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Mochilas escolares com peso a mais

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Governo lançou campanha e sensibilização para reduzir o peso das mochilas escolares, mas continua sem adotar medidas concretas.

25 julho 2019
mochilas

Thinkstock

Em fevereiro de 2017, 48 mil portugueses assinaram a petição pública “Contra o peso excessivo das mochilas escolares em Portugal”. Com o tema na ordem do dia, enviámos à Comissão Parlamentar de Educação e Saúde e a todos os grupos parlamentares o nosso estudo de setembro de 2017. Na altura, pesámos 174 crianças e as respetivas mochilas e chegámos à conclusão de que 66% dos miúdos da amostra transportava às costas mais peso do que o recomendável. Ou seja, mochilas com cargas superiores a 10% do peso das crianças, um limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela maioria dos especialistas. 

Em outubro de 2017, logo após a publicação do artigo com o nosso estudo, os grupos parlamentares aprovaram, por unanimidade, um projeto de resolução nº 1088/XIII, que recomenda ao Governo a adoção de medidas para diminuir o peso das mochilas escolares. Estas intenções continuam no papel. As únicas medidas conhecidas e implementadas continuam a promover o uso dos manuais escolares em papel. Falamos, por exemplo, do voucher para os livros gratuitos no primeiro e segundo ciclos do ensino básico.

O Ministério da Educação lançou a campanha “Mochila leve” para pais, alunos, professores e diretores escolares, mas limita-se a aconselhar mudanças de hábitos, desde a partilha dos manuais de forma rotativa entre alunos ao incentivo do uso dos cacifos. O Ministério da Educação não deveria ficar por aqui. Defendemos também um estudo regular, realizado de forma aleatória e por uma entidade independente, com uma amostra representativa dos anos de ensino e das escolas, sobre o peso transportado nas mochilas.

Continuamos a defender o que escrevemos a todos os partidos com assento parlamentar: a diminuição do peso das mochilas exige o envolvimento do ministério, dos agrupamentos das escolas, dos professores, dos alunos e dos pais.

Duas paletes de leite às costas

Uma criança que pese 32,8 quilos e dentro da mochila transporte 11 quilos de material escolar leva às costas cerca de 34% do seu peso corporal. O máximo que a mochila deveria pesar seria pouco mais de três quilos. Imagine-se o sacrifício desta criança que leva para a escola, diariamente ou quase, um peso apenas ligeiramente inferior a duas paletes de leite (12 pacotes de um litro). Este foi o caso mais extremo com que nos deparámos no estudo que conduzimos em seis escolas, públicas e privadas, da grande Lisboa, entre março e maio de 2017.

A relação entre o peso da mochila e o peso corporal das 174 crianças avaliadas no estudo varia entre 4% e 34 por cento. Usar, repetidamente, uma mochila demasiado pesada numa idade precoce pode levar a alterações de postura e contribuir para o aparecimento de dores, particularmente ao nível dos ombros, do pescoço e da região lombar. A faixa etária do nosso estudo - dos 10 aos 13 anos - é muito “castigada” pelo peso das mochilas. Nestas idades, a formação óssea ainda não está completa e qualquer excesso pode prejudicá-la.

Já em 2003, tínhamos feito este estudo: pesámos 360 alunos e concluímos que mais de metade (53%) carregavam peso a mais. Entre 2003 e 2017, o total de alunos dos nossos estudos que leva às costas mais de 20% do seu peso corporal aumentou de forma significativa, de 4,5% para 16 por cento.