Estudo europeu deteta substâncias tóxicas em auscultadores: quais os riscos?
Ftalatos, retardadores de chama e outros químicos nocivos foram detetados em dezenas de auscultadores e auriculares de marcas como Apple, Bose, JBL ou Sennheiser, mas também de produtos adquiridos na Shein e na Temu. Saiba se estes últimos têm mais compostos potencialmente perigosos e quais os riscos e conheça as recomendações da DECO PROteste para escolher bem e usar em segurança.
Nos transportes públicos, nas sessões de corrida e no trabalho, há quem use auscultadores diariamente. Um estudo europeu recente, no âmbito do projeto ToxFree Life for All, pesquisou substâncias nocivas em auscultadores com banda para a cabeça e intra-auriculares (earbuds). Foram analisados modelos tanto de gama alta como outros mais baratos, incluindo de marketplaces online.
Resultado: foram encontradas várias substâncias potencialmente perigosas, como ftalatos, bisfenóis e retardadores de chama em quase todos os auscultadores.
Veja a seguir que modelos têm mais ou menos compostos nocivos e quais os potenciais riscos para saúde. Saiba também se os auscultadores infantis são mais seguros e, ainda, se os modelos da Shein ou da Temu são piores. No final, pode ler os conselhos para minimizar a exposição.
Melhores auscultadores testados pela DECO PROteste
Quais os riscos das substâncias detetadas nos auscultadores?
O estudo europeu, conduzido pela associação austríaca de consumidores VKI, detetou retardadores de chama, ftalatos, bisfenol A e o seu substituto bisfenol S em muitos auscultadores.
O que se sabe sobre estes compostos químicos?
- Os ftalatos e os bisfenóis são conhecidos por serem disruptores endócrinos, podendo interferir com os sistemas reprodutor e hormonal, estando associados ao risco de infertilidade, obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
- Os retardadores de chama, usados para prevenir o risco de ignição nos componentes eletrónicos, são neurotóxicos, ou seja, podem afetar o sistema neurológico.
A legislação europeia estabelece limites para estes compostos químicos.
De acordo com os resultados do estudo europeu, que pode ver nos gráficos, excedem os limites legais:
- 35% dos materiais rígidos dos auscultadores;
- 9% dos componentes flexíveis.
Veredicto: felizmente, os materiais flexíveis em contacto com a pele (como os adaptadores de silicone dos auriculares, as almofadas ou as espumas da banda da cabeça dos auscultadores, entre outros) incluem menos substâncias potencialmente perigosas. Além disso, os riscos para os consumidores são considerados baixos. Em condições normais de utilização, a migração para o organismo é muito limitada.
Que modelos têm concentrações superiores?
Foram analisadas 180 amostras de 81 modelos de auscultadores e intra-auriculares de três tipos: 40 para adulto, 8 de gaming e 33 de criança.
Veja, para cada tipologia, os modelos comercializados em Portugal que excedem os limites legais nos componentes flexíveis em contacto direto com a pele. Nas partes rígidas, os resultados tendem a ser bastante piores.
| SUBSTÂNCIAS TÓXICAS EM AUSCULTADORES DE ADULTO, GAMING E CRIANÇA | ||
|---|---|---|
| Quantidade de substâncias tóxicas(1) | auscultadores | intra-auriculares |
| Modelos de adulto | ||
| Cumpre limites legais |
Beats Solo 4 |
Senheiser Accentum true wireless Xiaomi Redmi Buds 5 Pro Beats Solo Buds Jabra Elite 10 Gen 2 JBL Wave Beam JLab JBuds Mini Marshall Motif II ANC Samsung Galaxy Buds 3 Pro Silvercrest True Wireless Bluetooth In-Ear (Lidl) |
| Excede limites legais |
Bose QuietComfort Sennheiser Momentum Wireless 4 |
n.a. |
| Modelos de gaming | ||
| Cumpre limites legais |
n.a. | n.a. |
| Excede limites legais |
HyperX Cloud III gaming Logitech G733 Lightspeed wireless RGB gaming Razer Kraken V3 SteelSeries Arctis Nova 5 gaming |
n.a. |
| Modelos de criança | ||
| Cumpre limites legais |
Fresh'n Rebel Clam Junior Lucky Lizard(2) JBL JR310BT Enjoy Music M6 pop cat ear |
n.a. |
| Excede limites legais | n.a. | OTL Technologies Super Mario |
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(1) Quantidade de substâncias tóxicas: cumpre limite legais = pode incluir algumas substâncias tóxicas, mas dentro dos limites estabelecidos na União Europeia; excede limites legais = um ou vários compostos potencialmente perigosos ultrapassam os limites legais; n.a. = não se aplica por nenhum modelo à venda em Portugal estar nesta categoria. |
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Os modelos de gama alta obtiveram melhores resultados?
Não, foram encontrados compostos potencialmente perigosos em todas as gamas de preços e marcas.
Os resultados do estudo não evidenciam diferenças relevantes entre os produtos adquiridos em marketplaces, como a Temu e a Shein, e os provenientes dos circuitos de distribuição tradicionais.
Resumindo: auscultadores a preços elevados não estão necessariamente isentos de substâncias tóxicas (e vice-versa), segundo o estudo europeu.
Ftalatos e retardadores de chama em quase todos os auscultadores
Quase todos os auscultadores analisados ultrapassaram os limites legais (veja o gráfico acima):
- 96% incluem ftalatos e retardadores de chama acima dos limites estabelecidos por lei no mercado europeu (veja adiante o que prevê a legislação comunitária);
- 20% excederam os limites de bisfenol A e S (um substituto).
Modelos de criança, adulto e gaming: nenhum isento de substâncias potencialmente nocivas
Considerando as três tipologias analisadas, e conforme pode ver nos gráficos acima, foram ultrapassados os limites legais de substâncias potencialmente tóxicas nas partes rígidas e flexíveis em:
- 24% dos modelos de criança;
- 55% dos modelos de adulto;
- 63% dos modelos de gaming.
Conclui-se, assim, que os produtos destinados a crianças têm menos compostos potencialmente perigosos. Ainda assim, é de lamentar que no mercado europeu cerca de um quarto dos modelos analisados incluam quantidades acima do permitido. Nos modelos encontrados à venda no nosso país, e considerando apenas os materiais que entram em contacto com a pele, só um intra-auricular infantil apresenta concentrações elevadas.
Nos auscultadores de gaming foram detetadas concentrações mais elevadas. Nos modelos disponíveis em Portugal, nenhum cumpre a legislação europeia de segurança: todos apresentam uma ou várias substâncias tóxicas acima dos limites estabelecidos, mesmo considerando apenas as partes flexíveis dos auscultadores.
Os modelos de gaming distinguem-se principalmente pelo som espacial (3D), robustez e conforto para um uso intensivo, e possibilidade de comunicação (com microfone de haste muitas vezes) durante as sessões de videojogos.
A legislação europeia restringe o uso de substâncias nocivas?
Sim, o regulamento REACH — cujas siglas em inglês significam "registo, avaliação, autorização e restrição de substâncias e misturas químicas" — estabelece uma lista de substâncias proibidas ou a sua restrição nos produtos comercializados na União Europeia (UE). Visa garantir a proteção da saúde humana e do ambiente face aos riscos que podem representar as substâncias químicas.
No teste a auscultadores, o estudo europeu identificou uma tendência para as chamadas "substituições lamentáveis" (regrettable substitutions): em vez de utilizarem substâncias proibidas ou restringidas na União Europeia, os fabricantes tendem a substituí-las por compostos quimicamente próximos, que ainda escapam às regras em vigor, mas com potenciais riscos semelhantes.
No teste europeu, os investigadores identificaram casos de substituição de:
- bisfenol A por bisfenol S;
- alguns retardadores de chama mais antigos por alternativas organofosfatadas, como o RDP.
Sempre que são detetadas substâncias alternativas, estas são submetidas a novos testes laboratoriais. Estudos recentes já associaram algumas das substâncias encontradas nos auscultadores a efeitos de neurotoxicidade e de disrupção endócrina, nomeadamente ao nível dos sistemas da tiroide e do estrogénio.
Conclusão: apesar de rigorosa, a legislação europeia tem dificuldade em acompanhar o ritmo destas substituições. Como a avaliação científica e regulamentar exige tempo, cria-se uma janela durante a qual novas substâncias potencialmente nocivas podem circular livremente no mercado europeu. Ainda assim, todas as substâncias introduzidas pela indústria têm de ser avaliadas quanto ao seu potencial risco, sendo a lista de restrições e proibições atualizada regularmente.
Usar auscultadores pode ter efeitos na saúde?
Não se conhecem efeitos a curto prazo da exposição dos consumidores a estas substâncias via auriculares e auscultadores. Mesmo a longo prazo, o risco é baixo, mas não deve ser negligenciado. Isto porque a exposição cumulativa a múltiplas substâncias tóxicas provenientes de várias fontes do quotidiano (embalagens, cosméticos, detergentes, entre outros) tem sido uma das preocupações atualmente discutidas na área da saúde ambiental.
Os auriculares e auscultadores carecem, hoje, de dados científicos suficientes para concluir que o seu uso normal representa um risco significativo associado a disruptores endócrinos. A eventual migração de substâncias depende de vários fatores, incluindo a composição dos materiais, as condições de utilização e os níveis reais de exposição.
Resumindo: a presença destes químicos tóxicos nos materiais não significa, por si só, um perigo imediato para os utilizadores. Os estudos identificam sobretudo substâncias presentes, mas não demonstram em que quantidades passam efetivamente para o organismo.
Alguns gestos simples por precaução
Eis algumas medidas preventivas, para quem pretende seguir o princípio da precaução.
- Limite o contacto da pele com os plásticos rígidos dos auscultadores, frequentemente mais carregados de substâncias potencialmente perigosas.
- Mantenha os auscultadores limpos e em bom estado.
- Prefira modelos de criança, já que beneficiam, em regra, de regulamentação mais exigente e protetora.
- Opte, de preferência, por modelos que cumprem as normas europeias em matéria de segurança química (em constante evolução).
- Evite usar de forma prolongada, sobretudo em ambientes quentes e em caso de transpiração, ao praticar exercício físico, por exemplo, pois aumenta o risco de migração de substâncias para o corpo através da pele.
Consulte os conselhos de compra da DECO PROteste para saber como escolher auscultadores ou auriculares sem fio. No comparador, encontra resultados do teste e preços atualizados diariamente de várias gamas. Existem modelos de boa ou muito boa qualidade por um bom preço.
Questões frequentes
Esclareça mais dúvidas sobre o estudo europeu que analisou substâncias químicas em auscultadores.
O que é o projeto ToxFree Life for All?
É um projeto europeu focado em pilares tais como a sensibilização e pressão política na UE para uma economia mais segura e livre de produtos tóxicos.
O projeto ToxFree Life for All desenvolve investigações e divulga os resultados para apelar aos decisores políticos europeus a restringir ou proibir substâncias químicas nocivas para os consumidores de forma mais célere.
Os auscultadores têm menos substâncias tóxicas do que os auriculares?
Não. O estudo europeu revela que não existem diferenças significativas entre modelos externos (almofadados, que se usam sobre as orelhas) e intra-auriculares, que se introduzem no ouvido. Ambos têm o mesmo nível de substâncias.
O que é o chamado "efeito cocktail"?
Trata-se do risco resultante da exposição diária e repetida a pequenas quantidades de substâncias químicas provenientes de várias fontes combinadas (e não de uma só fonte isolada).
Por exemplo, o estudo encontrou disruptores endócrinos nos auscultadores. Não é tanto o risco de migração destes químicos através da pele que preocupa, mas antes o facto de ser mais uma fonte entre tantas outras que nos rodeiam todos os dias.
A acumulação diária de disruptores endócrinos provenientes de várias fontes — o chamado efeito cocktail — aumenta o risco de afetar os sistemas reprodutor e endócrino.
Que outras fontes de disruptores endócrinos existem à nossa volta?
Os disruptores endócrinos estão presentes nos auscultadores e em muitas outras fontes do quotidiano.
Entre os exemplos mais comuns, encontram-se em:
- alguns tipos de plásticos;
- produtos cosméticos, como, por exemplo, perfumes, vernizes ou cremes;
- detergentes e produtos de limpeza;
- pesticidas usados na agricultura;
- mobiliário, têxteis e espumas tratados com retardadores de chama;
- objetos eletrónicos;
- brinquedos;
- calçado e acessórios fabricados com certos aditivos químicos, etc.
A exposição pode ocorrer por ingestão, inalação ou contacto com a pele. O risco depende da substância em causa, da dose e da duração da exposição.
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