Temu e Shein: 70% dos produtos testados são inseguros
Brinquedos inseguros, colares com substâncias tóxicas e carregadores que aquecem perigosamente estão a ser comercializados ilegalmente na União Europeia e representam um risco para os consumidores. A DECO PROteste, em parceria com outras organizações de consumidores, testou 162 artigos comprados na Temu e na Shein. Quase 70% não cumprem as normas de segurança exigidas na UE.
Temu e Shein são duas plataformas de comércio online com preços irresistíveis para muitos consumidores. Mas aquilo que parece uma boa oportunidade pode rapidamente transformar-se num risco. Essa é a conclusão de uma vasta investigação promovida por várias organizações europeias de consumidores, onde se inclui a DECO PROteste.
Brinquedos para crianças abaixo dos 3 anos: principais riscos e falhas de segurança

A análise a 54 brinquedos destinados a bebés e crianças pequenas revelou vários problemas graves.
Formatos e peças perigosas
Em 30 dos 54 produtos testados foram detetadas falhas mecânicas. Muitas delas foram consideradas graves por poderem causar engasgamento ou asfixia.
- peças pequenas – acabaram por soltar-se nos testes de impacto, confirmando o risco de serem engolidas;
- formatos incorretos – peças demasiado compridas ou estreitas que podem ferir a criança se esta cair sobre o brinquedo ou se aproximar o brinquedo da cara, até, eventualmente, colocá-lo na boca;
- ventosas soltas – perigo de aspiração por parte da criança;
- peças pequenas para montar – sem qualquer indicação de que o brinquedo deve ser montado por um adulto;
- som alto – emissões sonoras elevadas quando se brinca com o brinquedo e sem aviso adequado;
- brinquedos embalados em sacos de plástico – material demasiado fino que pode cobrir a boca e nariz da criança, com risco de sufocação.
Substâncias químicas perigosas
Alguns brinquedos apresentaram níveis ilegais de químicos, reprovando nos testes de segurança química. Foi encontrado formaldeído até cinco vezes acima do limite permitido e nonilfenol etoxilatos com valores quatro vezes superiores ao legalmente estabelecido. Note-se que o formaldeído é classificado como uma substância carcinogénica, enquanto os nonilfenol etoxilatos são disruptores do sistema endócrino.
Falhas elétricas
Três produtos apresentavam compartimentos para pilhas que cediam facilmente, devido à fraca resistência dos parafusos usados. As pilhas ficavam, assim, acessíveis às crianças e o risco de asfixia confirmou-se.
Rótulos incorretos
Foram encontrados avisos incorretos, ausência de marcação CE e falta de informações obrigatórias. Em muitos casos, surgia o aviso “não indicado para menores de 3 anos” em brinquedos que eram claramente destinados a essa faixa etária, como rocas, chocalhos ou mordedores.
Carregadores USB: apenas 2 dos 54 cumprem as normas da UE

Os 54 carregadores USB testados apresentaram um número muito elevado de falhas de segurança. Apenas dois carregadores não tiveram problemas, o que significa que quase todos os produtos avaliados mostraram falhas mecânicas, elétricas ou de rotulagem.
Segurança mecânica: 51 dos 54 carregadores falharam pelo menos um teste deste tipo. Os problemas mais comuns incluíram pinos que rodam quando são sujeitos a força, danos após quedas simuladas e pinos que deixam de encaixar corretamente na tomada. Estas falhas podem provocar faíscas, mau contacto ou exposição de partes metálicas que deveriam estar devidamente isoladas.
Segurança elétrica: 17 carregadores reprovaram nos testes elétricos, com falhas ao nível das distâncias de isolamento entre as zonas de alta e baixa tensão e limites de temperatura excedidos, tanto em carga normal como em sobrecarga. Em alguns casos, os carregadores chegaram a ultrapassar os 100º C. O sobreaquecimento dos carregadores aumenta o risco de incêndio dentro de casa.
Rótulos incorretos: Pelos menos 21 carregadores tinham informações incompletas ou incorretas, como ausência da potência de saída, símbolos mal aplicados ou informações essenciais em falta. Em alguns casos, nem sequer a identificação básica (como marca, modelo ou tipo) estava presente nos componentes.
Colares revelam presença de metais tóxicos

Foram analisados 54 colares, bem como os seus componentes, onde se incluem correntes, argolas, fechos e pendentes. Os testes apenas incidiram sobre químicos e substâncias poluentes. Pesquisou-se cádmio, chumbo e níquel em materiais metálicos, e PAHs e ftalatos nos plásticos.
Três produtos da Shein ultrapassaram o limite legal de cádmio. Em alguns casos, os valores de cádmio eram 8500 vezes superiores ao limite legal, já que foram encontrados pendentes compostos por mais de 85% de cádmio.
Já os testes de libertação de níquel apresentam habitualmente uma grande margem de incerteza. Por esse motivo, as normas exigem três testes por material, para que se confirme a ilegalidade. Nos testes realizados aos 54 colares, alguns produtos falharam claramente o limite legal de libertação de níquel. No entanto, nem sempre foi possível concluir que os três resultados de cada amostra estavam acima do limite.
DECO PROteste exige sanções para venda de produtos perigosos
Os resultados desta investigação confirmam que muitos produtos vendidos a preços baixos nas plataformas Temu e Shein não cumprem os padrões mínimos de segurança exigidos na União Europeia.
Perante este cenário, a DECO PROteste considera fundamental que as autoridades reforcem a supervisão do mercado de comércio online. E exige que se apliquem sanções sempre que as autoridades identifiquem produtos perigosos.
Compradores na Temu e Shein devem estar conscientes do risco
Os preços apelativos da Temu e da Shein vão continuar a atrair muitos consumidores em todo o mundo e Portugal não será exceção. No entanto, a DECO PROteste espera que consumidores tenham cada vez mais consciência dos riscos que correm quando compram alguns produtos mais sensíveis, como os eletrónicos, os brinquedos e bijuteria usada em contacto direto com a pele.
A DECO PROteste recorda que muitos preços baixos praticados por plataformas como a Temu e a Shein refletem, afinal, a ausência de controlo de qualidade, a menor durabilidade e probabilidade acrescida de incumprimento das normas europeias de segurança.
Como foi feito o estudo?
Este estudo decorreu entre fevereiro e outubro de 2025 e analisou 162 produtos comprados nas plataformas Temu e Shein. O estudo tinha como objetivo confirmar se os artigos vendidos nestas plataformas de comércio eletrónico cumprem as regras de segurança e qualidade exigidas na União Europeia (UE).
Selecionaram-se três categorias de produtos:
- produtos infantis: brinquedos para crianças com menos de 3 anos;
- bijuteria: colares;
- equipamento eletrónico: carregadores USB.
No total, foram adquiridos nas duas plataformas 162 artigos. Em cada categoria, foram testados 54 produtos (27 da Temu e 27 da Shein), que foram depois enviados para laboratórios independentes e acreditados em vários países europeus, garantindo resultados imparciais e comparáveis entre países.
Cada categoria seguiu um conjunto padronizado de testes, alinhado com a legislação europeia de segurança de produtos.
A escolha dos artigos foi feita de forma anónima e aleatória.
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