Cantora Marisa Liz: "Gastem mais em experiências do que em coisas"
Marisa Liz revela a sua visão nas escolhas diárias. Defende uma vida com menos bens materiais e mais viagens, desafiando modos de consumo: "compramos demasiado e investimos pouco em nós." Alerta ainda para o reforço urgente da proteção das crianças.
Consumidora como nós
"Antes de comprar, temos de investir tempo e perceber porque precisamos tanto disto e daquilo. Precisamos de assumir uma responsabilidade maior."
Em que área ou problema pode a DECO PROteste ajudar?
Estamos a falar de consumidores. Mas estamos a falar de seres humanos. A lista é tão grande, que merecemos mais, devemos a nós próprios ter uma vida mais fixe. O consumo, por vezes, desconcentra-nos de questões fundamentais da evolução emocional. Temos de assumir uma responsabilidade maior sobre o que compramos. Tento cada vez mais reutilizar roupa, reutilizar tudo o que tenho em casa, alterar e transformar. Antes de comprar, temos de perceber porque precisamos tanto disto e daquilo.
Qual foi o primeiro ordenado? E como o gastou?
A primeira vez foi nos Trapalhões em Portugal. Convidaram-me para cantar. Não sabia que ia receber. Fiquei em êxtase. Hoje, seriam 250 euros. Gastei num jantar com a família. Para mim, não havia opção nenhuma sem ser gastá-lo com as pessoas de quem eu gostava.
Foi despedida de uma gelataria?
Sim. O patrão estava a enganar os clientes. Nas bolas de gelado, pedia para dar uma volta. Não era para encher a bola. Depois, pôs-me a lavar arcas. Despediu-me e eu despedi-me. A loja já não existe. Saí em defesa do consumidor. Dei as bolas todas de gelado a mais.
Nas compras, age mais por impulso ou é metódica?
Não estudo nada. Com PHDA, os impulsos são difíceis de controlar. Não costumo sair para comprar e tenho dificuldade em comprar as coisas certas. Por exemplo, se não tiver na casa de banho tudo à frente, é como se não existisse. Se não tiver o creme da cara, olho e vou comprar outro, até a minha mãe dizer-me: "Marisa, temos 30 caixas de cotonetes." Sou a pior pessoa para pedir serviços a estafetas. A pior em quantidades. Evito gastar dinheiro em coisas que muita gente gasta. Não tenho preferências com marcas. Se conseguir comprar para reutilizar, melhor ainda. Gosto muito de comprar em segunda mão em lojas vintage.
Lembra-se de uma boa compra? Ou de arrepender-se de uma escolha?
A lista de péssimas compras é grande. Comprei uma peça para simular gatos no arroz. Gostei tanto que comprei um para toda a família. Depois do arroz pronto, aquilo deixa a forma de gatinhos a dormir. Pus o gatinho no prato e o meu filho começou a chorar e a dizer que não conseguia matar um gato. Ninguém gostou. Tenho 15 gatinhos para nada. Compras boas: tudo o que comprei para a minha mãe, todas as viagens que fiz. O dinheiro mais bem gasto foi em experiências, em comida, em viagens. E não estamos a falar de muito dinheiro. Já avisei os meus filhos. Não vou deixar nada, porque vou gastar e viver tudo com eles. Aquilo que vou deixar é aquilo que temos vindo a viver. Tenho estes de repentes. Vamos não sei para onde. Faço as malas e nem sabem. Não gasto dinheiro em coisas que não trazem energias novas, em que não aprendemos nada com isso.
Pode sugerir um destino?
Butão marcou-me para sempre, Madagáscar, todas as viagens que fiz sozinha e com eles. Por vezes, temos viagens de carro sem sabermos para onde. Na última a Madrid, demorámos dez horas, segundo a minha filha.
Já usou o livro de reclamações ou o livro de elogios?
Usei o de reclamações duas vezes, uma vez no caso do livro de elogios. Soube há pouco tempo que existia. De reclamação, já foi há muitos anos. Fui com uma marca a Cannes. No restaurante, éramos todos portugueses. E o senhor que estava a servir à mesa, quando percebeu que éramos portugueses, atirou com o guardanapo para cima da mesa e disse que não nos servia. Pedi o livro de imediato.
Quem é Marisa Liz?
Marisa Liz, 43 anos. Cantora, destacou-se como vocalista dos Amor Electro. Estreou-se a solo em 2022 com o single "Guerra Nuclear", seguindo-se o álbum Girassóis e Tempestades. Acaba de lançar o segundo disco: Relatos de um Coração Confuso. Foi mentora em 10 edições do programa The Voice Portugal da RTP.
Streaming paga mal aos artistas
Há espaço para a inteligência artificial na produção musical?
Sim, há espaço para a tecnologia, como há espaço para tudo o que possa ajudar alguém sem formas de navegar em música. Muitas pessoas não têm um teclado em casa. Mas tendo a noção de que a inteligência artificial está a reproduzir uma coisa, não está a criar nada. Está a reproduzir coisas que já foram feitas e a juntá-las de outra forma, e isso tem de ser balizado. Não podemos pôr uma criação emocional de um ser humano na mesma caixa onde metemos uma recriação. Equilíbrio é tudo. Na perspetiva certa, tudo pode ajudar.
Recorre à inteligência artificial? Tem subscrições digitais ou usa plataformas de streaming?
Sou zero digital, oiço vinis em casa, mais analógico é impossível. Perco as passwords todas, nunca sei entrar em lado nenhum, o telemóvel está sempre estragado. Ainda há pouco tempo tirei o som das chamadas e nem percebi como o fiz. Se a humanidade precisar de ajuda nesta área, por favor não me chamem.
O consumo de música é hoje digital. Como analisa esta mudança?
A música dá-me coisas que mais nada me dá e aquilo me iria trazer bastante felicidade é que várias pessoas tivessem essa experiência. Antigamente, ouvir um disco era como ver um filme. Se há um filme, vamos preparar as pipocas e vamos apagar a luz. Fazíamos isso com discos. Saía um disco e íamos ouvi-lo. Nem toda a gente tinha leitor, combinava-se na casa de amigos. “Posso ir ouvir aí o disco?” “Ou empresta-me o disco.” Lembro-me de discussões. A malta fazia playlists de amizade. A música cria ligações. Mas só cria ligações se nos quisermos ligar. Adoro chegar a casa e ouvir um disco. É necessário. Os discos ensinaram-me a ser melhor pessoa, ensinaram-me a fazer as perguntas que ainda não tinha. Cada disco era um pequeno planeta. Seria saudável voltarmos a consumir música da forma como consumimos comida. Para conseguir andar, temos de beber água, de comer, estamos a nutrir o corpo. Nós temos de nutrir o coração. Podemos andar e correr, mas, se não consumirmos cultura, não saberemos para onde vamos.
O consumidor sabe como funcionam os direitos de autor?
Talvez não. O cenário atual está muito difícil. Cada compositor ou cada autor ganha direitos de autor. Não tem que ver com quem canta a música e com quem a toca – isso são outros direitos. Quando se é intérprete e não se compõe, a forma de receber dinheiro é através dos concertos ao vivo. Digitalmente, estamos a falar de valores ridículos. Se os artistas dependessem do dinheiro desse consumo digital para sobreviverem, não existiriam artistas. Alguns fizeram negociações à parte do resto da comunidade musical. Mas a música e os artistas não vão acabar. Olhando para o consumo musical hoje, o pagamento por esse trabalho não está a ser feito. Para receber, não chega compor, não chega criar, não chega produzir. Tem de tocar estas canções ao vivo. Na pandemia os artistas deixaram de poder dar concertos ao vivo, não tinham fontes de receita. Os músicos passaram muito mal. Estamos a falar de milhares de pessoas, que tocam em bares, casamentos, concertos grandes. Deparei com uma classe inteira abandonada. Sem concertos, as pessoas estavam a passar fome. Tivemos de fazer vários movimentos para arranjar pacotes de arroz e latas de atum para a classe musical. A classe sempre disponível, para tocar de borla em todo o lado. Há um fogo, há uma manifestação, precisamos de vocês, vamos. Também faz parte do nosso papel, mas este problema tem de ser resolvido.
A situação financeira dos portugueses tem piorado, segundo o Barómetro da DECO PROteste. Os concertos estão entre as despesas mais difíceis de pagar. O preço dos bilhetes está a afastar o público?
Nos festivais, temos um valor com acesso a uma data de artistas. São decisões do tipo de experiência. Não sou muito de festivais. Como consumidora, gosto de ter um som bem condicionado. Se for ver o Stevie Wonder, quero ouvi-lo. Os valores são muito diferentes. Nos auditórios que faço, não me parece que sejam bilhetes caros. Dado que a cultura se tornou uma coisa que não temos de pagar, quando temos de pagar algo já começa a ser caro. E vivemos num país que nos habituou às festas da cidade. São gratuitas e há uma educação social em relação ao dinheiro que se gasta na cultura. Está intrínseco, vou a uma festa da cidade, vou ver um artista de que gosto sem pagar. E as pessoas pensam no dinheiro que já vão gastar para beber, para comer e para gasolina. Há valores ridículos para cima e para menos. Perdeu-se a noção da dificuldade do que é ser artista. A música não é como um trabalho, em que aos 65 anos nos reformamos. Nós temos uma Casa do Artista, o único sítio para artistas. E onde as pessoas estão esquecidas. Grande parte daquelas pessoas fizeram o nosso povo vibrar de emoção, chorar, rir, celebrar. Conquistaram emoções por nós e levaram-nos com elas. Pode-se achar 20 euros um valor altíssimo para um concerto. E não achar 20 euros um valor altíssimo para pipocas e uma bebida. As pessoas acabam por sentir que têm um monte de opções, mas na verdade não têm assim tantas. A cultura tem de ser acessível a todos, inclusive a quem a faz.
Sucesso é estar feliz
Que investigação falta fazer à DECO PROteste?
Deveriam ter uma tese de saúde mental com várias idades para saber se as pessoas se sentem felizes e o que é felicidade para cada um. Basicamente, tratar questões sociais, questionar o pensamento e perceber o índice de felicidade. Temos vários índices, mas não temos um índice emocional. Se soubermos que 80% da população está superfeliz, estou totalmente enganada. Caso 80% se revelem infelizes, o assunto deve ser uma prioridade. É o que nos move, as ligações com os outros. Se não está saudável, qualquer coisa à volta, inteligência artificial, consumo, os discos que possa fazer ou não, nada se altera.
E se mandasse, ao nível político...
Apostava na proteção de crianças. Não há avisos para abusos sexuais, não há avisos para violência doméstica. Acontece uma vez, é crime. Temos a responsabilidade de cuidar de nós, uns dos outros e das crianças. Em 2026, a proteção contra a violência e os crimes sexuais continua a ser motivo de disputa política. O que vai fazer na vida uma criança que sofre violência doméstica ou abusos? Não teve uma infância.
Qual foi o melhor conselho que recebeu?
Sempre da minha mãe. E tento passá-lo aos meus filhos. Independentemente do que faças ou do que escolhas fazer, não tem de ser uma decisão definitiva. Não somos definitivos, não faz sentido haver uma data de decisões definitivas. Devemos dar a maior atenção às pessoas que vão vivê-las ao nosso lado. Isso altera a perspetiva, a energia, pode alterar os valores, a vontade, a força. No mundo inteiro, ninguém sabe porque veio aqui parar. Quando encontramos pessoas que fazem sentido, encontramos o meaning of life.
Ser mãe mudou a forma como olha para o sucesso e o fracasso?
Mudou a forma como olho para tudo. Depois de a minha filha nascer, nem me lembro porque ria ou chorava. Na primeira vez que deu uma gargalhada, nunca me tinha rido daquela maneira. Vinha de um sítio diferente. Nunca mais dormi em condições. Alterou tudo, mas a minha perceção de sucesso já tinha sido alterada antes. Na minha família, nunca me faltou nada, mas a minha mãe era sozinha, cuidava de mim e do meu irmão, nós éramos uma família de sucesso. Eu, a minha mãe e o meu irmão é assim um gangue do amor. Nunca pus a bitola do sucesso fora disso. O momento em que tive menos sucesso foi a altura que tinha mais dinheiro e foi a altura que estava mais triste. Para ter mais dinheiro andava a trabalhar mais, acabava por não ter momentos. Percebi muito cedo que ter sucesso é estar feliz. Num concerto cheio se não estiver feliz, não sou uma pessoa de sucesso. Quando saí da banda Donna Maria e voltei aos Templários Bar muita gente questionou o que estava a fazer. "Com concertos, disco de ouro e sais?" O sucesso estava a chegar e decidi voltar para os bares. Para mim era o oposto. Não tinha sucesso. Não estava feliz. E a primeira vez que voltei a cantar em bares foi das noites mais felizes. Quero ser feliz e ter sucesso. Isso aprende-se com malta internacional que nas entrevistas diz ter tudo e sentir um vazio. A gente anda à procura de sentido. Parece que quando tiveres sucesso, há um sentido qualquer. Não há sentido nenhum sem ligações. Se tiver ligações que me façam bem e às pessoas que me rodeiam, sou genuinamente e com orgulho uma pessoa cheia de sucesso.
Se um dia a máquina parar e a música deixar de tocar, o que ainda falta fazer?
Impossível. Posso deixar de a compor ou de a cantar. Nós vamos parar um dia, a única coisa que não vai parar é a música que fiz, nem que seja para os meus filhos, para eles a ouvirem. Portanto, se há coisa que não para, são as nossas expressões.
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