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Tempo de espera por consultas e exames médicos fora da lei

Muitos portugueses aguardam pela primeira consulta hospitalar de especialidade e por exames médicos mais do que o estabelecido por lei, revela inquérito da DECO PROteste. Confira todos os resultados.

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07 abril 2025
Paciente num aparelho de grandes dimensões, faz um procedimento médico num hospital, com um enfermeiro ao lado

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Sabe que existem tempos máximos de resposta garantida (TMGR) definidos por lei para primeiras consultas hospitalares e alguns exames médicos? Se sim, faz parte de um grupo minoritário, de acordo com um inquérito realizado pela DECO PROteste, em novembro de 2024, que quis saber quanto aguardaram os portugueses por exames médicos e por primeiras consultas de especialidade no hospital, nos dois anos anteriores. O questionário dirigiu-se apenas a utentes reencaminhados por um médico do centro de saúde para consultas de especialidade, e aos que agendaram ou tentaram agendar exames complementares de diagnóstico e terapêutica, através do Serviço Nacional de Saúde (SNS), nos dois anos anteriores. Os resultados refletem a experiência e opinião de 942 inquiridos.

Inquiridos desconhecem tempos de espera legais

Os resultados revelam que cerca de um quarto dos inquiridos revelaram não sabe que a lei prevê tempos de espera para a primeira consulta hospitalar da especialidade. Dos que o sabem, só 13% disseram conhecê-los. Para os meios complementares de diagnóstico marcados através do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a falta de informação é ligeiramente maior: 27% ignoram a existência de tempos máximos de resposta garantidos (TMRG), e apenas 11% dizem saber quais são.

Contudo, isto não impede que muitos considerem demasiado longa a sua espera, o que levou mais de metade dos inquiridos a recorrerem a consultas em serviços privados. Mais: 41% dizem que o seu estado de saúde piorou durante o período em que aguardavam. No caso dos exames – realizados, na maioria, em entidades convencionadas com o SNS –, 11% mudaram de local para conseguirem um prazo mais curto. Ainda assim, 23% revelam que a doença se agravou durante a espera.

De acordo com o número de dias assinalado pelos inquiridos para obterem consulta, os prazos legais foram excedidos em 45% dos casos. Para os exames médicos, 21% ultrapassaram os tempos de espera definidos por lei.

Consultas hospitalares e exames médicos com atraso 

As consultas mais frequentemente realizadas pelos inquiridos foram as de oftalmologia, cardiologia, dermatologia e ortopedia. A primeira e a última estão entre as que mais atrasam os pacientes, sendo acompanhadas na saga pelas de endocrinologia e urologia.

Em média, os inquiridos esperaram 104 dias por uma consulta de especialidade, independentemente do nível de prioridade. Considerando apenas a prioridade normal, observa-se que a espera por uma consulta de urologia é a mais longa (139 dias, em média) e ultrapassa o prazo fixado por lei, que é de 120 dias. Perto deste está a oftalmologia, com 119 dias, em média, seguida da ortopedia e da dermatologia, que apresentam uma espera média de 118 dias.

Os inquiridos indicam terem agendado, sobretudo, ecografias, eletrocardiogramas e radiografias. Dos que referiram ter tido problemas com marcações, os muitos dias de espera são, de longe, a queixa mais frequente. Contudo, também não é desprezível a percentagem de utentes que assinalaram a longa espera no local do exame e a dificuldade em encontrar um prestador com acordo com o Serviço Nacional de Saúde. Ambas as situações afetaram 12% dos inquiridos.

Consumidores exigem respeito pelos tempos de espera legais

Os utentes têm direito a cuidados de saúde em tempo considerado clinicamente aceitável para a sua condição de saúde. O não-cumprimento dos prazos legais põe em risco a saúde dos portugueses, comprometendo a eficácia do diagnóstico e o tratamento atempado. 

A DECO PROteste exige que os tempos de espera na saúde sejam respeitados, sem qualquer encargo financeiro para o utente. Para tal, e enquanto o Serviço Nacional de Saúde não os conseguir garantir em todo o País, a organização de consumidores defende a criação de um vale-saúde, semelhante ao vale-cirurgia, que assegure o cumprimento dos prazos legais para exames de diagnóstico, consultas e tratamentos. Este vale deverá indicar as entidades prestadoras de cuidados de saúde – públicas, sociais ou privadas com acordo com o Estado – que possuam capacidade para realizar os cuidados em tempo clinicamente aceitável.

Importa ainda alargar a rede de convencionados e disponibilizar a lista dos mesmos, de forma que possa ser consultada fácil intuitivamente. O foco tem de ser reduzir tempos de espera e minimizar o impacto da demora no desenvolvimento da doença.

Reclamar por melhor serviço

O tempo máximo de resposta garantido está na lei – e deve ser cumprido. Quando não acontecer, o consumidor pode, e deve, registar a falha no livro de reclamações do hospital ou queixar-se junto do Gabinete do Utente e da Entidade Reguladora da Saúde. Segundo a Carta dos Direitos de Acesso aos Cuidados de Saúde, é a este organismo que cabe receber e tratar as queixas relativas aos tempos de espera. Pode ainda dar visibilidade ao caso na plataforma Reclamar, da DECO PROteste.

É comum ouvir que não vale a pena reclamar de serviços de saúde, porque a queixa não é consequente. Mas, se a maioria deixar de o fazer, a visibilidade dos problemas diminui, e também a pressão sobre as autoridades, para que encontrem soluções. É importante reclamar os seus direitos, porque a espera não dá tréguas à doença. 

 

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