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Despesas médicas essenciais: portugueses gastaram uma média de 1397 euros

Três em dez portugueses indicaram ter tido dificuldade em pagar despesas médicas no último ano. Por outro lado, mais de um quarto adiou, abandonou ou prescindiu de cuidados de saúde por motivos financeiros, pondo em risco o seu bem-estar.

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07 abril 2026
Profissional de saúde masculino com bata cinzento e cliente sénior de casaco branco sentados lado a lado numa sala de espera hospitalar, a analisar informação num tablet digital

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O Serviço Nacional de Saúde (SNS), apesar de ser público e abranger todos os cidadãos nacionais, não é totalmente gratuito. Entre taxas moderadoras, exames ou consultas que não estão abrangidos ou medicamentos, os portugueses acabam por ter várias despesas com a saúde. Segundo o mais recente inquérito feito pela DECO PROteste, no último ano, as famílias portuguesas gastaram, em média, 1397 euros em cuidados de saúde essenciais, excluindo seguros, com todos os membros do agregado familiar.

Um aspeto preocupante revelado pelo inquérito é a dificuldade sentida por 31% dos portugueses em pagar as despesas de saúde. Daí que 27% tenham adiado, abandonado ou prescindido de cuidados de saúde por não terem como pagar. Destes, para mais de metade a decisão acabou por ter consequências importantes ou mesmo sérias na saúde e na qualidade de vida.

Cuidados dentários pesam no orçamento

Uma consulta de medicina geral num centro de saúde é gratuita. Mas, o médico pode prescrever medicamentos, sessões de fisioterapia ou exames de diagnóstico: produtos e serviços que implicam taxas moderadoras ou que têm de ser pagos na totalidade. Numa consulta de oftalmologia, por exemplo, podem ser prescritos óculos graduados, que têm um preço elevado e não são comparticipados. São só alguns exemplos de despesas que os portugueses podem ter, mesmo que vão a consultas no SNS. Em muitos casos, são gastos que ocorrem ao longo de todo o ano, em especial quando se trata de pessoas com doenças crónicas, e que pesam no orçamento das famílias.

Os medicamentos com receita médica, referidos por 93% dos inquiridos, seguidos dos que não precisam de prescrição (78%), foram as despesas de saúde mais comuns nos 12 meses anteriores ao preenchimento do inquérito. Em média, quem respondeu gastou 415 euros, com os primeiros, e 201 euros, com os segundos.

Das despesas de saúde mais referidas pelos inquiridos, a que apresentou um montante mais elevado foram os cuidados dentários: 520 euros. Mais de metade das famílias inquiridas (61%) teve esta despesa no último ano. O valor mais elevado pode ser explicado pelo facto de haver poucos médicos dentistas nos cuidados de saúde primários. Por essa razão, quem precise de ir a um tratamento dentário, em regra, terá de recorrer ao privado, o que acarreta custos superiores.

Dificuldade em pagar gastos com a saúde

Com o inquérito, conseguiu-se descobrir qual a fatia do rendimento líquido da família gasto em despesas de saúde, no último ano. Constatou-se que, para mais de um quarto dos inquiridos (26%), aquelas levaram 20% do rendimento líquido do agregado. Nas famílias onde alguém tem uma doença crónica, subiu para 35% aquelas que gastaram 20% dos rendimentos em saúde.

Tendo em conta estas conclusões, não é de estranhar que nem todos os portugueses tenham tido facilidade em pagar as despesas médicas, nos 12 meses anteriores. De facto, 31% indicaram ter sentido dificuldade em fazer face a gastos essenciais com a saúde. Nos lares onde, pelo menos, uma pessoa tem uma doença crónica, a percentagem foi de 41 por cento. Quando se analisam os resultados pelos distritos abrangidos no estudo, constata-se que há diferenças. No de Aveiro (35%), seguido pelo do Porto e de Setúbal, ambos com 34%, foi onde se verificou uma maior percentagem de inquiridos a relatar dificuldade em pagar as despesas de saúde. No de Lisboa, registaram-se 27%, e no de Braga, 15%: a zona com a percentagem mais baixa.

Dos inquiridos a quem foram prescritos óculos graduados ou lentes de contacto, aquela foi a despesa que mais dificuldade tiveram em fazer pagar: quatro em dez referiram-na. Seguiram-se os cuidados dentários, as cirurgias (pequenas ou grandes) e os cuidados psicológicos ou psiquiátricos: mencionados por mais de um terço dos inquiridos que tiveram a despesa.

Cuidados adiados ou abandonados

A dificuldade em pagar certas despesas de saúde leva muitos portugueses a adiar, abandonar ou mesmo a prescindir de determinados cuidados. Os que dizem respeito aos dentes, referidos por 20%, são os mais atingidos. Esta atitude não estranha, pois, num estudo feito pela DECO PROteste, em junho de 2024, verificou-se que um terço dos portugueses iam ao dentista menos de uma vez por ano, sobretudo, por ser muito caro. E, dos que fizeram tratamentos nos dois anos anteriores ao estudo, 45% pagaram a despesa do seu bolso. Contudo, há outros gastos que os inquiridos evitam, como os relacionados com os olhos – como óculos, lentes de contacto ou mesmo consultas – ou medicamentos.

Se as pessoas não tiverem dinheiro para fazer face a todas as despesas de saúde, são obrigadas a fazer uma seleção do que podem ou não pagar. Mas, ao adiarem ou evitarem certas despesas, a saúde pode ressentir-se. Só um quarto dos que tiveram de parar, adiar ou abandonar cuidados de saúde por razões financeiras é que referiu que as consequências para a saúde foram poucas. Os restantes indicaram terem sido importantes (43%) ou mesmo muito sérias (30 por cento). As pessoas não deveriam ter de escolher entre ter saúde ou o que comer.

Seguros e planos de saúde: alternativa ao SNS?

No início de 2026, mais de 1,5 milhões de utentes não tinham médico de família. Por outro lado, quando é necessário ir a uma consulta de especialidade, também a espera pode implicar meses ou até anos. Já sem esquecer as listas de espera para cirurgias. Daí que haja portugueses que optem por contratar seguros ou planos de saúde.
O inquérito revelou que mais de metade das famílias tem um seguro ou plano de saúde. Estes podem ser pagos pelo próprio, por alguém do agregado ou pela entidade empregadora. Neste grupo, também se inserem os planos de saúde associados ao trabalho, como a ADSE – o subsistema dos funcionários públicos – ou a SAD-PSP – o subsistema da PSP –, que são pagos pelos trabalhadores. Nos casos em que os seguros ou planos de saúde são pagos pelo consumidor ou por alguém do agregado familiar, a despesa anual com os mesmos é, em média, de 604 euros.

Dadas as dificuldades de acesso ao SNS, o inquérito procurou conhecer a opinião dos portugueses sobre a confiança que sentem nos cuidados de saúde primários. Mais de um quarto dos inquiridos indicaram ter pouca ou nenhuma confiança, mas o grosso das respostas revelou uma confiança moderada.

Portugueses com mais dificuldades

O inquérito realizado em Portugal foi, em simultâneo, feito em Espanha, em Itália e na Bélgica: países que também fazem parte do grupo Euroconsumers. Constatou-se que, entre estes quatro países, os portugueses estão entre os que mais gastaram em saúde no último ano, apenas superados pelos italianos, que gastaram 1723 euros. Já os espanhóis foram os que gastaram menos – 994 euros – seguidos pelos belgas (1211 euros).

Dados os ordenados ou pensões médios em Portugal face aos dos restantes países, não é de estranhar que tenha sido no nosso país que se verificou uma maior percentagem de lares com dificuldade em suportar os encargos com a saúde: 31 por cento. Seguiram-se os italianos (27%), os belgas (22%) e os espanhóis, com 16 por cento.
Resta esperar que os resultados deste estudo sirvam para mudar realidades e procedimentos, para que ninguém tenha de prescindir de cuidados de saúde.

Como foi feito o estudo

O estudo decorreu entre junho e setembro de 2025, junto de pessoas entre os 18 e os 74 anos. Reuniu respostas válidas de 1079 lares. Os resultados foram ponderados por idade, género, nível educacional e regiões geográficas, para serem representativos da população nacional. As respostas refletem as experiências dos inquiridos com as suas despesas essenciais de saúde.

euroconsumers Este projeto é uma iniciativa conjunta da Euroconsumers. Reunindo cinco organizações nacionais de consumidores e dando voz a um total de mais de 1,5 milhões de pessoas em Portugal, Espanha, Itália, Bélgica e Brasil, a Euroconsumers é o principal grupo de consumidores do mundo em informação inovadora, serviços personalizados e defesa dos direitos dos consumidores.

 

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