas de mármore do País. Na parte antiga, as casas são brancas, as janelas estreitas, e, nesta altura do ano, há um silêncio que só se quebra com o som dos passos na calçada. Chegado ao topo, o castelo alberga uma série de estruturas para ocupar uma boa hora do seu tempo.
A torre de menagem, ou Torre das Três Coroas, assim chamada porque a construção decorreu durante três reinados, é um dos ex-libris. Com 27 metros de altura e coberta de mármore, é considerada uma das mais belas fortalezas medievais do Alentejo.
Foi neste castelo que a Rainha Santa Isabel faleceu, em 1336, durante uma viagem diplomática destinada a apaziguar o conflito entre D. Afonso IV e o rei de Castela, Afonso XI. A Capela da Rainha Santa Isabel, construída no local dos seus aposentos, guarda azulejos do século XVIII que retratam cenas da vida da rainha consorte.
O antigo Paço Real, hoje Pousada de Portugal, e a Igreja de Santa Maria, também conhecida como Igreja Matriz de Estremoz, são dois lugares a não perder.
Estremoz entre o barro e a memória
Se o castelo conta a história dos reis, o barro conta a história do povo. Os Bonecos de Estremoz, reconhecidos pela Unesco como Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2017, são a alma desta cidade alentejana.
A tradição está ligada às "boniqueiras", mulheres que, no século XVIII, moldavam figuras de santos e pequenas cenas do quotidiano. Fora das olarias, produziam aquilo que na época era chamado de "curiosidades".
As figuras multiplicaram-se. Dos santos passaram aos presépios, e dos presépios às cenas da vida alentejana: ceifeiras, pastores, mulheres à janela, matança do porco. Hoje, estão inventariadas mais de cem figuras, cada uma pintada com cores garridas, que trazem alegria e fascínio a quem as vê.
É no Centro Interpretativo dos Bonecos de Estremoz, no antigo Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte, que se percebe a evolução desta arte, desde as primeiras figuras mais simples às peças mais recentes, que mantêm a técnica, mas exploram novos temas. Na cidade, há também ateliês onde pode ver os barristas a trabalhar. Poucos artistas são certificados, e cada um tem o seu estilo. Afonso Ginja, Fátima Estróia, Zé Carlos Rodrigues, Maria Isabel Pires ou as Irmãs Flores são apenas alguns nomes dos que mantêm viva a tradição.
O mármore sob os pés
Caminhar por Estremoz é encontrar mármore a cada passo. Esta região, incluindo Borba e Vila Viçosa, concentra uma boa parte da atividade do mármore em Portugal. Aqui, a pedra branca está por todo o lado: nas fachadas dos edifícios, nas molduras das janelas e até na calçada.
O mármore é explorado e utilizado desde a Antiguidade, e ganhou expressão ao longo do tempo. Hoje, há dezenas de pedreiras em atividade e foi criada a Rota do Mármore, para dar a conhecer este património industrial.
A descida do castelo até à Baixa da cidade mostra outro lado de Estremoz. O Rossio Marquês de Pombal, chamado simplesmente de "Rossio", é considerado por muitos a maior praça central do País. A abraçá-la surge a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, também chamada de Convento dos Congregados, e, a 100 metros dali, na Praça Luís de Camões, o pelourinho manuelino.
A vida quotidiana acontece pelo Rossio. No mercado semanal, aos sábados, vendem-se produtos da região: queijos, enchidos, azeites, mel. Entre as casas apalaçadas, os cafés enchem-se ao final da tarde. E, nos restaurantes, a gastronomia serve-se sem rodeios: ensopado de borrego, açorda, migas, e a doçaria conventual que fecha qualquer refeição com perfeição.
Um dos mais antigos era o café-restaurante Águias d’Ouro. Datado do início do século XX, fechou portas por motivos de insegurança do edifício. Apesar de, à data deste artigo, não estar marcada a reabertura (ou se voltará a abrir), pode ainda vislumbrar a fachada com influências de Arte Nova, que caracterizavam aquele famoso café de tertúlias.
Vinhos que contam histórias
Por aqui, vinho não falta à mesa. Estremoz integra a Rota dos Vinhos do Alentejo. A paisagem ao redor é um tapete de vinhas simétricas, que se estendem até onde a vista alcança. Várias adegas perto da cidade abrem as portas ao enoturismo.
A João Portugal Ramos é uma das mais conhecidas, com uma arquitetura que segue a tradição alentejana. A Herdade das Servas, a 8 quilómetros de Estremoz, tem mais de 350 anos de produção vinícola. A visita passa pelas vinhas (algumas com mais de 70 anos), pela adega e pela cave, antes de terminar na sala de provas.
A Quinta Dona Maria destaca-se pelos lagares em mármore, onde ainda hoje se faz a pisa da uva. Já a Tiago Cabaço mostra a forma de trabalho de uma geração de produtores mais novos, que já conquistaram nome e as prateleiras das principais garrafeiras do País. Cada adega tem a sua identidade, mas todas partilham o orgulho de trabalharem com castas bem adaptadas às terras do Alentejo.
Destinos para lá de Estremoz
Nos arredores de Estremoz, outros lugares merecem um desvio da rota. Evoramonte é um deles. A 16 quilómetros de Estremoz, é uma vila medieval fortificada empoleirada na Serra d’Ossa.
O castelo, com uma planta quadrada e quatro torres de formato invulgar, foi palco da assinatura da Convenção de Évora Monte, em 1834, que pôs fim à Guerra Civil entre liberais e absolutistas. Quase à mesma distância está Borba, uma vila alentejana onde o vinho e o mármore fazem parte da história. E, mais longe, a caminho de Espanha, chega a Vila Viçosa, onde tudo gira em torno do Paço Ducal, antiga residência da Casa de Bragança.
A paisagem revela-se em montados de sobro e azinho, temperada por uma luz única que muda ao longo da viagem: dourada de manhã, quase branca a meio do dia, e em tons de rosa ao entardecer.
O cenário é perfeito, neste momento, quando o calor ainda não aperta. Não tente ver todos estes sítios num só dia. Afinal, Estremoz não é um lugar para uma breve paragem. Quer-se percorrida a pé, sem pressa. Entre numa oficina de bonecos, troque dois dedos de conversa com o artista e veja as suas mãos a moldar o barro.
E pare numa adega e saboreie um trago de vinho, compreendendo a paixão de quem o faz. Suba ao castelo ao final da tarde e deixe que a vista sobre a planície alentejana o conquiste e lhe lembre o quanto ainda há a descobrir por aqui.
Informações úteis para visitar Estremoz
Em Estremoz, o custo mínimo da viagem a dois, de 24 a 26 de abril, é de 175 euros. Inclui alojamento em hotel de quatro estrelas com pequeno-almoço. Se preferir um programa para explorar Estremoz com mais vagar e provas de vinho, a semana de 18 a 24 de abril custa a partir de 477 euros no mesmo cenário. Os preços foram recolhidos online, a 4 de março.
Quando ir
Entre abril e junho é a melhor altura para visitar Estremoz, quando a temperatura é mais amena e permite percorrer a cidade a pé. No verão, o calor pode ser intenso, sobretudo a meio do dia.
Como chegar
O acesso faz-se pela A6 ou pela EN4. Opte por estacionar na zona do Rossio e fazer a visita a pé. Pode também chegar de autocarro, a partir de Lisboa, através da Rede Expressos.
Eventos e festas
Todos os anos, entre abril e maio, realiza-se a FIAPE – Feira Internacional de Agropecuária de Estremoz, onde o artesanato, a gastronomia e a música marcam presença. Este ano, a 38.ª edição acontece de 29 de abril a 3 de maio, em paralelo com a 42.ª edição da Feira de Artesanato de Estremoz.
No último fim de semana de novembro, tem lugar o Cozinha dos Ganhões, um festival de gastronomia alentejana que junta os sabores regionais com folclore e cante alentejano.
Ter em conta
Algumas zonas do centro histórico apresentam desníveis e pavimento irregular. Por isso, leve calçado apropriado. Para as adegas, reserve a visita com antecedência.
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