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Criança hiperativa: quando procurar ajuda?

Estima-se que a hiperatividade e/ou o défice de atenção afetem 3% a 5% das crianças e jovens. Não ignore os sinais de alarme e procure ajuda, para evitar insucesso escolar, isolamento social e/ou agressividade. Veja como é feito o diagnóstico e como gerir o quotidiano.

26 julho 2022
criança pronta a disparar com foguetão às costas

iSock

Quantos pais e professores não se queixarão do comportamento turbulento de algumas crianças? Não conseguem estar quietas e estão sempre a falar, são distraídas, demonstram problemas de concentração e dificuldade em levar as tarefas até ao fim. Além disso, teimam em não seguir ordens, têm uma energia insaciável, saltitam de atividade em atividade e são impulsivas e incapazes de parar para pensar. Saiba que, nalguns casos, este tipo de comportamento dissimula um distúrbio denominado perturbação da hiperatividade e défice de atenção (PHDA).

Perante suspeitas, importa diagnosticar o quanto antes, para a criança receber o devido acompanhamento e evitar consequências como insucesso escolar, isolamento social e comportamentos agressivos ou antissociais. Citando Linda Serrão, presidente da Associação Portuguesa da Criança Hiperativa, que entrevistámos (veja abaixo): “O primeiro passo é aceitar que existe um problema e procurar ajuda. Muitos pais ficam em negação e consideram que a criança só tem muita energia.”

O que é e qual a causa da hiperatividade?

Trata-se de uma perturbação do neurodesenvolvimento, que se caracteriza por manifestações comportamentais que afetam o normal funcionamento e o desenvolvimento da criança, do adolescente ou do adulto, em diferentes contextos da vida. A maioria dos diagnósticos ocorre entre os 6 e os 12 anos, embora possa já manifestar-se em idade pré-escolar. Estima-se que afete 3% a 5% das crianças, ou até 7%, segundo alguns estudos, sendo três vezes mais frequente entre o sexo masculino.

Com o crescimento, os comportamentos desajustados tendem a desaparecer, e o indivíduo aprende a controlar-se, se tiver sido devidamente acompanhado desde a infância. Embora possa acontecer, o diagnóstico é mais raro em adultos. Contudo, na maioria dos casos, as características deste distúrbio já se manifestavam durante a infância, não tendo, na altura, sido identificado.

A causa exata da PHDA permanece incerta, embora se saiba que pode dever-se a uma conjunção de fatores genéticos e neurológicos, mas também ambientais, como parto prematuro, tabagismo materno e baixo peso à nascença. A deficiência perinatal em vitamina D e a exposição ao metilmercúrio, um metal pesado, são outros fatores de risco já documentados.

As grávidas e as crianças devem evitar o consumo de peixes de grande porte, como cação, espadarte ou cherne, por evidenciarem, geralmente, concentrações mais elevadas de mercúrio.

Existem, igualmente, suspeitas quanto aos possíveis efeitos nocivos de alguns adoçantes e corantes alimentares ao nível do neurodesenvolvimento da criança. Qualquer produto que os contenha deve incluir, na embalagem, o aviso de que “pode causar efeitos negativos na atividade e atenção das crianças”. É preferível evitar alimentos muito processados e coloridos, como produtos de confeitaria, molhos, refrigerantes e aperitivos.

Diagnóstico em várias frentes

Perante uma criança com um comportamento particularmente problemático e com dificuldades de aprendizagem, comece por falar com o pediatra ou com o médico de família, para despistar eventuais doenças ou outras situações que possam perturbar o seu desenvolvimento e bem-estar. Muitas crianças são naturalmente irrequietas e/ou distraídas, sem que isso seja um problema.

Há ainda que ter em conta fatores suscetíveis de espoletar comportamentos que se podem confundir com PHDA. Divórcio ou morte na família, ansiedade ou depressão, autismo ou outras dificuldades de aprendizagem, como dislexia, são fatores que podem desestabilizar a criança.

Disfunções da tiroide, algumas doenças (varicela ou mononucleose, por exemplo) e dores não controladas, por vezes, também têm esse efeito. O mesmo pode ocorrer em indivíduos com doença bipolar, transtorno de personalidade ou perturbação obsessivo-compulsiva (POC).

Importa, por isso, excluir outras possíveis causas, para chegar a um bom diagnóstico. Se houver suspeitas de PHDA, o profissional de saúde pode encaminhar a criança para um especialista, do ramo da medicina do desenvolvimento, da neuropediatria ou da pedopsiquiatria, por exemplo.

O diagnóstico não é simples, pois não existe um exame específico que permita detetar a PHDA. Além do historial familiar e do despiste das possíveis causas físicas ou psicológicas já referidas, é necessário verificar se o problema se mantém ao longo do tempo ou se é apenas pontual. Implica reunir informações junto da família e da escola. Uma vez o diagnóstico traçado, é importante que a criança seja devidamente acompanhada.

Apoios na escola e acompanhamento clínico

As boas práticas clínicas recomendam iniciar o tratamento com uma abordagem psicológica e educativa, tanto com as crianças, quanto com os pais e educadores, em diferentes ambientes (em casa, na escola ou noutros locais que a criança frequente). 

Abordagem educativa

O decreto-lei 54/2018, de 6 de julho, que regulamenta a educação inclusiva, prevê apoios específicos para crianças com dificuldades de aprendizagem, em que se inclui a PHDA. O ensino deve responder à diversidade de necessidades e potencialidades de cada aluno. Os pais podem procurar soluções em conjunto com os professores e com a escola, para ajudar a criança a ultrapassar as dificuldades. Veja, a seguir, alguns conselhos da Associação Portuguesa da Criança Hiperativa para estudantes, pais e educadores. 

Conselhos para quem lida com uma criança hiperativa

  • Negoceie com os professores estratégias que ajudem ao êxito. Por exemplo, é importante que a criança fique à frente na sala de aula e longe da porta ou de janelas, para minimizar distrações.
  • Pergunte se é possível estender o tempo do teste ou usar tampões nos ouvidos durante as provas.
  • Incentive o jovem a registar na agenda trabalhos e datas importantes. Veja todas as manhãs a agenda e estabeleça objetivos realistas. Por exemplo, é preferível dividir grandes projetos em pequenos passos.
  • Sublinhar as instruções dos exercícios foca a atenção no que é pedido.
  • Fazer desporto regularmente contribui para descarregar o excesso de energia.
  • Pais e educadores devem transmitir as instruções de forma clara, mantendo o contacto visual com a criança. Deve dar-se uma instrução de cada vez, em vez de várias em simultâneo.
  • Se a criança estiver irrequieta, deve fazer uma pausa. O professor pode, por exemplo, mandar a criança distribuir fotocópias ou fazer um recado fora da aula, por exemplo.
  • As regras e os castigos devem estar bem estabelecidos. Felicite a criança sempre que agir corretamente, para reforçar a autoestima.

Para mais informações, visite o site da Associação Portuguesa da Criança Hiperativa.

Psicoterapia e medicação para hiperatividade dão bons resultados

O tratamento de quem sofre de PHDA deve incluir uma intervenção e aconselhamento nos planos educacional, psicológico e comportamental, com supervisão de um especialista em perturbações do comportamento na infância. Uma abordagem psicológica é sempre recomendada como primeiro passo, sobretudo em crianças até aos cinco anos. A terapia cognitivo-comportamental é a psicoterapia mais eficaz e está indicada nestes casos.

Quando os sintomas são moderados ou severos e não melhoram com a abordagem psicológica, o médico poderá prescrever medicação específica para a PHDA, comparticipada pelo Serviço Nacional de Saúde. O metilfenidato (existem genéricos e várias marcas, sendo a Ritalina a mais conhecida) é o tratamento de primeira escolha. Mas existem outros estimulantes, como o dimesilato de lisdexanfetamina – um estimulante do sistema nervoso – ou a atomoxetina, um medicamento que visa ajudar a atividade cerebral e melhorar a atenção, a concentração e a impulsividade.

Apesar de não existir cura para a PHDA, a medicação dá, geralmente, bons resultados. Estudos revelam que melhora as relações familiares, a atenção na sala de aula e o desempenho escolar ou profissional. Contudo, requer vigilância. Nas crianças, deve monitorizar-se o peso e a pressão arterial de três em três meses e estar atento a alterações de comportamento. Volte ao médico caso a criança esteja a perder peso ou não esteja a ganhar o peso normal, ou apresente um aumento da pressão arterial (de 15 a 20 mmHg ou mais). Reporte igualmente situações como agitação, ansiedade e insónias. Se não melhorar ao fim de seis semanas, a medicação poderá ser ajustada.

No geral, chega uma altura em que o jovem ou o médico decidem avaliar a possibilidade de parar a medicação. Nunca se deve interromper o tratamento por iniciativa própria, sem supervisão médica. A interrupção deve ser gradual, monitorizando de perto um eventual agravamento dos sintomas.

Com o crescimento, o indivíduo aprende a controlar a impulsividade, podendo ter uma vida familiar, social e profissional normal. O mais importante é ter consciência do problema e aprender a travar os impulsos. Segundo Linda Serrão, "é necessário aceitar a diferença e saber lidar com ela, sendo este conselho válido para o próprio e para todos os que o rodeiam".

Linda Serrão: "Com filhos hiperativos, senti que havia falta de informação e de apoios" 

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Linda Serrão, presidente da Associação Portuguesa da Criança Hiperactiva (fotografia: 4See/Luís Sousa)

Como surgiu a ideia de criar a Associação Portuguesa da Criança Hiperativa? 

Por experiência própria com esta patologia. Quando o meu primeiro filho chegou à primária, recebia muitas queixas da escola. Em casa, também era muito mexido. Saltava e trepava para cima dos móveis, da bancada da cozinha, tinha uma energia inesgotável e era um perigo. Mas eu achava que era normal. Os pais tendem a negar que existe um problema.

Três anos mais tarde, nasceu o meu segundo filho, e era uma repetição do primeiro, mas em pior. Como se costuma dizer: "Tinha o diabo no corpo." Precisei de ajuda. O pediatra encaminhou-nos para um médico do desenvolvimento, no Hospital de Santa Maria. Após várias avaliações – dos pais, do historial da criança em casa e na escola, através de um relatório pormenorizado do estabelecimento de ensino, e da criança –, fui informada de que o meu segundo filho tinha um problema de desenvolvimento: PHDA. Só mais tarde percebemos que o irmão mais velho sofria do mesmo, quando, no sétimo ano, começou a ter só notas negativas, apesar de ser bom aluno e inteligente.

Quando apresentei o diagnóstico na escola, havia um grande desconhecimento sobre a patologia. O médico do desenvolvimento, de Santa Maria, incentivou-me, por isso, a criar a Associação Portuguesa da Criança Hiperativa. Foi então que, no ano 2000, nasceu este projeto. Como costumo dizer, ele é o pai e eu a mãe deste projeto. Na altura, ainda não se falava de PHDA, havia pouca literatura sobre o assunto, e não era raro as escolas tentarem expulsar crianças com esta patologia, por serem turbulentas, desestabilizadoras e, por vezes, agressivas. Rapidamente percebemos a importância da associação: eram tantas as famílias à procura de apoio, por não conseguirem gerir os seus filhos com uma energia insaciável e dificuldades para ouvir, desempenhar as tarefas do dia-a-dia e seguir instruções e manter-se concentrados.

As primeiras reuniões de informação que organizámos nas escolas transformavam-se, com frequência, em guerras entre pais e professores, com rancores e trocas de acusações. Na altura, não havia conhecimento sobre esta patologia e as características destas crianças. Hoje, a situação já é reconhecida e há legislação que prevê apoios na escola.   

Qual o objetivo da associação?

Pretendíamos sensibilizar a sociedade e as escolas, e orientar as famílias e as próprias crianças hiperativas. Para um bom acompanhamento, tem de haver um triângulo: família, médico e educadores devem estar bem informados sobre esta patologia e saber como lidar com estas crianças, muito impulsivas, distraídas, irrequietas, e com dificuldades de concentração. São, por vezes, consideradas rebeldes e malcriadas. Na escola, em casa e nas várias atividades, os problemas multiplicam-se, e estas crianças demonstram, muitas vezes, insucesso escolar, além de serem marginalizadas.

Organizámos ações de formação, para informar e alertar para a existência do problema, e ouvir as dúvidas de pais e professores, através de reuniões em escolas e espaços cedidos pelas juntas de freguesia. Hoje, a PHDA já é reconhecida e já existem muitos profissionais que trabalham nesta área. Nalguns casos, a medicação é necessária, para travar a impulsividade e ajudar a parar para pensar. Quando o problema é diagnosticado, é importante informar o professor e negociar estratégias que ajudem a criança a manter-se concentrada. Muitos estabelecimentos de ensino e educadores estão já sensibilizados e preparados para lidar com crianças com este distúrbio. Mas, infelizmente, esta realidade não é generalizada.

A associação visa esclarecer os pais e apoiar pessoas hiperativas de todas as idades. Em caso de necessidade, pode contactar a associação pelo número 922 262 817 ou obter conselhos e informações para gerir o quotidiano dos seus filhos através do site da associação. Não dispomos de meios financeiros para ter um espaço próprio e dar acompanhamento clínico e multidisciplinar. Contudo, trabalhamos com psicólogos especializados e encaminhamos os casos suspeitos para uma rede de especialistas em hiperatividade a nível nacional. Por vezes, crianças com dificuldades de aprendizagem são mal diagnosticadas, pelo que a avaliação deve ser multidisciplinar, e não assentar no diagnóstico de um só clínico. Perante suspeitas, é mesmo importante procurar apoio junto de especialistas e não negar o problema. A criança precisa de ajuda para travar a sua impulsividade, para parar para pensar.  

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