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Utilização de iodo e risco nuclear: esclarecemos as dúvidas

A guerra na Ucrânia tem gerado ansiedade e preocupações. O receio do conflito nuclear promoveu uma corrida ao iodeto de potássio, mas os comprimidos comercializados em Portugal não previnem as consequências da exposição à radiação. Esclarecemos todas as dúvidas.

Corrida ao iodo - risco nuclear

iStock

As farmácias portuguesas têm registado um aumento de pedidos de comprimidos de iodo por pessoas que acreditam que ao tomá-los se poderão proteger das radiações, em caso de desastre nuclear na Ucrânia. Porém, a dosagem de iodeto de potássio indicada para atenuar a exposição a radiações nucleares é de 65 miligramas e não se encontra disponível nas farmácias.

Com a avalanche de notícias sobre os conflitos na Ucrânia é importante estar bem informado e não agir impulsivamente. Ajudamos a esclarecer algumas dúvidas sobre o iodeto de potássio, sobre as situações em que deve ser consumido e sobre como gerir a ansiedade nestes tempos conturbados.

Os comprimidos de iodo comercializados em Portugal previnem a absorção de radiação?

Os medicamentos comercializados em Portugal que contêm iodeto de potássio têm como indicação a suplementação de iodo em pessoas com défice desta substância na alimentação, nomeadamente grávidas e lactantes, e estão sujeitos a receita médica. Estes medicamentos têm concentrações de 0,2 e 0,3 miligramas de iodeto de potássio.

Os suplementos alimentares disponíveis têm dosagens inferiores aos medicamentos, por norma, inferiores a 0,2 miligramas.

Em ambos os casos, as dosagens são muito inferiores às necessárias para a proteção contra as radiações resultantes de acidentes nucleares.

Qual o iodeto de potássio utilizado no caso de exposição a radiações  de acidentes nucleares?

Em caso de acidente nuclear, o iodo radioativo pode entrar no organismo por inalação ou por ingestão de alimentos contaminados. É um dos átomos mais perigosos que são libertados num acidente nuclear e concentra-se na tiroide, onde pode provocar danos celulares e cancro.

A profilaxia com iodeto de potássio, no caso de acidentes nucleares, pode reduzir significativamente a dose de radiação para a tiroide devido à exposição a iodo radioativo. Após a profilaxia com iodeto de potássio, este compete com o iodo radioativo e a sua captação pela tiroide ficará praticamente bloqueada. 

Em Portugal, existe apenas um medicamento aprovado pelo Infarmed para utilização após incidentes nucleares com libertação de iodo radioativo, cuja concentração de iodeto de potássio é de 65 miligramas por comprimido. Contudo, estes medicamentos não são comercializados e, em caso de desastre nuclear iminente, deverá competir à administração central pôr em prática a sua distribuição às populações em risco. Mas apenas podem ser tomados após o apelo explícito das autoridades.

Neste contexto, os benefícios do bloqueio da tiroide pelo iodeto de potássio excedem, de longe, os riscos para a saúde de todos os grupos etários. Ainda assim, os efeitos adversos podem incluir reações alérgicas leves (como erupções cutâneas ou desconforto gastrointestinal), hipertiroidismo, autoimunidade induzida por iodo, bócio nodular tóxico e e hipotiroidismo induzido por iodo. 

Qual o papel do iodo no organismo?

O iodo é um micronutriente responsável pela síntese das hormonas tiroideias (triiodotironina e tiroxina) e não é sintetizado no organismo, pelo que a alimentação é a sua principal fonte. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as doses diárias recomendadas são:

  • crianças até aos cinco anos — 90 microgramas;
  • crianças entre os seis e os 11 anos — 120 microgramas;
  • adolescentes adultos até idosos — 150 microgramas;
  • grávidas e lactantes — 250 microgramas.

O iodo encontra-se naturalmente presente na água do mar e, por essa razão, o pescado (peixe e marisco) e as algas são considerados importantes fontes de iodo na alimentação. O leite e os ovos, bem como os seus derivados, são também consideradas importantes fontes alimentares de iodo.

Recomendações para gerir a ansiedade face às notícias sobre a guerra

Devido às notícias sobre os conflitos na Ucrânia é natural sentir-se ansioso. Siga os nossos conselhos para lidar com esse sentimento face a estes acontecimentos.

  • Evite notícias que causem maior desconforto. A ansiedade pode aumentar quando existe uma conexão pessoal ao ler uma notícia. Se um órgão de comunicação estiver a noticiar um tópico desconfortável para si, talvez seja melhor evitar determinados canais de informação, durante  um tempo. É possível bloquear palavras e frases desconfortáveis em certas plataformas de redes sociais.
  • Limite o consumo de notícias. É saudável acompanhar as notícias e a atualidade, mas desenvolver hábitos obsessivos de consumo de informação pode ser prejudicial para a sua saúde mental.
  • Cuidado com o tempo que passa em redes sociais. Tendo em conta o enorme fluxo de informação sobre a situação da Ucrânia disponível nas variadas redes sociais é importante ter controlo próprio no que toca ao tempo que passa nas mesmas. Considere desligar o seu telemóvel ou outros aparelhos por curtos períodos de tempo de forma a controlar a ansiedade que as noticias possam causar..
  • Perceba que é normal sentir ansiedade. Vivem-se tempos conturbados e, por isso, as notícias podem provocar ansiedade. Entenda que é normal sentir-se assim e não é motivo de vergonha ou culpa.

Atenção às preocupações das crianças

Enquanto pais e cuidadores de crianças e jovens, o instinto é querer protegê-las dos detalhes mais desconfortáveis sobre a situação da Ucrânia. Para o ajudar, a Ordem dos Psicólogos elaborou uma série de recomendações que o ajudam na resposta às questões que crianças e jovens possam colocar sobre a guerra.

  • Permita à criança ou jovem expressar os seus pensamentos e sentimentos. Faça-os entender que estão disponíveis para escutar e falar sobre o assunto. Valide os seus sentimentos, seja ele qual for.
  • Antes de iniciar a conversa procure saber o que a criança ou jovem já sabe sobre os conflitos.
  • Diga a verdade, usando uma linguagem clara e adequada à idade da criança ou jovem.
  • Faça as crianças e jovens sentir que estão protegidos e seguros.
  • Sublinhe que há esperança e muitas pessoas estão a tentar ajudar as pessoas envolvidas no conflito.
  • Assista às notícias em conjunto com as crianças mais velhas e os jovens. No caso das mais novas, controle o acesso às informações que surgem na comunicação social, bem como nas redes sociais. Pergunte se têm dúvidas e deixe-as expressar os seus sentimentos.
  • Evite estereótipos sobre as comunidades envolvidas no conflito. Deve desenvolver a mensagem que em Portugal vivem pessoas dessas comunidades e não se deve estereotipar grupos de pessoas pelas sua pertença cultural, nacionalidade ou religião.
  • Utilize a conversa para encorajar a discussão de outros temas. Aproveite para falar sobre como ajudar pessoas que não conhecemos, ou como resolver situações de conflito ou bullying sem ter de se recorrer à violência (guerra).
  • Incentive comportamentos humanitários. Como, por exemplo, fazer doações de bens materiais para instituições que ajudam crianças que estão a vivenciar situações de guerra ou escrever uma carta aos decisores políticos ou ao jornal local.
  • Esteja atento à saúde mental das crianças e à sua própria saúde mental.

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