Cantor Buba Espinho: "São precisos mais check-ups de saúde mental"
Respira Alentejo por todos os poros e está atento às dificuldades no Interior do País, onde se divide entre campo e cidade. É o rosto principal da geração que tem projetado o cante alentejano, "um dever de quem é local." Mas procura transportar ainda a cultura e a forma de estar alentejana: "Dar valor às coisas simples da vida."
Alentejo e luta contra a desertificação
O cante alentejano já vence festivais, proliferam as bandas. O que conquista o público neste género musical?
Enquanto artistas, somos também transmissores de uma cultura. Considero-me alguém com muita responsabilidade na promoção da minha terra e cultura. Mas mais do que vencer um festival, é a forma como o público, os meios de comunicação e as câmaras municipais, todas as entidades superimportantes para a promoção da cultura, têm olhado para o cante e para a nossa terra, finalmente. Chegámos a esse momento em que o País encontra aquilo que realmente é o Alentejo pelos meios certos, e não só pelo Alentejo das piadolas, que já chateava. A expansão internacional com o turismo também tem sido muito importante. Acredito que o vira, do Minho, enquanto género musical português com tradição tenha ainda um caminho a fazer também.
Temos um problema de desertificação no Interior. O que poderia fazer a diferença para trazer mais gente e meios?
Não gosto de culpabilizar. Apontar só culpas não faz crescer, não faz construir. Acredito que o que pode fazer a diferença seja a união, de negócios, politicamente; as câmaras municipais estarem aliadas aos promotores de eventos, aos promotores de cultura e aos agentes de turismo. É muito importante para que quem lá vá se apaixone. Temos de ter um bom produto, continuar a saber receber bem, ter bons restaurantes, boa música... Mas não estamos organizados de forma que uma pessoa que venha de França, da China ou de Lisboa conheça efetivamente a nossa identidade e que esta seja mostrada como deve ser, enquadrada. Falta um trabalho coletivo no Interior.
O que representa melhor a essência do Alentejo?
É tão grande e diversificado que é difícil. Só o simples facto de o Alentejo ter interior e costa já torna a cultura e a gastronomia totalmente diferentes. Se fôssemos um prato, diria que somos umas migas de espargos: consistentes por fora e docinhos por dentro, softs e gostosos. Para mim, o Alentejo é muito mais do que um lugar. Seja um alentejano, seja alguém que vem de fora, quando chega e respira aquele ar, vindo da cidade e da confusão, é sempre um momento especial. A natureza fala por si, a gastronomia é tão simples, mas tão rica ao mesmo tempo... os alentejanos conseguiram ser criativos e passar as dificuldades cantando e fazendo petiscos que ainda hoje fazemos. Somos um povo muito triste, na medida em que já sofremos muito, mas muito feliz ao mesmo tempo na forma como encaramos a vida.
E o que transporta dessas origens para a vida?
Simplicidade e humildade. Pelo menos, é o que eu penso todos os dias que devo ser perante tantas situações. Num mundo com tanta informação, com tanta coisa a acontecer tão rápido, muitas vezes, o melhor é mesmo fecharmo-nos e pensarmos bem no que está aqui dentro e no que nos faz bem ou mal. O alentejano tem muito isso. Como é que um povo que sofreu tanto consegue ser tão feliz, cantar tanto e ser tão engraçado? Como há tanta alegria num sítio que é quase o deserto, esquecido pelo nosso país e pelo mundo inteiro? Mas somos muito felizes, porque somos simples e humildes, e damos valor às coisas simples da vida.
Quem é Buba Espinho?
Tem 31 anos e nasceu em Beja. Lançou-se no fado em Lisboa. Em 2016, venceu a Grande Noite do Fado, no Coliseu dos Recreios. É também conhecido como o principal embaixador do género musical tradicional Cante Alentejano.
Consumidor como nós
Como gere as finanças pessoais?
Sou muito organizado e não gosto muito de excentricidades ou grandes luxos. Gosto de comprar a minha roupa não muito cara, e não procuro ter não sei quantos carros de marca; basta um que ande e seja consistente. Anualmente, invisto em material para os meus concertos, na minha equipa, em carrinhas para o meu projeto, por exemplo. Também invisto em planos de poupança para a reforma, mas sobretudo em imobiliário. É onde invisto grande parte do dinheiro que ganho, além de gastar, obviamente, nas condições de vida que dou aos meus filhos. Para investir no imobiliário, que é algo que sempre me apaixonou, procuro muita informação. Gosto de pensar qual é o próximo sítio a crescer, estudo os meios de transporte e falo com muitas pessoas, para estar atualizado. Faço muitas perguntas. Sou o chato que liga muito! Quando invisto, já decido com alguma confiança e estabilidade.
É um consumidor ponderado. Prefere comprar online?
Tenho de tudo. Valorizo a rapidez com que as coisas estão a crescer e a facilidade de, no dia a seguir, ter um produto de que preciso mesmo. A maioria das compras são feitas online. Por exemplo, estou a fazer mudanças em casa e comprei quase tudo online, exceto algumas coisas mais estéticas que gosto de ver no sítio. Também compro quase toda a roupa online, a não ser quando há provas de styling e tenho de experimentar.
E reclamações ou conflitos de consumo, já enfrentou?
Estou a fazer obras em casa, e acho que não há nenhuma pessoa que esteja a fazer obras e possa dizer que corre tudo bem! Sinto que, muitas vezes, tudo se relaciona com falta de comunicação e medo de as pessoas errarem. Em todos os níveis de trabalho, não só de baixo custo, há quem não consiga relativizar e ser empenhado. E acho que esse é o principal problema que um consumidor encontra: alguém desmotivado a fazer o seu serviço. Não sou um consumidor muito exigente, mas há pessoas que nos fazem pensar que aquele não é o melhor sítio para ir. Se acreditar que há potencial, até posso tentar mostrar como fazer as coisas de forma diferente e ajudar a melhorar. Mas, se não for ouvido, rapidamente desligo. Não chego ao ponto de pedir o livro de reclamações.
Que investigação a DECO PROteste deveria fazer?
Não sei se através de uma investigação, mas... A saúde mental é muito importante para quem é fornecedor e para quem trabalha para o público, principalmente. Compreendo a dor de quem atende 500 chamadas por dia num call center, a dor de quem trabalha numa portagem e lida com três mil pessoas diariamente. Mas já encontrei pessoas porreiras ao telefone e vi aquele senhor muito conhecido na portagem, que toda a gente adora. Por isso, deveríamos estar mais preparados para sabermos como estão os trabalhadores, e de que forma estão aptos para desempenharem um serviço. Porque depois é uma cadeia, uma avalanche: quando as coisas correm mal, não se comunica. Poderia ser interessante haver check-ups de saúde mental, e não só check-ups dentários ou de ouvidos, que vemos por aí todos os dias.
Como procura o equilíbrio físico e mental?
Faço desporto e gosto, acho que é algo muito importante no nosso dia-a-dia. Também já procurei muitas vezes ajuda para a saúde mental. Precisamos partilhar dores, alegrias, com alguém em quem confiamos. Já tive alguns desafios e rasteiras ao longo da vida, que nos moldam e nos fazem sofrer. Acredito que, falando, é sempre melhor. Como artista, sou muito melhor se estiver de alma vazia, na medida em que deitei tudo cá para fora. Passa a ser físico, é algo que consigo tocar e perceber. Estando bem física e mentalmente, consigo ser o melhor Buba de todos os tempos.
Que música pode inspirar a defesa dos consumidores?
Homenageando o nosso Jorge Palma, escolho A gente vai continuar. "Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar". Há sempre caminho por fazer e algo em que acreditar, para mover, melhorar e construir.
Sabia que...?
Buba é filho de Luís Espinho, músico da conhecida banda "Os Adiafa", responsável por sucessos como "Estrala a bomba". O irmão também é músico.
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