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Testes serológicos de covid-19 ainda não estão validados

O mercado foi inundado com testes para detetar anticorpos do novo coronavírus no sangue. Contudo, nenhum foi reconhecido pela comunidade científica e os resultados não permitem passar “certificados de imunidade”.

  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Fátima Ramos
25 maio 2020
  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Fátima Ramos
Profissional de saúde guarda um tubo com uma amostra de sangue

iStock

Se pensa que, ao fazer um teste serológico, fica saber se está protegido contra o SARS-CoV-2, vírus que origina a covid-19, desengane-se. Além de não haver ainda certezas quanto à fiabilidade destes testes, desconhece-se o grau de proteção conferido pelos anticorpos, as proteínas que o sistema imunitário produz para se defender.

Testes serológicos em avaliação

Nos últimos meses, surgiram inúmeros testes de pesquisa de anticorpos anti-SARS-CoV-2 no sangue. Contudo, nenhum está validado do ponto de vista científico, pelo que, para já, a sua utilização tem pouca utilidade, tanto ao nível clínico, como da saúde pública. O desempenho destes testes, incluindo a probabilidade de darem resultados errados - falsos negativos e falsos positivos - ainda não está bem determinado, pelo que será difícil retirar conclusões fiáveis, para ajudar, por exemplo, na projeção de medidas de proteção da saúde da população. 

Várias entidades, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a Comissão Europeia e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), estão a trabalhar para a validação destes testes, esperando-se que, em breve, possam ser publicados dados que permitam identificar os que são seguros e fiáveis e definir as respetivas condições de utilização.  

A marca CE, símbolo de conformidade com a legislação europeia, que muitos testes ostentam, não garante a qualidade e a fiabilidade dos mesmos. A informação sobre o seu desempenho clínico também é limitada, sendo necessário verificar, durante a utilização de rotina, se os resultados são exatos. Há ainda a considerar o alerta do Infarmed sobre a venda, na Europa, de testes falsificados que ostentam a marca CE. Esta entidade, que supervisiona os medicamentos e os produtos de saúde no nosso país, desaconselha a compra de testes relacionados com a covid-19 pelo consumidor, na internet ou por qualquer outra via. 

Depois de validados cientificamente, os testes serológicos podem vir a ser úteis, em conjunto com os testes de deteção do vírus por RT-PCR (metodologia que permite identificar a sequência genética do vírus, por exemplo, em secreções respiratórias), para estimar a prevalência de infeções, inclusive, em pessoas que não apresentam sintomas, e estudar o eventual desenvolvimento de defesas.  

Ter anticorpos não significa estar protegido

Não há ainda evidência científica robusta a indicar que presença de anticorpos anti-SARS-CoV-2 confere imunidade em caso de reinfeção por este vírus. Para avaliar esta relação, é necessário acompanhar os pacientes ao longo do tempo. Ainda há pouca evidência sobre o comportamento do vírus e a forma como o organismo humano responde na sua presença.

Em geral, após o ataque de um qualquer agente patogénico desconhecido, como um vírus ou uma bactéria, o organismo responde de imediato, podendo demorar entre três e dez dias a criar defesas específicas contra o invasor. De forma muito simplificada, tal consiste na produção de anticorpos para combatê-lo e de células capazes de o identificar em futuros ataques. O trabalho conjunto destas estruturas pode eliminar o potencial causador de doença ou limitar a sua ação, travando a doença e/ou impedindo novas infeções. Por regra, a “existência” deste sistema de defesa específico é aferido através de testes serológicos, que detetam a presença de anticorpos no sangue e os quantificam.

No caso do SARS-CoV-2, a reação do sistema imunitário ainda não é bem conhecida. A maioria dos estudos mostra que os recuperados de covid-19 desenvolveram anticorpos, mas, dado que os métodos de determinação não estão validados, não se sabe se os resultados são fidedignos, tanto no caso dos que deram positivo, como no dos que deram negativo. De qualquer forma, também não é certo que a presença de anticorpos, em maior ou menor quantidade, confira proteção, nem se sabe quanto tempo estes permanecem no organismo. Assim, não se pode afirmar que quem teve covid-19 está livre de voltar a ter, a curto, médio ou longo prazo.

Nestas condições, a utilidade prática de um teste serológico, mesmo que fiável, é nula, pelo menos, no que respeita à determinação da imunidade contra este vírus: um teste positivo, que indica a presença anticorpos, não certifica “ausência de risco”, nem justifica que se descurem as medidas de proteção definidas pelas autoridades de saúde. Também apresentam pouca utilidade no diagnóstico precoce da infeção, porque os anticorpos podem ser detetáveis apenas 10 dias (ou mais) após os primeiros sintomas e permanecer no organismo depois de debelada a doença.  

Passaporte de imunidade sem razão de ser

Alguns países propuseram a criação de “passaportes de imunidade” com base nos resultados dos teste serológicos, que autorizariam os seus portadores a viajar e ir trabalhar sem restrições. A Organização Mundial da Saúde apressou-se a rejeitar a proposta, pelas dúvidas técnicas que os ditos resultados levantam: a utilização de um instrumento deste género com estas base poderia aumentar o risco de propagação do vírus. Além disso, alguns autores chamam a atenção para as questões éticas associadas à definição artificial de quem pode ou não participar em atividades sociais e económicas.

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