Ashwagandha: o que deve saber sobre a planta proibida em suplementos alimentares na Dinamarca
Vende-se como solução para o stresse, a insónia e a falta de energia. Mas a ashwagandha, uma substância presente em suplementos alimentares populares, foi proibida na Dinamarca e está a gerar alertas em vários países europeus. Saiba o que dizem as autoridades de saúde e o que deve saber antes de comprar este suplemento alimentar.
Encontra-se nas lojas físicas e online de produtos naturais, mas também nas prateleiras das farmácias. A ashwagandha, também conhecida como ginseng indiano, tornou-se um dos suplementos alimentares da moda e promete reduzir o stresse, melhorar o sono, aumentar a energia e muito mais. No entanto, a ashwagandha ganhou espaço no mercado antes de a ciência conseguir responder com segurança a duas perguntas essenciais: funciona mesmo e é segura para todos?
Em março de 2026, a notícia da proibição na Dinamarca reacendeu o debate e colocou as autoridades europeias em alerta. Em Portugal, aguarda-se uma decisão conjunta da União Europeia (UE).
O que é a ashwagandha e porque está na moda
A ashwagandha (cujo nome científico é Withania somnifera) é uma planta originária da Índia, há muito utilizada na medicina ayurvédica (um sistema de medicina tradicional indiano) como tónico e planta "rejuvenescedora". Na Europa, não é vendida como medicamento, uma vez que não cumpre os requisitos exigidos para tal. É comercializada como suplemento alimentar, o que significa que não está sujeita às mesmas exigências de eficácia e segurança que um fármaco.
A sua popularidade disparou nos últimos anos, alimentada pelas redes sociais e por influenciadores que promovem o seu consumo como parte de um estilo de vida saudável.
O que diz a ciência
Os estudos mais favoráveis centram-se nos possíveis efeitos desta planta sobre o stresse, a ansiedade e o sono. Alguns ensaios clínicos sugerem que certos extratos da ashwagandha poderão ajudar, a curto prazo, a reduzir o stresse percecionado e a melhorar a qualidade do sono. O próprio nome científico, Withania somnifera, remete para o uso tradicional da planta associado ao sono, mas isso não basta para provar a sua eficácia, já que:
- a investigação existente assenta em estudos de pequena dimensão, com duração de apenas algumas semanas;
- os ensaios utilizam produtos muito distintos entre si — os extratos variam no processo de fabrico e na concentração de lactonas esteroide (chamadas withanolides), as substâncias responsáveis pelos supostos efeitos da planta. Por isso, um resultado positivo obtido com uma fórmula específica não pode ser automaticamente aplicado a todos os suplementos alimentares à venda;
- fora do trio stresse-ansiedade-sono, a ciência ainda não tem respostas. Em áreas como o desempenho físico, a fertilidade masculina, a memória ou os sintomas da menopausa, a evidência é insuficiente para tirar qualquer conclusão.
Promessas publicitárias sem validação científica
Quem lê as embalagens de suplementos alimentares com ashwagandha encontra uma extensa lista de promessas: menos stresse, mais energia, melhor memória, pele mais jovem, coração mais saudável. Alguns fabricantes vão ainda mais longe e atribuem-lhe propriedades "adaptogénicas", um termo que soa científico, mas que a farmacologia moderna não reconhece como conceito válido.
Contudo, nenhuma destas alegações foi validada pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA). Algumas destas alegações encontram-se numa lista de avaliação pendente. De acordo com um acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia, enquanto a EFSA não emitir um parecer final, estas alegações não podem ser utilizadas nos produtos. Para a DECO PROteste, esta situação é "problemática", porque, "além de não cumprir a legislação, o consumidor lê estas mensagens como se estivessem cientificamente fundamentadas, quando não estão".
Conheça os riscos da ashwagandha
A discussão sobre a ashwagandha não se limita à eficácia. O que mais preocupa as autoridades europeias são as dúvidas sobre a sua segurança. Nos últimos cinco anos, o Sistema de Alerta Rápido para Alimentos e Rações da União Europeia emitiu 27 notificações relativas a suplementos alimentares que continham extratos de ashwagandha.
As agências de segurança alimentar de vários países europeus identificaram os seguintes riscos.
Danos no fígado
Foram documentados casos de lesão hepática de diferente gravidade associados ao consumo de ashwagandha.
Problemas na tiroide
Registaram-se casos de aumento grave da função tiroideia, incluindo quadros de tirotoxicose — uma situação que requer atenção médica urgente.
Riscos na gravidez
O uso tradicional da planta como abortivo constitui um motivo sério de preocupação. A ashwagandha não deve ser consumida durante a gravidez nem no período de amamentação.
Risco cardiovascular
Em França, foram documentados casos de taquicardia e arritmias associados ao consumo da planta, o que justifica especial cautela em pessoas com doenças cardíacas.
Interações com medicamentos
A ashwagandha pode interagir de forma significativa com vários medicamentos. Pode aumentar o risco de hipoglicemia quando tomada com antidiabéticos orais; elevar o risco de hipotensão com anti-hipertensores; reduzir o efeito de imunossupressores; e aumentar a sonolência se combinada com sedativos, hipnóticos ou outros depressores do sistema nervoso central.
Além disso, as autoridades europeias sublinham que não existem estudos toxicológicos suficientes para definir uma dose segura de consumo. Ou seja, desconhece-se atualmente que quantidade de ashwagandha pode ser ingerida sem risco de efeitos adversos, razão suficiente para agir com cautela antes de colocar este suplemento alimentar no seu carrinho de compras.
Na Dinamarca é proibida. E em Portugal?
A Dinamarca tornou ilegal a venda de produtos alimentares e suplementos com ashwagandha depois de uma avaliação da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU) ter concluído que não é possível garantir um nível de consumo seguro da planta. As autoridades dinamarquesas invocaram preocupações com os efeitos sobre as hormonas sexuais, a reprodução, o metabolismo, o sistema imunitário e o sistema nervoso central. É, por agora, o único país europeu com esta proibição. No entanto, França, Alemanha e Países Baixos publicaram em 2024 avaliações de risco com conclusões semelhantes.
Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) confirmou ao jornal Público que a ashwagandha foi sinalizada à Comissão Europeia como uma substância com potenciais efeitos adversos para a saúde, incluindo riscos para a saúde reprodutiva e para o sistema endócrino e hepático. A Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) esclareceu que, na ausência de uma decisão regulamentar europeia, a substância não está proibida em Portugal. O País rege-se pelas decisões da União Europeia, que está a articular com a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar a avaliação de segurança da planta. Uma decisão ao nível europeu poderá obrigar a rever as regras aplicáveis ao mercado português.
Quem não deve tomar ashwagandha
Até que existam conclusões científicas e regulamentares claras que confirmem a sua segurança, a DECO PROteste considera prudente evitar a utilização de suplementos alimentares que contenham ashwagandha.
Não tome ashwagandha sem consultar primeiro o seu médico se:
- está grávida ou a amamentar;
- tem menos de 18 anos;
- sofre de problemas de tiroide ou de outras doenças endócrinas;
- tem problemas de fígado;
- tem doenças cardíacas ou arritmias;
- toma medicação crónica, em especial antidiabéticos, anti-hipertensores, imunossupressores ou sedativos.
Tenha em atenção: por um produto ser "natural" não significa que seja inócuo. E o facto de ser vendido como suplemento alimentar não implica que a sua eficácia e segurança estejam bem estabelecidas.
Questões frequentes
A ashwagandha está proibida em Portugal?
Não. Em Portugal, a ashwagandha não está proibida. A DGAV esclareceu que, na ausência de uma decisão da União Europeia, a sua venda é permitida. No entanto, a DGS sinalizou a substância à Comissão Europeia e aguarda-se a avaliação da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, cujas conclusões poderão alterar este cenário.
A ashwagandha resulta mesmo para o stresse e a insónia?
Alguns estudos sugerem benefícios modestos a curto prazo, especialmente na perceção do stresse e na qualidade do sono. No entanto, os estudos são pequenos, de curta duração e utilizam produtos muito diferentes entre si. A eficácia não está demonstrada de forma consistente e as alegações de saúde que acompanham os produtos não foram validadas pela EFSA.
Os suplementos com ashwagandha que estão à venda são seguros?
As autoridades europeias identificaram riscos potenciais para o fígado, a tiroide e a saúde reprodutiva, bem como interações com vários medicamentos. Desconhece-se qual a dose segura de consumo. Por estas razões, a DECO PROteste recomenda cautela e aconselha a consultar um médico antes de iniciar qualquer suplementação.
Posso tomar ashwagandha se estiver a tomar outros medicamentos?
Não sem consultar o seu médico. A ashwagandha pode interagir com antidiabéticos, anti-hipertensores, imunossupressores e sedativos, podendo potenciar ou reduzir os seus efeitos de forma clinicamente relevante.
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