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Excesso de mercúrio nalgumas espécies de peixe

Detetámos níveis excessivos deste metal pesado nalgumas espécies de peixe, como o cação e o espadarte, pelo que só devem ser consumidas excecionalmente. A maioria dos produtos de pesca e aquicultura são seguros, e recomendam-se.

  • Dossiê técnico
  • Nuno Lima Dias e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Nuno César
26 março 2021
  • Dossiê técnico
  • Nuno Lima Dias e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Nuno César
ilustração com vários tipos de peixes à volta de um prato vazio e talheres

iStock

Num estudo internacional que envolveu Portugal, Bélgica, Espanha e Itália, descobrimos níveis de mercúrio especialmente elevados em cinco espécies de peixe no nosso país. Foi no cação e no espadarte que detetámos níveis mais elevados de mercúrio, o que não é de estranhar, já que são espécies que se encontram no topo da cadeia alimentar, onde é habitual haver maiores concentrações deste metal pesado. Devem, por isso, ser consumidos ocasionalmente. Pelo contrário, os mais pequenos, como a sardinha e o carapau, acusam níveis baixos e podem ser ingeridos diariamente sem riscos para a saúde.

Os resultados de todos os países mostram que o mesmo é válido para o marisco e os cefalópodes (lulas e polvo, por exemplo). Os nossos testes revelam que o peixe de aquicultura também apresenta níveis muito baixos de mercúrio, devido, em parte, ao controlo das rações.

Peixes mais contaminados: limite o seu consumo

Se um indivíduo de 70 quilos consumir cação de dois em dois meses ou espadarte uma vez por mês não poderá comer mais peixe. De contrário, arrisca-se a ultrapassar a ingestão semanal tolerável de metilmercúrio (MeHg) - a forma mais tóxica deste metal pesado -, estabelecida pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos e que corresponde a 1,3 microgramas de MeHg por quilo de peso corporal. Considerámos que cerca de 90% do mercúrio total está nessa forma e que uma dose tem cerca de 156 gramas, que traduz o consumo médio diário per capita. Nas contas, usámos as amostras que revelaram níveis mais elevados de mercúrio nos testes em laboratório.

Não ultrapasse seis doses de cação por ano

Riscos do mercúrio para a saúde

O mercúrio (Hg) é tóxico para o ser humano. É libertado para a atmosfera por fontes naturais (vulcões, incêndios e emissões oceânicas, por exemplo) ou por atividades humanas, através da indústria, da incineração de resíduos ou de processos de combustão, entre outros. As chuvas ajudam a levar o mercúrio para o meio aquático, onde, devido à ação de bactérias, se transforma em metilmercúrio (MeHg), a sua forma mais tóxica, acabando por se acumular nos organismos aquáticos. O pescado que consumimos é a nossa principal fonte de exposição. 

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(ilustração de Paulo Buchinho)

Os portugueses são os maiores consumidores de pescado da União Europeia e os terceiros ao nível mundial, apenas destronados pelos japoneses e os islandeses, pelo que a nossa exposição ao mercúrio é uma questão que nos preocupa particularmente.

Este metal pesado é nocivo para o sistema nervoso, sendo o cérebro o órgão mais afetado. Uma exposição a níveis elevados pode causar perda de memória, de visão e de audição, mas também problemas nos rins e, no caso das grávidas, no desenvolvimento do feto. Os efeitos nocivos que podem ser transmitidos pela mãe incluem danos cerebrais, deficiência intelectual e problemas de coordenação motora, de visão e na fala.

Resultados do teste a 100 amostras de peixe

Adquirimos amostras de pescado e produtos da pesca em diferentes estabelecimentos, a granel ou embalados, nos países que participaram no estudo: Portugal, Bélgica, Espanha e Itália. Genericamente, foram analisadas 100 amostras por país: cinco amostras de 20 espécies, tendo cada país optado pelas que traduzem melhor os seus hábitos de consumo, entre outros fatores.

Em Portugal, escolhemos peixes frequentes na nossa dieta, mas também alguns que se sabe conterem maiores concentrações de mercúrio. Contemplámos ainda alguns produtos de aquicultura. Descobrimos 18 produtos fora da lei. Denunciámos os resultados do nosso estudo à Direção-Geral de Alimentação e Veterinária e à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), organismos a quem compete garantir que os produtos que consumimos respeitam as regras impostas pela lei.

Os resultados encontram-se no quadro em baixo, ordenados segundo os níveis medidos, com os menos contaminados no topo.

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O segredo é variar espécies

Se consome peixe regularmente, não se preocupe nem se prive. E, se não tem este hábito, deveria tê-lo. O facto de termos encontrado níveis elevados de mercúrio nalgumas espécies não retira ao pescado os inúmeros atributos benéficos para a saúde. Convém apenas limitar a ingestão das espécies mais contaminadas. O cação e o espadarte devem mesmo ser evitados por grávidas ou mulheres que pretendam engravidar ou estejam a amamentar.

  • De fácil digestão, o pescado inclui proteínas de alto valor biológico. Não é dos alimentos mais ricos em vitaminas, embora algumas do complexo B sejam comparáveis com as de outros produtos proteicos.
  • As espécies gordas, como o salmão, a cavala ou a sardinha, apresentam também quantidades apreciáveis de vitamina D, indispensável para a utilização do cálcio e a formação dos ossos e dos dentes, além de ácidos gordos essenciais do tipo ómega 3, os quais, segundo investigações científicas, podem contribuir para prevenir doenças cardiovasculares.
  • Quanto aos minerais, a generalidade do pescado fornece quantidades consideráveis de fósforo, potássio, iodo e selénio, os dois últimos em quantidades abundantes, quando comparados com outros alimentos. O iodo é essencial para o bom funcionamento da tiroide e o selénio tem uma ação antioxidante.
  • Para aproveitar estes benefícios sem se expor aos riscos do mercúrio, varie as espécies, dando preferência às mais pequenas. Os resultados dos nossos vizinhos espanhóis revelam que o marisco e os cefalópodes (como a lula e o polvo) têm níveis muito baixos de mercúrio, assim como o peixe em conserva (atum, bonito ou sardinha).
  • O peixe de aquicultura é também uma boa opção para consumo diário: contém pouco mercúrio, mais ómega 3 (por ser, geralmente, mais gordo) e é mais barato do que o peixe capturado.

 

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