Ator Pedro Lamares: "A cultura tem de voltar a ser uma prioridade do Estado"

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Publicado a 26 junho 2026

Defende o reforço da cultura com um orçamento mais ambicioso e pede uma investigação à "muito poderosa" indústria farmacêutica. Consumidor impulsivo, esforça-se por tomar decisões mais racionais e informadas. Valoriza a pesquisa e o aconselhamento especializado, na compra de um carro usado ou na escolha de um livro.

António Pedrosa/4See Ator Pedro Lamares na livraria Flâneur, no Porto
Ficou conhecido do grande público através da televisão e é um grande divulgador da palavra dita. Apresentou programas como Literatura Agora e Literatura Aqui, na RTP2. Mantém atividade junto de escolas, bibliotecas e públicos de todo o País. Revisita o percurso entre o teatro, a televisão e a relação íntima com a palavra num testemunho sobre identidade e voz própria. Vinca o lugar da cultura na sociedade e rejeita a sua redução a "tempos livres". Sugere o socorrismo como obrigatório na educação e considera essencial uma investigação à indústria farmacêutica.

Consumidor como nós

"Três meses de estudo para comprar um carro usado. Não tinha orçamento para errar e tentar de novo."

Prefere o livro de reclamações ou o livro de elogios?

Em teoria, prefiro o livro de elogios, romanticamente falando. Utilizei muito mais vezes o de reclamações.

Já ameaçou alguma empresa com a defesa do consumidor?

Sim, já denunciei à ASAE, já escrevi em livros de reclamações, utilizei o mecanismo da defesa do consumidor várias vezes. Os meus pais eram subscritores da DECO PROteste, e lembro-me de começar a ganhar essa consciência dos direitos na adolescência.

E com bons resultados?

Não sei medir. A pessoa escreve e é notificada de que está a ser tratado. Depois não tenho a curiosidade de controlar. Não tenho espírito vingativo de saber se foi consequente e abandono. Faço a minha parte, relato e saio de cena.

Nas compras, é mais impulsivo ou mede bem cada decisão?

Impulsivo. Estou a fazer um grande esforço para me tornar mais metódico, ponderado e racional. Por exemplo, no último bem de consumo que comprei com valor significativo. Nunca comprei casa, tirei a carta de condução aos 43 anos e recentemente comprei um carro usado. Foi a compra mais ponderada da vida. Três meses de estudo sobre carros, motores, mecânica, fiabilidade, tipos de venda, importação, para fazer uma compra muito racional. Sem segunda oportunidade. Não tinha orçamento para errar e tentar de novo.

Deixa-se tentar por promoções, ou passa tudo ao lado?

Pouco, toda a gente é vítima de marketing, mas não persigo promoções, não dou o número de telefone às lojas. Usufruo dos cartões de supermercado que me dão bónus em combustível. Não tenho disciplina como consumidor. Se me dão vales e talões, perco ou esqueço e volto à mesma loja.

Compra em lojas físicas ou online?

Lojas físicas, sem dúvida. Já fiz várias compras online, mas gosto muito de seres humanos. Gosto de ir às lojas e pedir recomendação, falar com alguém que saiba do assunto e me ajude a entender as diferenças entre equipamentos. Por exemplo, adoro uma livraria a sério, com livreiros, com curadores, com pessoas que gostam de livros e que recomendam livros.

Recomende uma boa experiência de consumo.

Um belíssimo exemplo são livrarias, a Flâneur, a Poetria, a Snob, a Miguel de Carvalho, na Figueira da Foz, ou seja, os livreiros apaixonados por livros e onde conversamos com quem sabe e tem prazer em mostrar e partilhar o que tem. É lúdico e enriquecedor.

Quem é Pedro Lamares?

Pedro Lamares, 47 anos, nasceu em Portimão, mas o Porto é a sua âncora. Ator, encenador, formador e uma das vozes mais reconhecidas na divulgação de poesia no País. Recebeu-nos na Livraria Flâneur, no Porto.

Socorrismo obrigatório na escola

"Há uma indústria muito poderosa e com grande habilidade para manipular ao nível do marketing e da opinião pública: a farmacêutica."

A televisão deu notoriedade ao Pedro Lamares. A poesia deu identidade?

A televisão deu notoriedade na ficção, quando fiz novelas e séries, e depois com os programas de literatura na RTP2, numa escala muito menor. Não é comparável o público-alvo da ficção de um canal comercial com o de um programa de literatura às 23h00, à 3.ª feira, na RTP2. Deu-me reconhecimento. A notoriedade que me deu, e agradeço, usei-a ao serviço do público para fazer o que queria, e aí entra o trabalho com a literatura, de ativismo social e político através da arte e da cultura.

O Pedro ator e o divulgador são diferentes ou a mesma pessoa?

A pessoa é a mesma, o ofício é diferente. Quando trabalho como ator, faço aquilo a que chamamos composição de personagem, e essa personagem é externa a mim, parte do meu corpo, parte do meu olhar, da minha dramaturgia, que faço ao texto, mas é uma pessoa externa a mim. Quando estou a dizer poesia, não represento outra pessoa, estou a servir o texto, como quem serve um bife à mesa, mas não me visto de outra coisa para fazer isso.

Que investigação gostaria que a DECO PROteste fizesse?

Há uma indústria muito poderosa e com grande habilidade para manipular ao nível de marketing e de opinião pública: a farmacêutica. Falta um estudo profundo sobre farmacêuticas, medicamentos, para perceber em que é que o Estado poderia responsabilizar-se: por exemplo, medicamentos que não estão no mercado porque falta interesse das farmacêuticas por uma questão económica, que tem zero que ver com a saúde das pessoas.

Critica a indústria farmacêutica: "alguns medicamentos não estão no mercado por uma questão económica." 
"A indústria farmacêutica é muito poderosa. Alguns medicamentos não estão no mercado por uma questão económica."

Se pudesse criar um serviço, qual o que faria mais falta?

Um que deveria estar muito mais à disposição de todos, até deveria ser prestado na educação obrigatória, é o de socorrismo e cuidados básicos.

Cultura sem mínimos olímpicos

"Neste momento, há uma espécie de Ministério dos Tempos Livres."

Faz sentido falar de poesia num tempo cada vez mais rápido?

Talvez por isso mesmo, faz muito sentido falar de poesia, ler poesia e darmos esse tempo na época do scroll passivo e do consumo muito rápido de tudo, de informação, da sensação, em que a velocidade atropela tudo. O tempo da poesia é um tempo próprio e muito especial.

O que distingue dizer poesia de ler poesia?

Uma responsabilidade acrescida. Dizer poesia é prestar um serviço ao público com uma enorme responsabilidade, na descodificação do poema, na entrega despoluída do poema, no controlo da vaidade no ato performativo. Ler poesia é um ato solitário e sem tempo. Posso demorar 15 minutos com meia-dúzia de versos. Já o ato de dizer tem um trabalho de burilação, da palavra e de jogo, quer do tempo que demoramos em cada palavra, quer das suspensões e da forma como distribuímos o tempo para recebermos as imagens e darmos às pessoas a possibilidade de receberem as imagens.

A palavra mais bonita? "Abril. Democracia é a mais pisada", atira sem hesitar. 
A palavra mais bonita? "Abril. Democracia é a mais pisada", atira sem hesitar. 

O que faria para baixar o preço dos livros?

O famoso 1% para a cultura, ou seja, um orçamento do Estado com mínimos olímpicos de dignidade para a cultura. Neste momento, há uma espécie de Ministério dos Tempos Livres. "Ministério da Cultura, Juventude e Desporto" é uma abrangência de coisas. Gostaria muito de voltar a ter um Ministério da Cultura e um Estado que olhasse para a cultura, e um Governo que olhasse para a cultura, conferindo-lhe a importância real na construção cívica e social da nossa identidade como País, e poderia haver uma participação nos livros. Há livros bastante caros, e, muitas vezes, é impeditivo, mas temos uma rede de bibliotecas públicas extraordinária.

Escolha um poema para entregar ao futuro e dizer em voz alta.

A Forma Justa, da Sophia de Mello Breyner. Ela começa: "Sei que seria possível construir o mundo justo / As cidades poderiam ser claras e lavadas / Pelo canto dos espaços e das fontes." E termina: "Sei que seria possível construir a forma justa / De uma cidade humana que fosse / Fiel à perfeição do universo / Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco / E este é o meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo." É um tema que faz muita falta.

 

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