Menos dias de urgências encerradas significa melhor acesso?

Publicado a 20 agosto 2026
Ânia Rosado
Ânia Rosado Especialista em Saúde

A redução do número de dias de encerramento das urgências hospitalares é positiva, mas não suficiente para concluir que o acesso aos cuidados urgentes melhorou. Há que ligar a crueza das estatísticas à realidade vivida pelos cidadãos.

Ânia Rosado
Ânia Rosado Especialista em Saúde
iStock serviço de urgência
Haver menos dias de urgências encerradas significa pouco, sobretudo, quando não se sabe exatamente o que foi medido. Contabilizaram-se apenas os serviços que fecharam durante 24 horas ou também os que funcionaram por períodos? E as unidades que mantiveram apenas a atividade programada?

Segundo o diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, em 2025, registou-se uma redução de 37% nos dias de encerramento das urgências em relação a 2024. Em janeiro de 2026, verificou-se uma nova descida, desta vez, de 28% face ao mesmo mês do ano anterior, o que representa uma diminuição acumulada de cerca de 60% face a janeiro de 2024. O Plano Nacional de Preparação e Resposta Sazonal em Saúde – Módulo Inverno 2025/2026 confirma esta tendência, apontando para menos 128 dias de encerramento, sobretudo, nas urgências pediátricas. Estes indicadores são positivos, sem dúvida. Mas serão suficientes para concluir que o acesso aos serviços de urgência melhorou? Não necessariamente.

A redução do número de dias de encerramento, por si só, diz pouco, sobretudo quando não conhecemos exatamente o que está a ser medido. Estão a ser contabilizados apenas os serviços que encerraram durante 24 horas ou também aqueles que fecharam temporariamente, durante algumas horas? E as unidades que funcionaram de forma condicionada, como algumas urgências de ginecologia e obstetrícia que mantiveram apenas a atividade programada?

Sem conhecer os critérios utilizados, é difícil interpretar corretamente estes resultados. Importa ainda perceber se estamos a comparar a mesma rede de serviços ou se houve alterações na oferta entre 2024 e 2026 que possam ter influenciado os números.

Existem, contudo, outros indicadores encorajadores. O Relatório do Conselho das Finanças Públicas de 2025 refere uma redução de 7,2% dos episódios de urgência nesse ano, acompanhada por uma diminuição da proporção de casos pouco urgentes que chegam aos hospitais. No mesmo sentido, o Relatório de Acesso aos Cuidados de Saúde 2025, publicado pela Nova School of Business and Economics (Nova SBE), indica que a implementação do programa "Ligue Antes, Salve Vidas" esteve associada a uma redução das urgências evitáveis. Nas Unidades Locais de Saúde (ULS) aderentes, a proporção destes episódios foi, em média, 5,5 pontos percentuais inferior ao que seria esperado na ausência desse programa.

Ainda assim, basta acompanhar a realidade do terreno para perceber que os serviços de urgência continuam a enfrentar constrangimentos significativos. A redução global do número de dias de encerramento é um sinal positivo, mas, por si só, não permite concluir que o acesso tenha melhorado. Para os cidadãos, o que verdadeiramente importa é saber que, quando necessitam de cuidados urgentes, encontram um serviço aberto, são atendidos em tempo útil e recebem cuidados de qualidade. Infelizmente, essa continua a não ser uma realidade garantida.

Sabia que...

A redução das idas às urgências do SNS não se traduziu numa maior procura pelas urgências do setor privado. Os dados do Relatório de Acesso aos Cuidados de Saúde 2025 sugerem que os utentes recorreram mais aos cuidados de saúde primários do SNS e a consultas no setor privado.

 

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