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Resistência a antibióticos: problema de saúde pública a resolver

13 novembro 2017
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13 novembro 2017
O consumo inapropriado de antibióticos é um dos responsáveis por bactérias resistentes. Podemos ficar sem armas contra doenças. A DECO e outras organizações de consumidores europeias apelam à ação dos líderes europeus, com a iniciativa Superbug Tour.

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As bactérias que se alojam no nosso organismo estão cada vez mais fortes e resistentes aos antibióticos que tomamos para as combater. A 21 de setembro de 2016, na assembleia-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), os líderes mundiais comprometeram-se pela primeira vez a agir para travar a resistência microbiana e enfrentar as suas causas profundas na saúde humana e animal e na agricultura. Pela quarta vez, um assunto de saúde foi discutido neste fórum. Em anos anteriores, ébola, doenças não comunicáveis e VIH já tinham motivado a atenção desta organização.

10 alertas para a resistência aos antibióticos

Calcula-se que cerca de 25 mil pessoas morram todos os anos na União Europeia devido a infeções causadas por bactérias resistentes a antibióticos. Com frequência, recomenda-se que as pessoas não abusem de antibióticos, mas sabia que os animais também não deviam abusar?

Os antibióticos utilizam-se mais em animais do que em pessoas

Na União Europeia, em média, o consumo de antibióticos é um pouco mais elevado em animais que se destinam à produção de alimentos do que em humanos. Portugal ocupa a 7.ª posição na venda de antibióticos de uso veterinário, segundo os dados mais recentes. 

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Utilizar antibióticos em animais saudáveis contribui para gerar resistências

Por vezes, os animais de exploração agrícola, mesmo quando estão saudáveis, recebem tratamento com antibióticos para prevenir doenças que surgem em condições de sobrelotação ou de higiene insuficiente. Este uso, inadequado e excessivo, potencia resistências. As bactérias que se encontram em frangos e porcos são com frequência resistentes a um ou vários antibióticos. De acordo com o relatório da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, setenta por cento das bactérias de Campylobacter que se encontram na carne de aves são resistentes a um antibiótico muito usado para tratar infeções articulares ou diarreia.

Os antibióticos não matam os vírus

Quando alguém tem uma infeção causada por um vírus (como uma constipação, uma gripe ou a maioria das infeções de garganta e bronquite), os antibióticos de nada servem. Os antibióticos só combatem as infeções causadas por bactérias, como uma pneumonia ou a tuberculose. E com os animais acontece o mesmo. Por isso, só se deveria dar antibióticos aos animais quando prescritos pelo veterinário.

São as bactérias (não as pessoas, nem os animais) as resistentes aos antibióticos

Quando se fala em resistência a antibióticos, muitos assumem que são as pessoas ou os animais que desenvolvem essa resistência. No entanto, são as bactérias que causam as doenças as que se tornam resistentes aos antibióticos. Estas bactérias resistentes podem infetar tanto as pessoas como os animais e as infeções que originam são mais difíceis de tratar do que as causadas por bactérias não resistentes.

Como uma bactéria consegue tornar-se resistente a um antibiótico

Seja de forma natural ou porque houve mutação, algumas bactérias têm genes que lhes permitem resistir aos antibióticos. Quando as bactérias resistem à maioria dos antibióticos chamam-se “superbactérias”. Enquanto os antibióticos matam as bactérias, as bactérias resistentes sobrevivem e multiplicam-se, especialmente quando os antibióticos se utilizam de forma incorreta. Estas bactérias resistentes podem transmitir os seus genes de resistência a outras bactérias. Tal é mais problemático quando se formam“superbactérias” já que a maioria dos antibióticos não tem efeito nestas.

As bactérias resistentes passam dos animais de exploração agrícola para as pessoas

As bactérias resistentes podem passar da exploração agrícola para as pessoas de diferentes maneiras: comer carne com bactérias resistentes pouco cozinhada é uma delas. Outras formas de transmissão incluem o contacto com animais de exploração agrícola vivos portadores das bactérias resistentes, consumir produtos cultivados em terrenos fertilizados com estrume proveniente de animais infetados ou beber água contaminada com os seus excrementos.

Na Europa, o uso de antibióticos para acelerar o crescimento animal está proibido

Incluir de forma habitual doses baixas de antibióticos na alimentação de gado bovino, porcos e aves acelera o seu crescimento e faz a produção de carne mais rentável. No entanto, aumenta o risco de resistências ao expor as bactérias a doses de antibióticos que não são mortais para elas. Ao contrário de outros países, como os Estados Unidos ou a China, a União Europeia proibiu esta prática em 2006. Mas são precisas inspeções que garantam que esta proibição está a ser respeitada. A 7 de novembro de 2017, também a Organização Mundial de Saúde recomendou aos agricultores e à indústria que deixem de usar antibióticos para promover o crescimento e prevenirem doenças em animais saudáveis.

Menos antibióticos no gado diminuem as resistências

Nos países em que os governos tomaram medidas para reduzir o uso de antibióticos nas explorações agrícolas (sobretudo no Norte da Europa), observa-se uma diminuição dos níveis de resistência aos antibióticos, que voltam a ser eficazes. Mas alguns países da União Europeia estão a ficar para trás na luta contra a resistência aos antibióticos, gerada na produção animal. Por exemplo, em 2014, a venda de antibióticos para produção animal em Portugal foi 18 vezes superior à Suécia, revela um relatório da Agência Europeia do Medicamento sobre venda de antibióticos para animais.

As resistências aos antibióticos não têm fronteiras

As resistências aos antibióticos estão a alcançar níveis muito altos em todas as regiões do mundo. As bactérias, resistentes ou não, desconhecem fronteiras e movem-se entre países, espécies animais e comida, entre outros. Combater as resistências aos antibióticos exige uma ação conjunta a todos os níveis, desde pessoas individuais a responsáveis pelas políticas na Europa e no resto do mundo, passando pelo setor agrícola.

Uma cozinha limpa diminui o risco de contaminação com bactérias resistentes

Quando cozinhar, assegure-se sempre de que lava as mãos depois de mexer em carne crua, sobretudo antes de tocar na comida pronta a comer. Lave também qualquer utensílio de cozinha, como tábuas de cortar e pratos, entre outros, depois de cada utilização.

Cozinhe bem a carne. O calor destrói as bactérias, incluindo as resistentes. Descongele sempre a carne no frigorífico.

Mas tudo isto nada mais é do que uma gota de água no oceano. Melhorar as condições higiénicas nas quintas, proibir o uso preventivo de antibióticos nos animais de quinta de forma rotineira e reduzir as condições stressantes aos que estão sujeitos a elas são medidas que ajudariam a reduzir a necessidade de utilizar antibióticos.

Por isso, a DECO e outras organizações de consumidores europeias apelam à ação dos líderes europeus, com a iniciativa #SuperbugTour. Procure-a nas redes sociais.

A resistência aos antibióticos na área alimentar é preocupante

O estudo que realizámos a 40 amostras de peito de frango, a granel e pré-embalados, publicado em setembro de 2016, confirma que a resistência aos antibióticos na área alimentar encontra-se num ponto difícil de controlar. Incluímos análises à higiene e aos resíduos de antibióticos. Se os resultados a estes últimos parâmetros não suscitam preocupações de maior, já o mesmo não se pode dizer do teste que realizámos à resistência dos antibióticos

Analisámos em laboratório antibióticos que combatem a Escherichia coli (E.coli). Verificámos a eficácia de quatro antibióticos sobre as estirpes de E.coli que detetámos no nosso estudo a peitos de frango. A resposta, para os dias de hoje, é que 14% das bactérias sobrevivem à Cefepime. Mas, no futuro, serão 94 por cento. Baseámo-nos em valores do EUCAST - Comité Europeu para Avaliação de Suscetibilidade Antimicrobiana, que estuda as resistências.

“Caso não se tomem medidas, a resistência aumentará cada vez mais”, alerta Dulce Ricardo, responsável pelo estudo. “A produção animal em regime mais intensivo deve ser desenvolvida em ambientes muito controlados, para minimizar ao máximo o contágio por bactérias resistentes ”, adverte. Além do frango, já se encontraram bactérias resistentes noutras carnes, como vaca e porco, e em legumes.

 

 

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Qual a eficácia de quatro antibióticos sobre a E.Coli detetada? Hoje, 14% das bactérias sobrevivem à Cefepime mas, no futuro, serão 94 por cento.

 

ONU avança com medidas

O aumento das resistências aos antibióticos é uma das maiores ameaças à saúde humana e animal. A ONU reconheceu em setembro último tratar-se de um problema intergovernamental que abrange várias áreas. Considerou prioritária a necessidade de mais investigação e desenvolvimento em áreas essenciais (microbiologia, epidemiologia e produtos à base de plantas e tradicionais) para apoiar o desenvolvimento de novos antibióticos seguros, eficazes e acessíveis. Para reduzir os resíduos de antibióticos no solo, na água e nas colheitas, há que implementar maior vigilância antimicrobiana ao nível da indústria alimentar e de aquacultura, dos hospitais, bem como sensibilizar governos, universidades e organizações não-governamentais para o uso racional dos antibióticos


A ONU anunciou ainda que irá avançar com o apoio ao desenvolvimento e implementação de planos nacionais multissetoriais, programas e políticas para garantir o uso apropriado de antibióticos em humanos e animais e disponibilizar informação para vários grupos-alvo. Em paralelo, a Organização Mundial de Saúde e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) vão promover planos nacionais para controlar, distribuir e usar novos antibióticos de forma adequada, entre outras medidas. 

Restringir o uso de antibióticos às situações indispensáveis, no Homem e nos animais, é crucial para travar as bactérias. Exige-se um controlo apertado da prescrição e aplicação destes fármacos nas explorações pecuárias, para garantir o uso exclusivo para fins terapêuticos. A União Europeia assumiu a liderança na limitação de antibióticos na produção animal e agrícola. Vários países europeus, incluindo Portugal, criaram sistemas de vigilância de resistência aos antimicrobianos. É preciso alargá-los e garantir que funcionam, para monitorizar o impacto das resistências. Esta questão tem sido para nós uma preocupação fundamental e pertencemos ao PANRUAA (Plano de Ação Nacional para a Redução do Uso de Antibióticos nos Animais), plano posto em marcha pela DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária). 


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