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Mais exames e tratamentos não trazem mais saúde

Muitos exames e tratamentos são desnecessários, além de poderem envolver risco, causar ansiedade e pesar nas contas do sistema de saúde.

  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Inês Lourinho
04 dezembro 2019
  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Inês Lourinho
caixas de medicamentos com comprimidos

iStock

Análises anuais ao sangue e à urina e radiografias ao tórax a cada 15 meses. Um estudo português publicado em 2013 na PLOS One, revista científica americana, é claro quanto ao que pensam os portugueses sobre o que deve ser a sua relação com a medicina: 99% estão convencidos de terem de cumprir a primeira diligência e 70% a segunda.

Um estudo posterior, dos mesmos investigadores, avaliou a importância atribuída pelos portugueses aos exames médicos, e concluiu que tendem a dar-lhes relevância excessiva. Atribuem até mais importância aos meios de diagnóstico do que à adoção de um estilo de vida saudável, por exemplo, a uma dieta equilibrada e ao controlo do peso e dos níveis de colesterol.

Estas crenças, por sua vez, repercutem-se na relação com o médico. Desconhecendo os exames que se justificam e os que são desnecessários, ou mesmo arriscados em certos contextos, os doentes tendem a pressionar o profissional de saúde para que os prescreva. E, com frequência, este cede, como verificámos num inquérito que conduzimos em 2017, sobre a relação entre médicos e pacientes.

Agora, o avanço do conhecimento científico reforça a importância do uso rigoroso dos exames. Nasceu, assim, o programa Escolhas Criteriosas em Saúde. Criado em 2012 nos EUA sob o nome Choosing Wisely, visa sensibilizar médicos e doentes para a importância de decisões baseadas na evidência científica. No site, elencam vários procedimentos frequentes, organizados por especialidade. E, a partir de artigos científicos, justificam porque não são necessários em certos casos.

Quais as razões para esta postura? As já invocadas, e mais algumas. Muitas vezes, os exames provocam ansiedade nos doentes e acabam por sobrecarregar os sistemas de saúde em termos financeiros. Não significa, contudo, que se recuse um procedimento que pode trazer benefícios a um doente. Há que encontrar pontos de equilíbrio entre os pedidos e a necessidade deles. Reunimos seis situações em que nem sempre os procedimentos médicos ou os fármacos se justificam.

A origem do excesso de medicina

Medicamentos, testes, análises, exames, cirurgias e outros: o entusiasmo de diagnosticar e tratar doenças, por vezes, vai demasiado longe. Mas nem sempre mais medicina conduz a melhores resultados. Muitos procedimentos são realizados com o conhecimento de não serem totalmente eficazes ou isentos de risco. E este é um problema transversal à maioria dos países.

O excesso tem várias explicações, que podem começar no próprio paciente, cada vez mais preocupado com sofrer de “alguma coisa”, um medo frequentemente alimentado pela publicidade nos meios de comunicação e pelas interações nas redes sociais. Não raras vezes, a publicidade contribui para a crença em resultados irrealistas. Neste cenário sempre otimista, os riscos nunca são uma possibilidade.

Mas, do lado dos profissionais de saúde, também se observa, por vezes, o receio de falhar o diagnóstico de uma doença e de, com isso, suscitar uma queixa da parte do doente e da sua família. Para se defenderem, os médicos tendem a prescrever mais meios de diagnóstico do que os desejáveis: trata-se da chamada “medicina defensiva”, criticada pela Organização Mundial da Saúde. Ou, imbuídos de uma vontade de curar a todo o custo, incluindo em situações terminais, fenómeno designado por “obstinação terapêutica”, podem ser levados a sujeitar o doente a tratamentos desnecessários e até causadores de sofrimento, uma prática condenada pela Ordem dos Médicos.

Evidentemente, a indústria farmacêutica também tem aqui um papel determinante. Indispensável no desenvolvimento de novos testes e medicamentos, não deixa de ter a maximização do lucro como objetivo. E parte da alegada inovação que apresenta nem sempre traz reais benefícios. Por exemplo, um estudo publicado no British Medical Journal indica que 57% dos novos fármacos para o cancro autorizados pela Agência Europeia do Medicamento de 2009 a 2013 não melhoraram a qualidade nem a esperança de vida dos doentes.

Os governos são mais um vértice do problema. Definir as políticas de saúde pode também resultar em excessos, sobretudo se os governantes forem pressionados pela opinião pública no sentido de despenderem recursos em terapêuticas que não se justificam.

Os exames mais pedidos entre os portugueses

Análises ao sangue, com destaque para os níveis de glucose e de colesterol, bem como à urina, são os exames mais requisitados em Portugal, de acordo com um estudo do British Medical Journal conduzido por investigadores da Faculdade de Medicina do Porto. Representam, no seu conjunto, 40% dos 20 pedidos mais frequentes.

Recordando agora as conclusões de um inquérito que publicámos em abril de 2017, cerca de metade dos médicos participantes admitiram prescrever exames desnecessários todas as semanas, por simples insistência do paciente. Os números caíam para 27% no caso de medicamentos sem justificação terapêutica. Porém, sublinhávamos à época, era mínima a percentagem de doentes que confessavam exagerar os sintomas para obterem exames ou medicamentos.

O desejado equilíbrio entre os pedidos e a prescrição só será conseguido com informação de confiança. Por um lado, os médicos devem guiar-se pela melhor evidência científica e optar pelas soluções que garantam a melhor relação entre custo e benefício. Por outro, os doentes têm de tomar consciência de que mais medicina nem sempre significa mais saúde.

Seis situações de excesso em Portugal

A generalização da vitamina D, os protetores do estômago que devem ser tomados para o resto da vida, o sono que não vem sem comprimido, os dentes do siso que são para tirar, as cesarianas demasiado frequentes e o rastreio do cancro da mama em mulheres que dele não necessitam são seis exemplos que conduzem aos excessos mais comuns entre nós.

Vitamina D

O Infarmed, a Direção-Geral da Saúde e o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge reviram os estudos sobre défice de vitamina D e elaboraram um manual de boas práticas. Em vez da toma de suplementos, sugerem a ingestão de mais ovos e peixes gordos (salmão, por exemplo), e a exposição moderada ao sol. Só aconselham a suplementação a crianças com raquitismo causado por deficiência alimentar ou idosos em unidades de cuidados continuados, por exemplo. Excesso de vitamina D provoca níveis elevados de cálcio no sangue, com consequências para os ossos, além de perda de apetite, náuseas e fraqueza.

"Proteção" do estômago

Os inibidores da bomba de protões, como o omeprazol, destinam-se a suprimir a acidez gástrica, como sublinha o Infarmed. Não são “protetores” do estômago, a tomar em cada refeição, com o objetivo de ajudar na digestão. Alguns estudos mostram que, em excesso, aumentam o risco de infeções gastrointestinais, lesões cutâneas e pólipos benignos no estômago. Há ainda risco de fraturas ósseas e deficiência em magnésio e vitamina B12, devido a alterações na absorção dos nutrientes. Estes medicamentos podem também interferir nos resultados de testes para a pesquisa de alguns tipos de tumores, conduzindo a falsos positivos.

Ansiedade e insónias

Portugal é dos países com maior consumo de ansiolíticos, hipnóticos e sedativos, em especial benzodiazepinas, e as autoridades estão preocupadas. O Programa Nacional para a Saúde Mental descreve a situação como um risco para a saúde pública. Aconselham, por isso, um uso criterioso, apenas nas situações que o justifiquem, na dose mínima eficaz e durante um período limitado. As farmácias também só devem vender estes fármacos com receita médica. O abuso de benzodiazepinas causa dependência, bem como perturbações psicomotoras, apatia, confusão, irritabilidade, entre outros.

Dentes do siso

Sisos e maxilares poderosos são resquícios de uma etapa da evolução humana em que ingeríamos alimentos crus e peças de grandes dimensões. Com o passar de gerações, diminuiu o espaço para os sisos se desenvolverem sem perturbarem os vizinhos, mesmo porque, graças aos cuidados orais, perdemos menos dentes. Por serem de acesso difícil, a escovagem é menos eficaz, o que favorece as inflamações nos tecidos moles e as cáries. Mas não significa que tenhamos de removê-los a título preventivo. Vários estudos mostram que não há benefícios na extração sem que surjam outros sintomas.

Cesariana

Portugal é dos países europeus onde mais cesarianas se executam. Ainda que tenha ocorrido uma ligeira descida no setor público, cerca de três em dez partos continuam a ser cesarianas. No privado, o rácio é de seis em dez. A cesariana é uma opção terapêutica válida, um avanço civilizacional até. Mas, muitas vezes, é efetuada sem razões clínicas. Como qualquer cirurgia, envolve riscos para a mãe (por exemplo, perturbações da placenta e rotura uterina). Já o feto corre, entre outros, mais risco de problemas pulmonares a curto prazo, hipoglicemia e início menos frequente da amamentação.

Cancro da mama

Na União Europeia, está indicado o rastreio de vários tipos de tumores a cada dois anos, incluindo o da mama. Mas o grupo preferencial com recomendação para realizar este exame é o dos 50 aos 69 anos. Mulheres mais novas estão excluídas, exceto se houver indicações (historial na família, etc.). É que o rastreio não tem apenas benefícios: os riscos incluem, entre outros, exposição à radiação, falsos positivos ou falsos negativos e deteção de pequenos tumores que nunca teriam uma evolução negativa, nem causariam morte, provocando ansiedade e sofrimento, devido a um tratamento desnecessário.

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