Portugueses satisfeitos com o médico de família?
O inquérito da DECO PROteste identificou muitos portugueses sem médico de família. Mas será que quem tem um profissional designado aprecia os cuidados que lhe são prestados? E a espera por consultas, aumentou ou diminuiu? Veja os resultados do estudo.
Os portugueses estão satisfeitos com os cuidados prestados pelo Serviço Nacional de Saúde. Era já esta a tendência observada pela DECO PROteste num estudo em 2019, que aferiu a experiência em cerca de 40 hospitais quanto a urgências, internamentos e consultas externas. Entrevistados 2224 cidadãos, foi recolhida informação para um universo de 6227 utentes e familiares.
E a tendência confirma‑se agora, em mais um estudo a visar os centros de saúde. A metodologia foi diferente, mas os resultados não andam distantes. Entre junho e julho de 2024, foi enviado um questionário em papel a uma amostra da população entre os 25 e os 84 anos. As 1591 respostas válidas foram ponderadas em função de género, idade, nível educacional e região.
Para comparar um maior número de Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES), um modelo de organização que foi extinto e substituído por Unidades Locais de Saúde (ULS) ao longo de 2024, foi também enviado um questionário online aos subscritores da DECO PROteste, daqui resultando um total de 4619 respostas. As informações obtidas por via de ambos os questionários refletem as opiniões e as experiências dos inquiridos. E o que nos dizem?
Os portugueses valorizam o desempenho do médico de família e os cuidados de enfermagem. Em 25 anos de inquéritos feitos pela DECO PROteste recorrendo à mesma metodologia, é observável uma curva ascendente na satisfação. Com satisfação mediana, ficam os serviços administrativos, uma apreciação a que não é alheia a dificuldade em marcar consulta. Avoluma-se também, e muito, o tempo de espera por uma visita ao médico – e é elevado o número de portugueses sem médico de família. O estudo da DECO PROteste avaliou ainda os tempos de espera médios e a satisfação com episódios de urgências em hospitais públicos. E, se o desempenho dos profissionais de saúde é genericamente bem avaliado, os tempos de espera médios, ainda que dentro das recomendações, penalizam a satisfação. Veja os resultados completos abaixo.
Voltar ao topoEspera por consulta com o médico de família
Mais de metade das consultas não urgentes com o médico de família demoraram, pelo menos, um mês até se concretizarem (52 por cento). Três em dez destas ultrapassaram mesmo a marca dos dois meses. Trata-se também, há que dizê‑lo, de uma tendência crescente. Há cinco anos, no último estudo da DECO PROteste aos centros de saúde, "apenas" 31% das consultas excediam a espera de um mês, um valor muito semelhante aos recolhidos nos inquéritos imediatamente anteriores.
Em meia década, o cenário, que já era preocupante, agravou‑se de forma significativa. Vale lembrar que o tempo máximo de resposta garantido para uma consulta que envolva uma doença não aguda é de 15 dias úteis...
Alguns utentes conseguem pagar uma consulta no privado, quando o público lhes tarda ou falha. Por exemplo, no ano anterior ao inquérito, 18% dos que foram ao médico de família dirigiram-se tanto a um como ao outro serviço. E 25% circularam entre público e privado no caso de exames médicos, enquanto 22% o fizeram para consultas de especialidades.
Mas também há quem só possa contar com o Serviço Nacional de Saúde. Estamos a falar de 67% dos que recorreram a serviços de urgência, no hospital ou no centro de saúde, de 70% dos que procuraram consulta com o médico de família, de 77% dos que solicitaram receituário ou outros documentos e de 79% dos que pediram uma consulta de planeamento familiar. Mesmo para consultas de especialidades, como cardiologia e ortopedia, tipicamente mais difíceis de conseguir, 32% recorreram apenas ao público.
As consultas de enfermagem tendem a ser mais acessíveis. Três em quatro pedidos foram satisfeitos em menos de uma semana. Esta maior facilidade talvez explique que quase 80% dos inquiridos que recorreram a cuidados de enfermagem, no ano anterior ao inquérito, tenham optado apenas pelo público, tanto hospitais, quanto centros de saúde. O número é ainda mais expressivo tratando‑se de vacinas: 83% dos que as procuraram só as receberam no serviço público.
Voltar ao topoNúmero de portugueses sem médico de família
O centro de saúde representa a medicina de proximidade, que se quer bem inserida na comunidade, e 87% dos inquiridos são servidos por uma destas unidades a menos de 10 quilómetros de casa – 55% aquém de três quilómetros.
Contudo, 16% dos inquiridos referiram não ter médico de família, um valor em linha com o número oficial à data do estudo, que era de 15,8 por cento. Dois em três destes dizem não existir vaga para nenhum dos profissionais disponíveis no centro onde estão inscritos. A maioria dos que têm médico não o escolheram (83%), sobretudo porque o centro de saúde não o permite (60% daqueles).
E quanto a praticalidades? Muitos utentes ainda preferem marcar as consultas presencialmente (69 por cento). Mas os centros de saúde admitem outras formas de contacto, como o telefone, usado por 46%, o e‑mail, escolha de 17%, e a e‑Agenda, a que recorreram 12 por cento.
Chegado o dia da consulta, tudo se passa de modo mais ou menos fluido. O mais comum foi os assentos da sala de espera não serem ocupados por mais de 30 minutos (66% dos casos reportados). Mas o tempo de espera médio não foi muito diferente, fixando‑se em 36 minutos. As regiões de Lisboa e do Norte ficaram abaixo desta fasquia, com tempos respetivos de 31 e 30 minutos. No Centro e no Algarve, falamos já de quase uma hora, com 50 minutos de espera, enquanto, no Alentejo, foram 40 minutos. Na enfermagem, a espera média revelou‑se mais curta: quase 22 minutos.
Voltar ao topoSatisfação com o médico de família
Uma consulta com o médico de família dura, nove em dez vezes, entre cinco minutos e meia hora, sendo que a média é de 19 minutos. A renovação de receitas e a emissão de documentos, como a requisição de exames, muito comuns nos centros de saúde, podem explicar, em parte, estes tempos mais curtos.
Porém, alguns dos aspetos que os inquiridos mais valorizam na prestação do médico de família são o sentimento de que lhes podem explicar os problemas que os afetam (7,9 pontos), o interesse demonstrado pela condição de saúde (7,8) e as informações fornecidas (7,8), que requerem tempo para ouvir, raciocinar e elaborar. Quando os utentes podem escolher o médico, estas vertentes são ainda mais apreciadas: a satisfação com as duas primeiras recebeu 8,7 pontos, e a terceira alcançou uma nota de 8,5.
Não admira que a perceção que os utentes têm da competência do médico tenha sido distinguida com 8,1 pontos, valor que subiu para 8,9 no caso de quem pôde escolher o profissional.
No balanço final, a satisfação com o médico de família obteve uma classificação de 8 pontos. Ao nível regional, Lisboa destacou‑se, com 8,5, enquanto o Alentejo registou uma média de 7 pontos.
Voltar ao topoSatisfação com os serviços administrativos dos centros de saúde
A satisfação com os cuidados prestados pelo médico de família não anda a par da apreciação que merecem os centros de saúde como um todo, que não descola dos 6,4 pontos. O tempo de espera por consultas é um dos fatores que mais penalizam a nota, merecendo apenas 4,9 na satisfação.
Só perde para a diversidade de serviços, como consultas de especialidades e exames, classificada com 4,5 pontos, e para os serviços ao domicílio, com 4,6 – um resultado dececionante, se entendermos os centros de saúde como propiciadores de medicina de proximidade, mas talvez pouco surpreendente atendendo à transversal insuficiência de profissionais de saúde.
Já os serviços de enfermagem e as condições da infraestrutura, com 7,4 pontos, e a proximidade face ao domicílio, com 7,8, influenciam positivamente a média da satisfação face aos centros de saúde.
Se virmos, agora, os resultados por ACES, Grande Porto V – Porto Ocidental, Cávado I – Braga e, ainda, Matosinhos suscitaram a satisfação global mais elevada.
Com o nível mais baixo, ficaram Lezíria (Santarém e região), Arrábida (Setúbal e região), Arco Ribeirinho (Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo), Guarda, Sintra, Baixo Alentejo, Alto Trás‑os‑Montes I – Nordeste e Pinhal Litoral (Leiria e região).
Voltar ao topoTempos de espera nas urgências do hospital público
O inquérito da DECO PROteste mediu ainda um aspeto importante ao nível da articulação dos serviços: as urgências. No público, esta concertação envolve o SNS 24, os centros de saúde e os hospitais. No biénio anterior ao estudo, dois em três inquiridos recorreram às urgências. Só 34% se aconselharam primeiro com o serviço SNS 24.
Muitos também se dirigiram diretamente aos hospitais públicos, sem uma passagem prévia pelo centro de saúde (64 por cento). As principais razões são cabíveis: o centro de saúde não ter serviço de urgências (46%), estar fechado (30%) ou funcionar num horário muito limitado (24 por cento). Mas ainda há quem escolha o hospital por ficar mais próximo de casa (5%) ou por acreditar que os tempos de espera serão mais curtos (4 por cento).
A grande maioria destas ocorrências receberam pulseira amarela (situação urgente), verde (pouco urgente) ou azul (não urgente). A generalidade dos utentes até concordaram com a prioridade atribuída, mas 12% não coincidiram na opinião e 26% aceitaram‑na com algumas reticências.
Entende‑se o inconformismo. Quanto menos urgente o caso, maior a perspetiva de permanecer por várias horas no hospital, já que a urgência é um circuito que começa na triagem, segue para a primeira observação médica e pode ser completado com consultas de especialidades e exames. Todas as etapas – e a espera entre elas – podem pôr à prova a serenidade.
A triagem é rápida: uma média de 14 minutos foi quanto aguardaram os inquiridos. Depois, as coisas podem complicar‑se, embora não tenha sido o caso da generalidade dos inquiridos. Em termos médios, os portadores de pulseira verde tiveram de esperar à volta de uma hora e um quarto pela primeira consulta, enquanto os detentores de pulseira amarela, apenas um pouco menos. São, apesar de tudo, ótimos resultados tendo em conta as recomendações oficiais: quem recebe pulseira azul pode esperar até quatro horas, ao passo que, para a pulseira verde, se admitem duas horas e, para a amarela, uma hora.
A partir desta fase, tudo dependerá da condição de saúde e dos procedimentos médicos que requerer. Entre os participantes no estudo, três horas e 45 minutos foi o tempo médio até saírem do hospital.
E como correu a experiência, desde a triagem até à conclusão dos procedimentos médicos? Os inquiridos atribuíram‑lhe 6,9 pontos, o que corresponde a um patamar aceitável. Se a competência percecionada dos profissionais de saúde é elevada, os tempos de espera por consultas e exames empurram a média para baixo.
Voltar ao topoConsumidores exigem
Reforçar a cobertura dos cuidados de saúde primários é uma verdadeira prioridade. Deve ser concretizada não só através da atribuição de uma equipa de saúde familiar a mais utentes, como também por via de estratégias que facilitem o acesso a cuidados a quem não tem médico de família. Mas não é tudo.
Impõe-se ainda melhorar o acesso e a eficiência do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com o alargamento das respostas e melhor articulação entre os vários níveis de cuidados.
E é preciso investir na saúde dos portugueses. Somos o quarto país da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) com o menor gasto per capita em programas de prevenção. Além disso, o peso do investimento em prevenção, no total dos gastos em saúde, está abaixo da média da OCDE. Faz-se imprescindível uma maior mobilização de recursos financeiros e a implementação do Plano Nacional da Saúde para a década.
Mais: só o reforço de recursos humanos e a valorização do desempenho dos profissionais, com modelos de trabalho em equipa e o regime de dedicação plena, permitirão cumprir os tempos máximos de resposta garantidos. Que, no caso de consultas com o médico de família não associadas a doença aguda, são de 15 dias úteis, e não de meses.
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