Lares de idosos: reformas não cobrem custos
Não é fácil conseguir lugar num lar de idosos, revela um inquérito da DECO PROteste a familiares de utentes. Além de os custos superarem o valor dos rendimentos mensais, o tempo de espera médio excede cinco meses.
Marido e mulher tinham 80 e muitos anos quando decidiram, com alguma mágoa, trocar a sua casa, na Póvoa de Varzim, pelo lar da Santa Casa da Misericórdia, na mesma cidade. Ela, muito doente, esteve lá dois ou três meses, ele, perto de dois anos. Com o avançar da idade, foram ficando dependentes e sem força física e anímica para se ampararem mutuamente, conta a filha, Libânia Ferreira, do Porto.
Não podendo receber o apoio de que necessitavam no domicílio, resolveram procurar um local onde fossem cuidados. Felizmente, não tiveram grande dificuldade em encontrá-lo, por se tratar de "uma terra pequena", explica Libânia.
A transição para uma nova realidade, sempre exigente, acabou por ser suavizada pela presença assídua das filhas e pelos bons serviços do lar. E porque conseguiam suportar os custos sem grande dificuldade. A reforma do pai cobria a mensalidade do casal (cerca de 1500 euros mensais), embora, por vezes, os cuidados médicos exigissem o recurso às poupanças.
Os motivos que levaram este casal a entrar no lar coincidem com os da maioria dos familiares de 694 portugueses inquiridos, sobretudo pais, sogros, avós e tios, no estudo da DECO PROteste. Já a facilidade em pagar os custos e o tempo de espera diferem.
Consegue pagar o lar?
Ao contrário dos pais de Libânia Ferreira, os parentes dos inquiridos no estudo da DECO PROteste nem sempre têm facilidade em suportar os custos com o lar. As pensões (reforma, invalidez e outras) que recebem revelam-se insuficientes para enfrentar as despesas em 79% dos casos. Para fazer face ao remanescente, os utentes veem-se obrigados a gastar as poupanças ou a recorrer à ajuda dos mais próximos.
Entre mensalidade e custos extra, as despesas totalizam 1343 euros, ou seja, em média, mais 462 euros mensais do que os rendimentos médios dos utentes. Mas a situação não é igual em todo o País. De acordo com os dados fornecidos pelos inquiridos, o Norte e a Área Metropolitana de Lisboa são as regiões onde a permanência em lares fica mais cara. A diferença média entre o que os idosos recebem mensalmente e o que pagam é de 445 e 538 euros, respetivamente.
Quanto tempo esteve em lista de espera?
Não é difícil adivinhar que o preço limita o acesso. Se outra prova não houvesse, o estudo mostra que os indivíduos com uma situação económica mais confortável encontram menos obstáculos no caminho para a estrutura residencial. Globalmente, e ao contrário do que sucedeu com os pais de Libânia Ferreira, 44% dos inquiridos admitiram algumas ou muitas dificuldades em conseguir lugar para os seus entes queridos. Os problemas de acesso são mais vincados nas Instituições Particulares de Solidariedade Social e nas misericórdias, onde o preço é calculado em função do rendimento.
Cerca de um terço revelou que a escolha final não coincidiu com a primeira opção que tinha em mente. Foi o que se conseguiu arranjar. Nas situações com menores condicionamentos, o critério que mais pesa na decisão por um ou outro lar é a proximidade da residência ou do local de trabalho dos familiares, seguido do compromisso entre as condições oferecidas e o preço.
Entre a inscrição e o ingresso no lar, decorreram, em média, 157 dias (mais de cinco meses). Nas unidades privadas, o processo é mais célere (107 dias) do que nas misericórdias (207 dias) e nas IPSS (216 dias).
Porque foi necessário ir para o lar de idosos?
Em média, os idosos são admitidos no lar aos 84 anos, e aí permanecem por três anos e quatro meses. A maioria são mulheres, e mais de metade partilha o quarto com outra pessoa (57%), cabendo nove metros quadrados, em média, a cada uma.
Tal como o casal da Póvoa de Varzim, os parentes dos inquiridos já apresentavam limitações aquando da entrada na estrutura residencial. Eram, essencialmente, problemas de mobilidade e dificuldades em fazer a higiene pessoal, ambas as circunstâncias referidas por 79% dos que responderam. As falhas de memória ou de concentração e a dificuldade em ir à casa de banho de forma autónoma também surgiram com frequência (72% dos casos). Adicionalmente, a grande maioria sofria de, pelo menos, um problema de saúde, com destaque para situações leves de demência (52%), incapacidades físicas (50%), depressão (37%), sequelas de um acidente vascular cerebral (32%) e doença de Alzheimer (28 por cento).
Lares oferecem cuidados de saúde?
Porque existem doenças e debilidades, muitas vezes, múltiplas e graves, a maioria das instituições disponibiliza alguns cuidados de saúde, em particular de enfermagem, e consultas de clínica geral. Dois terços dos inquiridos (66%) indicaram que os primeiros funcionam todos os dias. Já as segundas estão reservadas para dias específicos da semana, segundo 74% dos inquiridos. Na grande maioria dos casos, o custo dos dois serviços está incluído na mensalidade.
Outros profissionais, como psicólogos, nutricionistas e podologistas, são menos frequentes e, muitas vezes, pagos à parte. O mesmo sucede com o cabeleireiro, a manicure e a maquilhagem.
Lares privados apresentam melhor serviço?
Dado que os privados são mais caros, o consumidor pode esperar igual diferença na quantidade e na qualidade dos serviços? Globalmente, não. A oferta é até ligeiramente inferior nalgumas áreas, como a psicologia, a nutrição e a fisioterapia.
Quanto a problemas, existem em todas as tipologias. Os "conflitos" com as instituições relacionam-se com os cuidados de higiene prestados aos utentes, com despesas inesperadas e com a comunicação da informação médica à família, entre outros. Os privados apresentam-se um pouco melhor neste aspeto: 45% dos familiares com utentes no setor reportaram problemas, contra 55% nas IPSS e 56% nas misericórdias.
Inquiridos mais ou menos satisfeitos
A satisfação global com o lar, de 72 pontos num máximo de 100, é sobretudo influenciada pelos custos fixos mensais (62 pontos), seguidos da qualidade global e competência dos funcionários (69 pontos). Esta classificação, por sua vez, relaciona-se essencialmente com a assistência diária (73 pontos) e o número de funcionários a trabalhar ao fim de semana (69 pontos).
Globalmente, os inquiridos parecem resignados ao que as instituições oferecem aos familiares. Na maioria dos critérios, não se mostram satisfeitos, nem insatisfeitos.
Ainda assim, é possível vislumbrar aspetos menos negativos. É o caso da transparência dos custos (63% de inquiridos satisfeitos), do quarto, por exemplo, ao nível do conforto e da limpeza (58% satisfeitos) e dos cuidados de enfermagem (55% satisfeitos).
O top dos aspetos que menos agradam é liderado pelo apoio psicológico – provavelmente, a falta dele – e pelo número de funcionários durante a noite.
Por tipo de lar, os privados e as IPSS, com, respetivamente, 74 e 73 pontos, apresentam uma satisfação global superior à das misericórdias, que obtiveram 65 pontos.
Os resultados do inquérito não são dos mais encorajadores, mas há situações em que é praticamente impossível fugir a este género de estruturas residenciais. Se for o caso de algum familiar, verifique os lares licenciados pela Segurança Social na Carta Social. Selecione os que lhe pareçam mais interessantes e faça visitas. Além do preço, veja as condições dos espaços comuns, dos quartos e das casas de banho. Se possível, assista às atividades, para perceber o ambiente e a forma como os utentes são tratados.
Como foi feito o estudo
O inquérito decorreu entre setembro e novembro de 2025. As respostas obtidas respeitam a utentes que estiveram em lares, também designados por estruturas residenciais para pessoas idosas (ERPI), nos cinco anos anteriores. Os dados recolhidos foram ponderados de modo a refletirem a distribuição nacional de camas disponíveis nestas estruturas por zona geográfica, e traduzem as experiências e as opiniões dos inquiridos. O mesmo estudo foi realizado na Bélgica, em Espanha e em Itália, países cujas organizações de consumidores, tal como a DECO PROteste, fazem parte da Euroconsumers.
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Este projeto é uma iniciativa conjunta da Euroconsumers. Reunindo cinco organizações nacionais de consumidores e dando voz a um total de mais de 1,5 milhões de pessoas em Portugal, Espanha, Itália, Bélgica e Brasil, a Euroconsumers é o principal grupo de consumidores do mundo em informação inovadora, serviços personalizados e defesa dos direitos dos consumidores. |
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