Ana Varela: "O consumidor consegue mudar o mercado"
Conhecida do pequeno e do grande ecrã, Ana Varela tem somado à carreira como atriz a bandeira da sustentabilidade. Começou com um blogue e lançou um livro, Pequenos Passos para uma Vida Mais Sustentável, sobre como podemos ser mais sustentáveis.
Quem é Ana Varela?
Ana Varela iniciou a sua carreira como atriz em séries de televisão, no cinema, mas tem-se destacado, sobretudo, nos últimos tempos, pelo ativismo em prol da sustentabilidade. No livro Pequenos Passos para uma Vida Mais Sustentável partilha como podemos alterar os nossos hábitos, rumo à sustentabilidade.
Consumidora como nós
Como se deu a mudança para a sustentabilidade na sua carreira?
Não abandonei uma carreira para abraçar outra. Muito pelo contrário, as duas estão presentes na minha vida em paralelo. Acho que foi uma transição ou um despertar, chamemos-lhes assim, contínuo. Acho que tem muito que ver do sítio onde eu vim, da infância que tive junto dos meus avós e dos meus pais. Também está muito ligado com o nascimento das minhas filhas, com esta preocupação de que planeta lhes deixamos, como é que usamos os recursos. Não posso entregar-lhes um património doente para elas tratarem. É a geração que agora existe, que habita o planeta neste momento, que tem de fazer diferente para que elas possam herdar um planeta mais saudável.
O que pode levar o consumidor a ter opções menos sustentáveis?
Muitas vezes, as nossas decisões ainda são muito baseadas no preço. E, às vezes, essas decisões não são as mais conscientes, porque o que é mais barato é produzido de uma forma pouco consciente ou com recursos materiais que deixam uma pegada de lixo e desperdício no nosso planeta. Mas cheguei a uma conclusão muito interessante: a sustentabilidade, que é, na realidade, a melhor ou a mais eficiente utilização dos recursos disponíveis, leva-nos a poupar. Ou seja, ser sustentável não é gastar mais, é gastar de uma forma muito mais eficiente. Portanto, há aqui uma ideia que é preciso desfazer: se tenho um rendimento pequeno, vou escolher barato porque preciso poupar e não tenho muito para gastar. Podemos mudar para outra ideia: tenho um rendimento apertado, então vou fazer as escolhas mais eficientes e mais inteligentes para gerir o meu rendimento e não tenho, forçosamente, de comprar o que é mais barato.
Pode dar um exemplo?
A carne. Não defendo que todos nós devemos ser vegetarianos ou veganos. Mas a carne tem uma pegada ecológica gigantesca no nosso planeta e no nosso orçamento familiar. Se mudarmos para uma alimentação de base vegetal, diminuímos a pegada ecológica e poupamos na fatura do supermercado todos os meses. Portanto, é um mito dizer que o que é sustentável é sempre mais caro.

Também tem recomendações em relação ao vestuário…
Imagine uma t-shirt que foi produzida em fast fashion na Ásia, por trabalhadores em condições precárias, e uma t-shirt produzida em Portugal, onde a mão de obra é mais defendida e tem mais condições de trabalho e é feita com matéria-prima que é algodão orgânico. A mais sustentável, neste caso, é a produzida em Portugal com algodão orgânico. E é mais cara. No entanto, nós não precisamos de estar sempre a comprar uma t-shirt sustentável. Compramo-la por ter uma duração de vida muito maior, provavelmente, que as dez t-shirts mais frágeis. Ou seja, pode ser mais cara, mas a duração da vida útil da t-shirt é muito maior e vai compensar.
Teve de alterar muitos hábitos de consumo em relação à vida anterior?
Alterei muitos hábitos de consumo. Em todas as esferas da vida: alimentação, vestuário, higiene, mobilidade. Na alimentação, lá está, sou vegetariana. Na mobilidade, passei a utilizar mobilidade elétrica. E já consegui também começar a produzir a minha própria energia através de painéis solares na cobertura da minha casa. Compro muito menos roupa e penso muito mais antes de a comprar. A maior parte da roupa das minhas filhas ou é herdada das primas ou comprada em segunda mão.
As novas gerações são realmente mais sustentáveis ou são só mais conscientes do problema?
Acho que as novas gerações têm mais consciência dos problemas, tendem a aplicar mais rápida e facilmente as soluções. E isso deixa-me feliz.
Mas há negacionistas...
Exatamente, do outro lado do Atlântico existem bastantes. Como é que se consegue combatê-los? Tive de decidir que não vou conseguir que todos adotem o meu ponto de vista e nem tenho a arrogância de achar que o meu ponto de vista é o correto. Pode não ser. No entanto, nada me vai impedir de continuar a fazer o meu caminho. Não vou deixar de falar sobre este tema. Não vou deixar de o defender. A única coisa que me resta é continuar. Fazer aquilo em que acredito.
"Com o Livro de Reclamações, crescemos"
Reabilitou uma casa centenária segundo o conceito de casa passiva. É uma casa sustentável?
Uma casa passiva tem necessidades energéticas mais baixas. A casa tem de cumprir uma linha contínua de isolamento térmico pelo exterior para garantir que está corretamente isolada. Também existem limites de espessura do isolamento térmico para que as condições de temperatura dentro de casa se mantenham saudáveis ou equilibradas. Um outro princípio é a identificação clara das pontes térmicas. Outro princípio são as janelas, têm de ser aplicadas janelas eficientes, vidro com corte térmico, com faixas de estanqueidade ao ar. A casa tem de ser totalmente estanque, não pode haver transferências de ar entre o interior e o exterior, não pode haver chaminés, lareiras, etc., para que depois possa ser instalado – é o último princípio – um sistema de ventilação mecânica do ar. Com estes cinco princípios conseguimos que a casa não seja tão fria no inverno e não precise de gastar muita energia para aquecer, e que não seja tão quente no verão e que não precise de gastar muita energia para arrefecer. Depois, houve as escolhas dos materiais. Por exemplo, a pedra da minha cozinha é feita do desperdício da indústria pedreira. E depois, acima de tudo, é manter a envolvente verde à volta que me purifica o ar, o meu e do planeta em geral.
Teve alguma experiência de consumo que correu mal?
Lembro-me, por exemplo, das escovas de bambu, que são sempre apontadas como uma solução mais consciente em relação às escovas de plástico, que depois são muito difíceis de reciclar, porque têm vários materiais. Para mim não funcionam, porque o cabo de bambu absorve muita água e acaba por apodrecer muito rápido.
Que projetos tem em curso?
Tenho alguns projetos relacionados com a sustentabilidade e com marcas com quem trabalho, como um podcast. Em princípio, vai sair aliado à sustentabilidade e à mobilidade. Continuo sempre a ter vários projetos, tanto na minha área de atriz como na área da sustentabilidade, as quais vivem lado a lado, não dá para separar uma da outra.
Que investigação falta fazer à DECO PROteste?
Seria importante analisar de que forma é que o governo está ou não a implementar medidas e soluções mais conscientes e se cumpre as que prometeu fazer e de que forma as está a cumprir. E dar também sugestões de outras que podia implementar.

Livro de reclamações ou livro de elogios?
Acho que com o livro de reclamações crescemos, com o livro de elogios sabemos que estamos no caminho certo. São ambos importantes.
E já pediu o livro de reclamações alguma vez? Em que situação?
Quando a solução apresentada não estava disponível. E já pedi muitas vezes o livro de sugestões em supermercados. Há supermercados em que ainda existem poucas opções para quem não consome carne e peixe.
Acredita que o consumidor tem sempre razão, como diz o ditado?
Não sei se terá sempre razão, mas deve ser sempre ouvido. Há esta ideia de que o consumidor tem pouco poder. É errada. O consumidor consegue também mudar o mercado. Se começar a procurar opções mais conscientes e mais sustentáveis, a oferta tem de começar a produzi-las. É importante sabermos isto.
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