Rita Redshoes: "Precisamos de consumir arte"

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Publicado a 23 outubro 2026

Faz música hoje, mas ouve sobretudo música de ontem. De vez em quando, também é atriz e escritora. Atenta aos perigos do online para as crianças, é uma consumidora muito comedida e não vai em modas.

Jorge Simão/4See Rita Redshoes
Leitora compulsiva, encontra nos livros a sua inspiração artística. Mas é pela música que se expressa. Vive no campo e, entre concertos e viagens, cuida de galinhas e interessa-se por agricultura. Tem uma filha e a segurança das crianças é um tema que a persegue. Calçámos os sapatos vermelhos de Rita.

Quem é Rita Redshoes?

Cantautora, multi-instrumentista, escritora e atriz, com 45 anos, lançou recentemente um single só com mulheres compositoras.

Consumidora como nós

Cada vez menos compro roupa. Tenho peças com vinte anos. Tenho dois problemas: sou forreta e sou uma espécie de recoletora. Custa-me deitar fora.
 

Nas compras, age mais por impulso ou é muito cautelosa?

Fruto da minha profissão instável, tenho esta coisa do "amanhã não vou ter trabalho". E, desde que fui mãe, piorou: sou bastante comedida, sobretudo quando os valores são avolumados. Tenho de me conter para não comprar mil instrumentos ou livros que gostaria.

Qual foi o último instrumento que comprou?

Foi uma guitarra. Ponderei bastante, mas senti que estava na altura de reformar a minha guitarra mais pequenina, que durou imenso tempo, que fez muitos concertos e que foi paga com os concertos.

Já usou o livro de reclamações? Ou de elogios?

Nunca usei, nem um nem outro. Normalmente, se tiver alguma coisa para reclamar, digo na altura. Também elogio diretamente e na hora. Mas acho que são dois instrumentos que servem dois propósitos importantes, que é, por um lado, elogiar quando as coisas são bem feitas e, por outro, também podermos queixar-nos quando estamos a pagar um serviço e não somos bem atendidos. Acho que fazem parte de uma democracia.

O que compra hoje menos ou não compra, porque chegou à conclusão de que não precisa?

Cada vez menos compro roupa. Tenho roupa com 20 anos. Tenho dois problemas: sou forreta e sou uma espécie de recoletora. Custa-me deitar fora coisas. Aquilo é até gastar, até dar. Para os concertos sempre vou comprando alguns adereços. Mas não é uma coisa em que eu adoro gastar dinheiro.

Que investigação falta a DECO PROteste fazer?

Algo sobre a proteção das crianças, em relação àquilo que têm acesso e que está disponível livremente na internet, nos youtubes desta vida e outras plataformas. Haver mecanismos em que se possa confiar, haver um filtro para proteger as crianças, porque há perigos reais, que destroem vidas.

Desigualdade entre homens e mulheres

Por ser mulher, senti que tinha de provar ser capaz de tocar alguns instrumentos e escrever as minhas próprias músicas. 

O seu novo single homenageia mulheres autoras. Pretende mostrar que só estavam escondidas? Ou algo mudou?

Escondidas já não estavam. Muitas coisas mudaram para melhor, felizmente. Quando comecei, há quase 20 anos, havia autoras, mas comparativamente aos dias de hoje há muito mais mulheres com carreiras firmadas na música portuguesa, a esgotarem salas, a lançarem discos, a terem voz própria. O espaço e a atenção do público também mudou, porque somos muitas, fazemos mais barulho. Somos músicas, somos autoras e autores. Ainda há coisas que têm de mudar, porque a história foi ditando que as mulheres não tinham um papel tão proeminente na vida artística. Está muito diferente, mas séculos não se mudam em 20 anos. 

 
Ainda há coisas que têm de mudar, porque a história foi ditando que as mulheres não tinham um papel tão proeminente na vida artística.

Com quase 20 anos de carreira, o que viu mudar na música?

Muito mais mulheres, de gerações diferentes, com uma voz, um papel ativo, a definirem caminhos na música portuguesa. É uma das maiores mudanças. O público foi ficando cada vez mais curioso. Não acho que as mulheres tenham neste momento de provar nada. Por ser mulher, senti, nalguns contextos, que tinha de provar ter capacidade para tocar alguns instrumentos, para escrever as minhas músicas, para dizer o que queria ouvir ou não, e decidir como queria ou não as coisas. No meio artístico e da indústria, já não se olha para as coisas da mesma forma. Já há uma igualdade mais assumida, finalmente.

É cantautora, multi-instrumentista, produtora, letrista, atriz, escritora, já fez bandas sonoras para filmes, música para teatro, um espetáculo para crianças... Como se reparte? Ou faz tudo parte da sua personalidade?

Acho que faz parte do pacote, digamos. São áreas distintas, e, às vezes, não. Não sabendo se há mais vidas, acreditando que só temos esta oportunidade, vamos aproveitar o que aparece, aquilo que faz sentido para nos autodescobrirmos e conhecermos. A ideia de ser e fazer só uma coisa a vida toda, para mim, não é pacífica. Tenho bichos carpinteiros. Porque gosto de trabalhar, de produzir, de criar coisas. Se me aparecer uma oportunidade para entrar num filme, não vou dizer que sou atriz, mas vou experimentar, vou ver como me sinto, que pessoas conheço, que partilhas posso fazer com essa experiência.

A música é dominante?

Claramente. A música é o universo que mais explorei, com o qual tenho mais facilidade de me exprimir. Mas gosto de fazer música para filmes e dar uma perninha na representação. Não é o mesmo interpretar uma música ou representar em frente a uma câmara em diálogo com outra pessoa. Mas o ponto de partida é comum: estou a contar uma história, estou a entrar numa personagem.

O público e a música

A educação é a base de tudo: para ouvir música, para ter sentido crítico, para transformar o mundo, para deitar um bocado abaixo a azáfama em que todos vivemos. E não falo só do nosso país, falo do mundo.

Os portugueses consomem mais ou menos música do que há uns anos? Vão a concertos?

Depende dos concertos e dos contextos. Apercebo-me de que há um consumo relativamente fácil na ida a festivais de música. Às vezes, fico confusa sobre o que move esta ida massiva. Nada contra os festivais. São sítios de encontro e de partilha de música, onde se pode conhecer artistas novos, mas, às vezes, fico confusa com esta ideia do festival ser uma moda. As pessoas precisam, mais do que têm consciência até, de consumir arte. É uma necessidade do ser humano. Mas, dado o contexto social, em que o dinheiro não é suficiente para se viver confortavelmente, são obrigadas a escolher, e, se calhar, o facto de se ir a estes festivais não permite que se vá a um concerto de um músico português ou a uma peça de teatro portuguesa. Esta escolha é limitadora para o público e para quem faz disto a sua vida: dar concertos ou fazer teatro ou dança.

Como se pode educar as crianças para a música?

A educação é a base de tudo: para ouvir música, para ter sentido crítico, para transformar o mundo, para deitar um bocado abaixo a azáfama em que todos vivemos. E não falo só do nosso país, falo do mundo. Mas há muito pouco tempo real dos pais para estarem com os filhos. Isto prejudica a educação. A escola deve ser um espaço de descoberta, de convidar as crianças a ouvirem música que não ouvem em casa, a ler, a ver outros mundos, a aprender outras culturas. Alimentar a liberdade de pensamento e a criatividade são, para mim, bases. Primeiro, a segurança, no sentido de as crianças estarem protegidas, porque não conseguem proteger-se sozinhas, e depois dar essa liberdade para poderem ter sentido crítico, para podermos criar um país melhor, mais humanizado, com mais cultura, valorizar mais a cultura e as pessoas e a vida. Senão, só sobrevivemos.

 
Há uma grande injustiça naquilo que os músicos recebem das plataformas. Alguém beneficia do meu trabalho de forma quase gratuita, enquanto eu trabalho horas, e me esforço para conseguir fazer e pagar o meu disco e aos músicos que gravam comigo.

Qual deve ser o papel das plataformas na divulgação e no consumo de música?

É uma realidade pela qual fomos atropelados. Há uma grande injustiça naquilo que os músicos recebem destas plataformas. Alguém beneficia do meu trabalho de uma forma quase gratuita, enquanto eu trabalho horas, e me esforço para conseguir fazer e pagar o meu disco e aos músicos que gravam comigo. Por outro lado, a ideia de tirar a música destas plataformas é ilusória, porque como é que chego às pessoas? Há cada vez mais músicos a tirarem músicas das plataformas. Mas teria de ser uma ação conjunta, massificada, para isto ser alterado. Até lá, alguém vive melhor do que nós, às nossas custas. 

Como chega às músicas novas?

Não sou um exemplo para ninguém em quase nada na minha vida. E, na audição de música também não, porque vivo um bocadinho no passado. Ouço muito bandas antigas. Na última viagem que fiz de carro, fui a ouvir os Carpenters, que já não fazem discos. Ouço muita gente morta. [risos]

Mas em geral, como é que consome arte? Lê muito, vai a exposições, ao teatro, ao cinema?

Sim, leio muito. Sou uma ávida leitora. Aproveito os bocadinhos todos que tenho livres para poder ler. Sou informada em relação aos livros. Mais do que a música, sou mais informada sobre os livros que vão saindo.

Isso é uma inspiração para as músicas?

Para mim é. A leitura, para mim, é uma viagem grande, de liberdade. Também vejo muito cinema antigo. Sou uma alma velha, acho que não corresponde à idade que tenho.

Redes sociais no campo

Vivo no campo, numa aldeia, e tenho galinhas. Quando põem ovos, então, é a loucura. Portanto, ter esta "rede social" e tratar do jardim e da horta ocupa-me bastante tempo.

Como se protege do frenesim das redes sociais?

Vivo no campo, numa aldeia, e tenho galinhas. Quando põem ovos, então, é a loucura. Portanto, ter esta "rede social" e tratar do jardim e da horta ocupa-me bastante tempo [risos]. Logo aí, algum do meu tempo é cortado, pois não o gasto a ver redes sociais. Têm coisas muito positivas. Aprendo e vejo, até de agricultura, ideias espetaculares, para empregar no meu jardim e com as minhas galinhas. Mas há outro lado em que parece que é só ódio. Não quero conviver com isso. A vida já é um desafio muito grande. Crescer é um desafio enorme. Encontrarmo-nos connosco próprios e o nosso lugar no mundo é um desafio brutal. E, portanto, se eu tiver muito ruído visual, sonoro e, sobretudo, ruído de guerra, só de confrontação, de cobrança, acho que isso não me enriquece em ponto nenhum.

Nem às crianças.

Muito menos às crianças. Somos todos responsáveis pelas crianças do mundo, do nosso mundo. Gosto de acreditar que as crianças podem crescer sem ver o lado negro do ser humano e do mundo. As redes sociais têm muita coisa tóxica, muita zanga, muita raiva e, portanto, é um risco deixar uma criança à mercê de um ecrã, no qual não sabemos o que vai aparecer, nem quem vai aparecer, nem que intenções é que têm as pessoas que gravaram um vídeo supostamente para crianças. Portanto, temos que proteger as crianças. Podemos proíbi-las, mas retirar as crianças da realidade em que vivemos também não me parece uma estratégia muito sensata, porque, mais cedo ou mais tarde, vão ter que lidar com isto. Acho que é mesmo a monitorização, a preocupação. 

Como vê a inteligência artificial na música? Põe em risco os direitos de autor?

É um tema complexo. Num primeiro momento, gosto de olhar como uma oportunidade para a criação – isso não me choca. Choca-me usar fórmulas, e a inteligência artificial, no sentido de fórmula, para reproduzir coisas em cadeia, no mundo artístico. Música em cadeia aflige-me, porque gosto é que a música ou a arte me desperte. Se estiver o dia todo a ouvir uma música criada por uma máquina, há um lado que vai faltar àquela música e essa ideia chateia-me bastante. E depois há a questão mais pragmática, que tem que ver com os direitos de autor. Estas máquinas alimentam-se daquilo que eu fiz, do que milhares de músicos reais, de carne e osso, com o seu sofrimento e com horas de trabalho, a sua criatividade e audácia, foram fazendo pela música. Está a tentar fazer-se legislação, mas é complexo, porque a legislação não acompanha a velocidade da tecnologia. Andamos a correr atrás do prejuízo, mas tem de haver uma forma de não sermos comidos pela máquina.

 

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