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Três rastreios de cancro que salvam vidas

Cancro da mama, do colo do útero e do cólon e reto são os rastreios previstos no Programa Nacional de Doenças Oncológicas. Em 2020 e 2021, os rastreios diminuíram  consideravelmente, devido à pandemia, e milhares de cancros ficaram por diagnosticar. Conheça os números e saiba para quem e quando estão recomendados os rastreios. 

07 abril 2022
Folha de registo clínico com estetoscópio e laço azul em cima

iStock

Durante a pandemia, mais de quatro mil cancros da mama, do cólon e reto e do colo do útero terão ficado por diagnosticar, devido à redução dos rastreios, segundo o Movimento Mais Saúde, do qual faz parte a Ordem dos Médicos, entre outros parceiros. Os dados do Portal da Transparência do SNS indicam que, em 2021 face a 2019, houve menos 18% de mulheres com mamografia efetuada, no máximo, há dois anos; menos 14% de mulheres com citologia cervical atualizada; e menos 3% de utentes inscritos no Serviço Nacional de Saúde com análises de sangue oculto nas fezes. Estes exames são usados, respetivamente, no rastreio de neoplasias malignas da mama, do colo do útero e do cólon e reto. A diminuição traduz-se em deteções mais tardias, que podem tornar os tratamentos mais difíceis e aumentar a mortalidade. Os serviços estão paulatinamente a caminhar para os números pré-pandemia, mas não se pode ficar por aqui, já que é preciso rastrear todo os utentes que ficaram para trás. 

Rastreio diminui a mortalidade por cancro

Rastrear, em medicina, significa testar indivíduos sem sintomas, aparentemente saudáveis, em busca de alterações que podem ser sinal de doença, o cancro, no caso dos rastreios oncológicos. O objetivo é simples: detetar numa fase precoce, altura em que a eficácia do tratamento é maior, e, assim, reduzir a mortalidade. Pode ainda permitir o combate com terapias menos agressivas do que numa fase mais tardia, quando os sinais se manifestam. Nalguns casos, é possível detetar lesões pré-cancerígenas, por exemplo, no colo do útero e no cólon, e impedir o desenvolvimento do cancro.

A implementação de um programa de rastreio exige pressupostos: o problema de saúde tem de ser grave, atingir um grande número de pessoas e ser tratável ou curável. A forma como a doença evolui deve ser bem conhecida e haver a possibilidade de identificá-la na fase assintomática.

Ao exame a realizar no rastreio, exige-se que seja seguro, fácil de aplicar e tenha elevada sensibilidade e especificidade, isto é, que apresente resultados o mais precisos possível, com poucos falsos negativos (a pessoa está doente, mas o teste dá negativo) e falsos positivos (não há doença, mas o teste dá positivo). É ainda imprescindível que seja bem aceite pela população, por exemplo, em termos de desconforto, dor e frequência.

Feito o exame, todos os casos positivos devem ter acesso à consulta hospitalar, aos exames de diagnóstico e ao tratamento adequado. De nada serve detetar, se não houver capacidade para tratar. Por fim, o custo deve ser economicamente equilibrado.

Reúnem estas condições os três rastreios recomendados em Portugal: cancro da mama, do colo do útero e colorretal. Estão indicados para a população geral, a partir de certa idade. Se, fora dos intervalos aconselhados, houver sintomas ou fatores de risco, como casos de doença na família, o médico dará orientações sobre a vigilância a efetuar.

Estes rastreios têm demonstrado uma redução de mortalidade de aproximadamente 30% no caso do cancro da mama, 20% no do cancro colorretal e 80% no do colo do útero.

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Rastreio do cancro do colo do útero

Está indicado para mulheres entre os 25 e os 60 anos. Não entram no rastreio as que já têm cancro do colo do útero diagnosticado ou aquelas a quem já tenha sido removido este órgão. O exame também não é recomendado para quem apresente sintomas de doenças ginecológicas, enquanto os mesmos durarem.

Teste de Papanicolau e determinação do HPV

O rastreio do cancro do colo do útero é feito através de citologia cervical – também conhecida por teste de Papanicolau e teste de HPV-DNA – a cada cinco anos. O teste primário consiste na pesquisa de variantes, os chamados serótipos, do vírus do papiloma humano (VPH ou HPV, na sigla inglesa), associadas a alterações celulares que favorecem o cancro. Se a pesquisa for positiva para os serótipos 16 e 18, a mulher será encaminhada para a consulta especializada (patologia cervical). Se forem detetados outros serótipos, deve ser realizada nova citologia. As utentes com teste negativo, mas que tenham tido um anterior positivo, devem repetir passado um ano. Nos restantes casos, recomenda-se novo exame após cinco anos. 

Em 2021, de acordo com o Portal da Transparência do SNS, houve menos 166 398 mulheres com rastreio atualizado do que em 2019, o que significa uma diminuição de 14 por cento. De acordo com o Movimento Mais Saúde, terão ficado por diagnosticar 399 cancros do colo do útero. 

 

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Rastreio do cancro do cólon e reto

Destina-se a homens e mulheres entre os 50 e os 74 anos. Estão excluídos do programa de rastreio os utentes a quem foi diagnosticado cancro do cólon e reto, doença inflamatória intestinal ou síndromes hereditárias relacionadas com o cancro do cólon e reto. Também não deverá fazer o exame quem tem queixas gastrointestinais, nomeadamente, alterações significativas do trânsito gastrointestinal nos últimos seis meses, ou hemorragia digestiva. Caso tenha feito uma colonoscopia nos últimos dez anos, ou uma retossigmoidoscopia (semelhante à colonoscopia, mas apenas para a parte final do intestino), nos últimos cinco anos, com resultados normais, também está dispensado do rastreio.

Pesquisa de sangue oculto nas fezes

O rastreio é feito através da pesquisa de sangue oculto na fezes, a cada dois anos. Se o resultado for positivo, o utente deve realizar uma colonoscopia − um tubo munido de câmara permite visualizar o intestino e, se necessário, retirar pequenas porções para análise.

A redução dos serviços durante a pandemia teve, obviamente, impacto no rastreio desta neoplasia maligna. No fim de 2020, havia menos 116 276 utentes com rastreio atualizado do cancro colorretal do que em 2019, o que significa uma redução de 7 por cento. Em 2021, o número de rastreios aumentou, mas, ainda assim ficaram 3% aquém de 2019. De acordo com o Movimento Mais Saúde, terão ficado por diagnosticar 2155 cancros colorretais.

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Rastreio do cancro da mama

Destina-se a mulheres entre os 50 e os 69 anos. Ficam de fora as que já tenham um diagnóstico de cancro da mama ou tenham feito uma mastectomia (extração da mama por cirurgia), as que tenham feito uma mamografia nos últimos dois anos com resultado normal e as que tenham próteses mamárias. Se houver uma inflamação na zona da mama, a mulher também não deve ser submetida ao exame.

Os dados do Portal da Transparência do SNS indicam que, em 2021, havia menos 116 276 mulheres com a mamografia em dia, em compração com 2019. Este valor significa uma redução de 18% de mulheres rastreadas para o cancro da mama. Esta diminuição refletiu-se certamente nos diagnósticos do cancro da mama: neste período, terão ficado 1868 por detetar, de acordo com o Movimento Mais Saúde.  

Mamografia: em que consiste e como é avaliada?

O rastreio é feito através de mamografia realizada a cada dois anos. Os resultados são apresentados de acordo com um protocolo internacional de avaliação de mamografia, o chamado BI-RADS (do inglês Breast Imaging Reporting and Database System Score). Se a mamografia for classificada como BI-RADS 1 e 2, não apresenta qualquer alteração ou as alterações são benignas e apenas terá de fazer novo exame após dois anos. Caso haja algum sinal suspeito (BI-RADS 3), a mulher é encaminhada para uma consulta de aferição dos resultados. Se a mamografia for classificada como BI-RADS 4 e 5, segue-se a consulta especializada (patologia mamária), uma vez que há uma alteração suspeita de ser cancerígena (ou maligna).

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