Como identificar e tratar problemas de tiroide
Mais de um milhão de portugueses sofrem de distúrbios da tiroide. Os sintomas são pouco específicos, o que pode atrasar o diagnóstico e o tratamento por serem desvalorizados. Saiba como identificar sintomas e esclarecer as principais dúvidas sobre problemas de tiroide.
Como funciona a tiroide
A tiroide é uma glândula situada na base do pescoço. Produz hormonas tiroideias — tiroxina (T4) e tri-iodotironina (T3) — que regulam o metabolismo e intervêm em quase todos os sistemas do organismo. Por exemplo, no coração e na frequência respiratória; nos músculos; na velocidade de produção de energia ou movimentos intestinais; no cérebro e no sistema nervoso. Também influenciam o aspeto da pele, do cabelo e das unhas, a libido e a regulação dos ciclos menstruais, além do crescimento e da manutenção da massa óssea.
O funcionamento da tiroide é controlado por um sistema de regulação chamado eixo hipotálamo — hipófise — tiroide. O hipotálamo produz a hormona TRH, que estimula a hipófise a libertar a TSH (hormona estimulante da tiroide). A TSH regula a produção das hormonas T4 e T3 pela tiroide.
Quando a tiroide produz hormonas em excesso ou em quantidade insuficiente, surgem alterações metabólicas que exigem tratamento. É igualmente importante estar atento a alterações físicas, como um aumento do volume da glândula (bócio) ou a presença de nódulos. Os nódulos da tiroide são muito comuns, mas na sua maioria estão relacionados com situações benignas. Já os carcinomas, nódulos malignos da tiroide, ocorrem apenas em cerca de 7% da população. O mais frequente é o carcinoma papilar.
Falta de iodo raramente é a causa
O iodo é essencial para o bom funcionamento da tiroide. Uma vez que o nosso corpo não tem capacidade para produzir este mineral, devemos obtê-lo através de alimentos como peixe, marisco, laticínios e ovos. O sal iodado também é uma boa fonte. Em geral, como as necessidades em iodo são baixas, é fácil supri-las através da dieta.
No caso das grávidas e das mulheres que amamentam, as necessidades de iodo aumentam. Por isso, nestes casos, a Direção-Geral da Saúde (DGS) recomenda suplementação de iodo sob orientação médica. A carência de iodo durante a gestação e nos primeiros anos de vida pode originar malformações no feto e atraso no crescimento e no desenvolvimento mental.
O teste do pezinho, realizado aos recém-nascidos, inclui o rastreio de hipotiroidismo congénito. Os problemas de tiroide podem ser hereditários, afetam sobretudo mulheres e aumentam com a idade.
De acordo com a Norma da DGS, são fatores de risco para doença da tiroide:
- antecedentes na história pessoal de disfunção prévia da tiroide, bócio, cirurgia ou radioterapia da cabeça e do pescoço, doença autoimune e terapêuticas que podem ter efeitos na tiroide (por exemplo, carbonato de lítio, amiodarona ou inibidores da cinase da tirosina);
- história familiar de doença da tiroide ou de doenças autoimunes;
- síndrome de Down e síndrome de Turner;
- idade superior a 60 anos;
- pós-parto (de seis semanas a seis meses).
Tipos de disfunções da tiroide
As disfunções da tiroide mais frequentes são o hipotiroidismo, o hipertiroidismo e os nódulos na tiroide.
O hipotiroidismo surge quando a tiroide não produz hormonas em quantidade suficiente, o que causa uma lentidão generalizada das funções do organismo. A tiroidite de Hashimoto, de origem autoimune, é a causa mais frequente, representando cerca de 70% dos casos.
Já o hipertiroidismo aparece quando a tiroide liberta hormonas em excesso, acelerando as funções do organismo. A causa mais comum é a doença de Graves, de origem autoimune.
Por vezes são detetados nódulos na tiroide, quer ao toque ou através de palpação, quer em exames de imagem. São muito frequentes, em particular nos idosos, em mulheres e em regiões com falta de iodo.
Na tabela seguinte encontra os possíveis sintomas das principais disfunções da tiroide.
| DISFUNÇÕES DA TIROIDE |
Manifestações |
|---|---|
|
Hipotiroidismo |
|
|
Hipertiroidismo |
|
|
Nódulos na tiroide |
Por norma, os nódulos não causam sintomas. Contudo, se forem grandes, podem manifestar-se com inchaço no pescoço abaixo da “maçã-de-adão” e comprimir as estruturas próximas da tiroide. Também podem dar origem a rouquidão, dificuldades em engolir ou em respirar. |
Na próxima tabela encontra algumas pistas para detetar as principais disfunções da tiroide e as respetivas possibilidades de tratamento.
| DISFUNÇÕES DA TIROIDE |
Como detetar | Tratamento |
|---|---|---|
|
Hipotiroidismo |
Geralmente, é por doseamento das hormonas tiroideias e da hormona TSH, que regula a produção das primeiras. Níveis elevados de TSH revelam problemas de hipotiroidismo primário, o mais comum. Podem ser avaliados anticorpos específicos da tiroide quando se suspeita de causa autoimune. |
Por norma, implica a toma diária de um medicamento, a levotiroxina, em comprimidos, numa dose adaptada às necessidades individuais do doente. O tratamento deve iniciar-se com uma dose baixa e aumentar gradualmente a cada 2 a 4 semanas até se atingir a dose total de substituição. Geralmente, é um tratamento para toda a vida, com controlo regular através de análises. |
|
Hipertiroidismo |
É necessário fazer análises ao sangue para determinar os valores das hormonas tiroideias, habitualmente elevados, e da TSH, que se encontra diminuída. Para o diagnóstico da doença de Graves é também analisada a presença de um anticorpo específico contra o recetor da hormona tiroideia (TRabs). |
Há vários tratamentos possíveis, normalmente com medicamentos (como tiamazol ou propiltiouracilo), decididos pelo médico em função do perfil do doente e da gravidade da doença. Podem ser necessários fármacos para reduzir sintomas como tremores e palpitações. Em alguns casos pode ser necessário recorrer a iodo radioativo ou a cirurgia. |
|
Nódulos na tiroide |
Ecografia da tiroide e doseamento, com análises ao sangue, da hormona TSH. Eventuais exames adicionais, como uma cintigrafia ou uma citologia aspirativa com agulha fina (CAAF) da tiroide, para avaliar o risco de malignidade dos nódulos tiroideus. O principal objetivo é o diagnóstico do cancro da tiroide, além do diagnóstico de eventual disfunção tiroideia associada. |
Nos casos benignos, reavaliação médica inicial nos 6 a 18 meses seguintes, com ecografias e análises. Seguimento posterior, de acordo com a evolução da doença. Possível extração se os nódulos forem grandes. Em caso de cancro da tiroide, avançar para tratamento de acordo com a indicação médica. A cirurgia aplica-se em caso de carcinoma, com remoção parcial ou total da tiroide e medicação para repor as hormonas tiroideias. Pode ser necessário recorrer a iodo radioativo, a radioterapia localizada e/ou a quimioterapia. |
Cancro da tiroide
Apesar de os nódulos da tiroide serem comuns, o cancro da tiroide apenas ocorre em 5% a 15% dos nódulos. E varia em função da idade, do sexo, da exposição a radiações e da história familiar, entre outros fatores.
Nas últimas décadas, tem-se verificado um aumento da incidência do cancro da tiroide em vários países, incluindo Portugal. Este aumento nas estatísticas deve-se, sobretudo, aos carcinomas de mais baixo risco. De salientar que a grande maioria dos doentes com cancro da tiroide tem um bom prognóstico.
Há, porém, algumas situações em que se considera existir risco aumentado de malignidade do cancro da tiroide:
- ter idade inferior a 14 anos;
- exposição prévia a radiação da região do pescoço durante a infância ou a adolescência;
- história familiar de cancro da tiroide;
- história pessoal de cirurgia prévia por cancro da tiroide;
- nódulo duro, fixo ou aderente à palpação;
- crescimento rápido do nódulo;
- sintomas causados pela compressão das estruturas do pescoço (como as cordas vocais), incluindo rouquidão ou dificuldade em falar;
- gânglios linfáticos aumentados no pescoço;
- valores elevados no sangue da hormona e calcitonina (produzida pela tiroide).
Como gerir problemas de tiroide
Os problemas de tiroide são relativamente frequentes e os tratamentos bem conhecidos e tolerados pela maioria dos pacientes.
No diagnóstico, recorre-se a análises ao sangue, para verificar os níveis da hormona TSH e das hormonas tiroideias. Quando se suspeita de causa autoimune, também se pode avaliar a presença de anticorpos específicos.
No seguimento de uma situação clínica já diagnosticada de hipo ou hipertiroidismo, para controlo da medicação, pode medir-se também a hormona TSH e/ou a hormona tiroideia T4 livre no sangue. Uma vez encontrada a dose certa, os sintomas tendem a desaparecer, e o paciente volta a ter uma vida normal e equilibrada. Deve, no entanto, continuar a fazer análises semestral ou anualmente. Pode ser necessário adaptar a medicação.
Iodo radioativo e cirurgia
Nalguns casos de hipertiroidismo causados pela doença de Graves, pode ser necessário recorrer a tratamentos com iodo radioativo, por via oral (cápsulas), normalmente, administrados no hospital. Se as doses forem baixas, o paciente pode voltar para casa, mas terá de ter alguns cuidados para limitar a exposição de outras pessoas à radiação. Recomenda-se que evite o contacto, em particular, com grávidas e crianças até dez anos. Nos seis a doze meses seguintes, as mulheres não devem engravidar. Nos homens, o tratamento pode reduzir a fertilidade durante dois anos.
Quando aplicada a doentes com cancro da tiroide, a dose é mais elevada e requer internamento hospitalar e isolamento durante dois ou três dias. Este tratamento pode causar alguns efeitos secundários passageiros, como ardor no pescoço, enjoos e, muito raramente, vómitos.
A cirurgia para extrair parte ou a totalidade da tiroide é a solução mais radical. No seguimento, os doentes terão de tomar medicamentos para repor as hormonas.
Atenção aos sinais faz a diferença
Apesar de não haver medidas específicas para prevenir problemas de tiroide, a alimentação variada e equilibrada e o exercício físico são fundamentais. Em paralelo, convém estar atento aos sinais que o corpo lhe envia. Por mais que leve uma vida cansativa ou que associe certos males à idade, lembre-se de que as queixas também poderão dever-se a uma disfunção da tiroide. Um nódulo ou um aumento do volume da tiroide na base do pescoço são motivo de avaliação médica, mesmo que não causem sintomas.
Voltar ao topoPerguntas frequentes
A tiroide pode causar ansiedade ou depressão?
Sim. Disfunções da tiroide podem estar associadas a sintomas de ansiedade e depressão.
Os problemas de tiroide engordam sempre?
Não. Depende do tipo de disfunção da tiroide. O hipotiroidismo tende a levar a um aumento de peso, e o hipertiroidismo pode causar perda de peso.
Os suplementos de iodo são seguros?
Nem sempre. Antes de qualquer toma, consulte o seu médico ou farmacêutico.
|
O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROTeste, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições. |
