Guerra no Médio Oriente: preços dos combustíveis, da eletricidade e do gás vão continuar a subir em Portugal?
Os preços da gasolina e do gasóleo subiram com a escalada do conflito no Médio Oriente. Mas o que podem os consumidores esperar nos próximos meses? E que impacto tem esta crise nos preços da eletricidade e do gás?
Neste artigo
- O conflito no Médio Oriente vai continuar a pressionar os preços dos combustíveis?
- Porque é que o preço do gasóleo sobe mais do que o preço da gasolina?
- O preço do gás natural também subiu devido ao conflito no Médio Oriente?
- O preço do gás engarrafado também vai subir? E o do gás propano canalizado?
- O preço da eletricidade também vai subir?
- O que posso fazer para poupar combustível?
- DECO PROteste pede mudança na estrutura dos impostos sobre os combustíveis e descida do IVA no gás engarrafado e canalizado para 6%
O conflito no Médio Oriente encerrou o estreito de Ormuz no início do ano, levou a uma forte redução nas exportações de petróleo de alguns países da região e veio agitar os mercados energéticos. Como consequência, os preços do petróleo e dos seus refinados, assim como do gás natural, dispararam, provocando um aumento expressivo nos preços dos combustíveis em todo o mundo. E depois de um período de relativa estabilidade durante o verão, os ataques dos Houthis contra a Arábia Saudita, que obrigaram ao encerramento de um dos oleodutos mais importantes para a exportação de petróleo na região, só vieram agravar a crise energética. Os efeitos da situação no Médio Oriente estendem-se agora a toda a economia, incluindo ao preço da eletricidade.
Esclareça as principais dúvidas sobre a evolução dos preços dos combustíveis rodoviários, da eletricidade, do gás engarrafado e do gás natural.
Voltar ao topoO conflito no Médio Oriente vai continuar a pressionar os preços dos combustíveis?
Tudo indica que sim. As tensões geopolíticas no Médio Oriente aumentaram o preço do barril de petróleo nos últimos meses. Depois de na primeira semana de março ter subido de 70 dólares para 80 dólares, o preço do barril de petróleo disparou para valores que há muito não se viam, acima dos 100 dólares.
A perspetiva de um cessar-fogo levou a uma correção de preços para um intervalo entre os 80 e os 90 dólares nos meses de junho a agosto. No entanto, com um novo agravamento do conflito, os preços rapidamente voltaram a subir acima dos 100 dólares por barril.
Por detrás desta nova tendência de subidas está a escassez provocada pela intermitência da circulação no estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% dos hidrocarbonetos utilizados ao nível mundial, assim como o agravamento dos preços de fretes e seguros para os navios que circulam naquele estreito. Além disso, as ações militares desta guerra, que levaram à destruição de infraestruturas como refinarias, oleodutos e pontos de extração, estão a criar uma crise na refinação de petróleo.
Os mercados energéticos têm reagido de forma abrupta e pouco previsível aos desenvolvimentos diários da situação no Médio Oriente. Por isso, mesmo num cenário de imediata resolução do conflito, não é expectável que os preços do petróleo voltem aos 60 dólares por barril que registavam no início de 2026.
Voltar ao topoPorque é que o preço do gasóleo sobe mais do que o preço da gasolina?
Depois do encerramento de dezenas de refinarias de petróleo nas últimas décadas, a Europa tornou-se deficitária na refinação de gasóleo, o que torna a região dependente de importações desta matéria-prima.
Antes do início do conflito na Ucrânia, a Europa importava gasóleo da Rússia, país com uma grande capacidade de refinação deste combustível fóssil. Com os embargos atualmente em vigor, a Europa tem importado gasóleo de outras geografias que estão agora envolvidas no conflito no Médio Oriente, como o Qatar ou os Emirados Árabes Unidos, o que tem um impacto direto na subida do preço deste combustível.
A somar a tudo isto, mais recentemente, as infraestruturas russas de refinação de petróleo têm sido atacadas, o que levou o país a impor um embargo às exportações de refinados, contribuindo, assim, para a diminuição na oferta mundial destes produtos e colocando mais pressão nos preços dos combustíveis.
Voltar ao topoO preço do gás natural também subiu devido ao conflito no Médio Oriente?
Sim, esta é uma das fontes energéticas afetadas pelo conflito no Médio Oriente. Na primeira semana de março, foi registada uma subida abrupta de preços de cerca de 70% nos mercados grossistas de gás natural. No entanto, algumas semanas depois, este valor estabilizou entre os 40 e os 50 euros por MWh, um marco, ainda assim, acima dos cerca de 30 euros por MWh que registava antes do conflito agravar.
Esperando preços mais competitivos, os países europeus atrasaram o reabastecimento de stocks de gás natural para o inverno. No entanto, em setembro as reservas estavam abaixo dos 70%, um valor inferior ao habitual para esta época do ano. Com um novo agravamento do conflito no horizonte, os preços do gás natural estão em setembro a oscilar entre os 70 e os 80 euros por MWh, o que poderá pressionar muito os preços pagos pelo consumidor quando chegar a altura de repor os stocks de gás natural tão necessários para fazer face aos meses mais frios que se avizinham no continente europeu.
Para já, os consumidores que estão no mercado regulado ainda não deverão sentir este impacto nas faturas do gás natural, mas é recomendável que se mantenham atentos à evolução dos preços. A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) já comunicou que as tarifas de gás natural do mercado regulado deverão aumentar a partir de 1 de outubro, o que se poderá traduzir num aumento de cerca de 3 euros por mês.
Consulte regularmente o simulador de energia da DECO PROteste para estar sempre a par da tarifa mais competitiva para os seus hábitos de consumo.
Voltar ao topoO preço do gás engarrafado também vai subir? E o do gás propano canalizado?
O aumento do preço do gás engarrafado foi uma das consequências mais imediatas deste conflito, com uma subida superior a 3 euros em apenas três meses. De acordo com a ERSE, uma garrafa de gás butano de 13 quilos, a tipologia mais comum em Portugal, que custava, em fevereiro, em média, 34,12 euros, atingiu um máximo de 37,31 euros em maio, o que impactou cerca de 2,1 milhões de lares em Portugal que ainda usam esta fonte energética.
No gás propano canalizado (gás de depósito), que abastece mais de 400 mil lares, o impacto também foi sentido de forma substancial. Contudo, a DECO PROteste defende que é possível mitigar os efeitos da subida de preço se o Governo intervir já, aplicando uma redução no IVA do gás engarrafado e canalizado, para 6 por cento.
"São produtos equiparados a um serviço público essencial, pelo que carecem de especial proteção para os consumidores. Ao contrário do que acontece na eletricidade e no gás natural, também serviços públicos essenciais, no gás engarrafado e no gás propano canalizado, o IVA à taxa máxima aplica-se ao preço total. Defendemos uma abordagem equitativa para produtos que servem os mesmos fins e abrangem a mesma população, para uma utilização tão básica como cozinhar ou aquecer água. Uma garrafa de gás butano de 13 quilos com taxa de IVA reduzida custaria, com o atual preço médio de setembro, cerca de 31 euros, um valor inferior aos 36 euros que os consumidores pagam atualmente", explica Pedro Silva, analista de mercado de Energia na DECO PROteste.
"O tratamento discriminatório deste tipo de gás não acaba aqui, uma vez que, ao contrário do princípio de neutralidade fiscal aplicado aos combustíveis rodoviários, no caso do gás engarrafado, o Governo não fez qualquer ajuste ao ISP cobrado e está a obter uma receita de IVA acima do que tinha previsto no Orçamento do Estado, por efeito da subida do preço nos mercados internacionais. É exigível, no mínimo, um tratamento idêntico, mais ainda quando estes são considerados serviços públicos essenciais", acrescenta Pedro Silva.
Voltar ao topoO preço da eletricidade também vai subir?
A evolução do preço do gás natural influencia o preço da eletricidade, pelo que o risco de contaminação que a DECO PROteste tinha previsto em abril já se está a verificar.
Após uma forte subida de preços, o gás natural registou durante o verão preços entre os 40 euros e os 50 euros por MWh nos mercados grossistas. São valores muito abaixo dos 300 euros por MWh atingidos nos anos 2022 e 2023. Apesar disso, em setembro, com o agravamento do conflito no Médio Oriente e os movimentos de reabastecimento dos stocks europeus de gás natural para preparar o inverno, os preços rondam agora entre os 70 e os 80 euros por MWh.
Esta crise de preços, que se prevê prolongada, levou já a uma atualização dos preços de eletricidade no mercado regulado a partir de 1 de outubro, estimada em cerca de 1 a 3 euros para os perfis de consumo mais comuns. No mercado liberalizado de eletricidade, a subida veio logo no início do verão, com o número de tarifas com preços abaixo da regulada a diminuírem consecutivamente. O valor dos futuros (onde os comercializadores compram grandes quantidades com entregas diferidas, em vez de adquirir no mercado diário) para os próximos meses de 2026 no mercado grossista ibérico apontam para preços que quase triplicam a estimativa inicial da ERSE para a média deste ano.
Para encontrar o melhor preço, os consumidores devem manter-se atentos à evolução das tarifas de eletricidade. Para escolher o fornecedor mais barato, use o simulador de energia e descubra o tarifário mais barato para os seus hábitos de consumo.
Voltar ao topoO que posso fazer para poupar combustível?
Há várias estratégias que pode adotar, sobretudo na condução, para poupar no consumo de combustível. Ao aplicar técnicas de condução defensiva, a poupança com combustível pode até chegar aos 600 euros anuais.
Comece por verificar regularmente a pressão dos pneus. Se esta for insuficiente, o consumo de combustível pode aumentar até 6 por cento. Evite também usar o ar condicionado do automóvel a uma baixa velocidade. Use bem as mudanças e conduza com suavidade, evitando acelerações bruscas. Adapte a condução à via em que conduz.
Voltar ao topoDECO PROteste pede mudança na estrutura dos impostos sobre os combustíveis e descida do IVA no gás engarrafado e canalizado para 6%
A DECO PROteste defende há vários anos uma mudança estrutural nos impostos sobre os combustíveis, em vez de medidas avulsas e temporárias em alturas de crise energética. De acordo com a organização de defesa do consumidor, atualmente, entre 38% e 46% do preço pago por cada litro de combustível rodoviário corresponde a impostos: 84 cêntimos por cada litro de gasóleo e 97 cêntimos por cada litro de gasolina. Trata-se da maior carga fiscal média anual alguma vez aplicada a combustíveis em Portugal.
Pedro Silva, analista de mercado de Energia da DECO PROteste, lembra que "tornar a fatura no posto de abastecimento mais sustentável para os consumidores passa, por exemplo, pela alteração permanente da forma como os combustíveis são tributados, nomeadamente eliminando a percentagem do ISP que corresponde aos biocombustíveis, que não são combustíveis fósseis e, por isso, não devem ser tributados como tal. Os consumidores já pagam este sobrecusto de descarbonização na sua fatura, através de uma incorporação de 13% de biocombustíveis por litro de combustível, e não devem ser duplamente penalizados."
A evolução do preço dos combustíveis está também a provocar um novo período de pressão sobre os preços de outros bens. Em agosto de 2026, a taxa de inflação atingiu 3,3%, enquanto os preços dos produtos energéticos aumentaram 12,2%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). "Esta pressão chega ao dia a dia dos consumidores, refletindo-se, por exemplo, no preço dos alimentos", acrescenta Pedro Silva. Para a DECO PROteste, já não basta aplicar um mecanismo de neutralidade fiscal. A organização defende que o Estado use parte dessa receita adicional, fruto de uma maior base de incidência do IVA, para reduzir a carga fiscal sobre os combustíveis e travar o impacto da subida dos preços no orçamento das famílias.
A organização pede, ainda, que o IVA do gás engarrafado desça para 6 por cento, tal como já acontece na eletricidade e no gás natural. A eletricidade e o gás são serviços públicos essenciais, pelo que deveriam ter a mesma taxa aplicada aos bens de primeira necessidade, como os produtos alimentares básicos (arroz, massas e água, por exemplo).
Por fim, a organização de defesa do consumidor afirma que o Governo deve coordenar-se ao nível europeu para uma adequação preventiva do mecanismo ibérico de eletricidade que evite a contaminação dos preços pelo valor do gás natural. Embora esteja dependente da aprovação da Comissão Europeia, tal decisão aceleraria uma eventual resposta perante um agravamento da situação de conflito.
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