Carros elétricos vendem mais, mas apoios e carregamento continuam a ser um problema
Há oito mil novos consumidores na mobilidade elétrica por mês, mas também circulam em Portugal mais de um milhão de carros com mais de 20 anos. Pedro Faria, Diogo Teixeira e Elsa Agante analisam o fenómeno no episódio mais recente do POD Pensar.
A mobilidade elétrica entrou de vez na fase de massificação em Portugal. Os números mais recentes das vendas de carros elétricos confirmam um marco histórico. O caminho está traçado. Mesmo com sinais contraditórios da Comissão Europeia, o risco de retrocesso é nulo. O que pode variar é a velocidade da transição.
Portugal destaca-se no contexto europeu, com uma das mais elevadas quotas de vendas e uma forte adesão das empresas, impulsionada por incentivos. Contudo, os consumidores continuam a enfrentar obstáculos práticos e financeiros.
Com a moderação de Aurélio Gomes, o episódio do POD Pensar juntou Pedro Faria, presidente do Conselho Diretivo da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE), Diogo Teixeira, co-fundador e publisher da Razão Automóvel, publicação especializada, e Elsa Agante, responsável da área de Energia e Sustentabilidade da DECO PROteste.
Carregar na rede pública continua a ser o maior bloqueio
O carregamento na rede pública permanece o principal fator de frustração. A falta de transparência nos preços, a multiplicidade de taxas e a impossibilidade de saber, à partida, quanto vai custar um carregamento afastam potenciais compradores.
O novo regime jurídico da mobilidade elétrica surge como resposta às críticas, ao reduzir intermediários e impor maior clareza na informação de preços. A expectativa é que o carregamento elétrico passe a funcionar de forma semelhante ao abastecimento de combustíveis fósseis: simples, comparável e previsível.
Ainda assim, persistem desafios estruturais. A rede pública continua a ter poucos postos rápidos e ultrarrápidos, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, e há assimetrias evidentes entre litoral e interior. A situação agrava-se em períodos de maior procura, como férias ou grandes eventos, quando as filas nos carregadores das autoestradas comprometem a fiabilidade do sistema.
Comissão Europeia muda o discurso, mas continua a pressionar os construtores de automóveis
A revisão da meta europeia para 2035 (de 100% para 90% de redução de emissões) lançou a confusão nos meios de comunicação. No debate, há consenso. O impacto real da medida não representa um recuo tecnológico, mas sim um ajustamento político e industrial.
O problema central não é a lei, mas a forma como foi comunicada. A mensagem pode levar o consumidor a acreditar que o automóvel elétrico perdeu prioridade, quando, na prática, os construtores continuam sob forte pressão para acelerar a venda de carros 100% elétricos.
A criação de uma nova categoria de pequenos carros elétricos europeus surge como uma tentativa clara de democratizar o acesso e responder à concorrência chinesa.
Descarbonizar não é apenas eletrificar
A DECO PROteste sublinha que a transição não pode ser vista apenas como uma troca tecnológica. O objetivo final é a descarbonização, e isso implica olhar para o parque automóvel real, envelhecido e composto por veículos usados.
A eletrificação é o vetor mais avançado, mas não o único. Biocombustíveis, combustíveis sintéticos e soluções intermédias podem desempenhar um papel relevante, sobretudo para quem não tem condições para carregar em casa ou no local de trabalho.
Os híbridos continuam a dar cartas. Há críticas fortes aos híbridos plug-in quando não são carregados, com custos mais elevados e maiores emissões reais. Elsa Agante alerta: "A maioria dos consumidores com carros híbridos plug-in viaja apenas a combustão. Muitas vezes, já nem carregam. Gastam mais do que se fosse um carro 100% combustão." Estão a pagar pelo transporte de uma bateria.
"Até há bem pouco tempo, o híbrido plug-in oferecia pouca autonomia, uma bateria pesada e uma integração de sistemas (combustão e elétrico) que nunca foi muito eficiente. Os novos híbridos plug-in já têm mais de cem quilómetros de autonomia e ao nível das emissões são mais competitivos. Mas é a tecnologia mais complexa", explica Diogo Teixeira. Os híbridos convencionais são assim vistos como uma solução de transição.
Apoios do Estado ao carro elétrico: eficazes para empresas, falhados para consumidores
Os apoios do Governo foram decisivos para o crescimento da mobilidade elétrica, mas beneficiam de forma desproporcionada as empresas. "Sem apoios governamentais, não existiria mobilidade elétrica", sustenta Diogo Teixeira.
Nos particulares, os programas falharam por excesso de burocracia e regras pouco ajustadas à realidade do consumidor, como a obrigatoriedade de abate. Pedro Faria critica o cenário atual. "Para as empresas estamos muito acima da média europeia. Para os privados não funciona. Os dois últimos programas foram um desastre. De 2023 para 2024 sobraram 3,5 milhões que foram transferidos para 2025. E agora há mais. Em 2025, dos 13,5 milhões, não foram utilizados 9,6 por dificuldades processuais. Agora foi anunciada para 2026 uma dotação orçamental de 20 milhões."
O resultado é claro: milhões de euros ficaram por utilizar. Consumidores e utilizadores defendem um modelo mais simples, com um incentivo-base acessível a todos, complementado por majorações ambientais, evitando que o apoio acabe por excluir quem mais precisa.
Consumidor no centro da transição
A mobilidade elétrica só será bem-sucedida se tiver o consumidor no centro. Isso implica preços claros, carregamento simples, infraestrutura fiável, incentivos previsíveis e soluções adaptadas à diversidade de perfis de utilização.
Portugal está bem posicionado, mas o desafio agora é garantir que a transição é justa, compreensível e acessível sem deixar ninguém para trás.
Portugal na linha da frente da eletrificação
Os números mostram um país bem posicionado na adoção do carro elétrico, mas com uma transição ainda desequilibrada: rápida para as empresas, lenta para os particulares; forte nas vendas, frágil no carregamento; ambiciosa nos objetivos, travada pela burocracia.
- 9100 veículos eletrificados vendidos em novembro de 2025 (elétricos + híbridos plug-in): novo máximo histórico mensal.
- 32% de quota de mercado nas vendas de veículos novos de ligeiros de passageiros 100% elétricos (novembro de 2025). No saldo acumulado de 2025, os elétricos puros representam 22,9 por cento.
- No parque automóvel total, o valor dos elétricos a circular é muito mais baixo. Em 2023, representavam quase 2 por cento.
- Mais de 8 mil novos utilizadores por mês na mobilidade elétrica.
- Portugal no top 3 na Europa em vendas de carros novos elétricos e o 8.º país no mundo com quota superior a 20% de elétricos há mais de um ano.
Custo médio de utilização por 100 km
- Carro a gasolina: 9,70 €.
- Carro a gasóleo: 7,42 €.
- Carro elétrico na rede pública: 8,09 €.
- Carro elétrico em casa: 3,19 €. Custa menos de metade da combustão.
Frases-chave para acelerar o futuro do carro elétrico
Pedro Faria, UVE
"Quem pode carregar em casa e não mudou para a mobilidade elétrica está a cometer um erro."
"O utilizador tem de chegar ao posto, saber quanto vai pagar, pagar com o cartão e ir embora com a vida facilitada."
"Nas primeiras gerações de carros elétricos, a perda de autonomia era um problema. Hoje não. Vamos ver-nos livres do carro antes de a bateria ter algum problema. Um carro com 400 quilómetros de autonomia perde 10% a 20% da autonomia ao fim de oito anos, sem impacto."
Elsa Agante, DECO PROteste
"Na rede pública, os consumidores têm de ter uma ideia de quanto é que vão pagar e poder comparar."
"Precisamos de mais carregadores para democratizar o carro elétrico. Quem carrega em casa tem uma vantagem. Quem não pode carregar em casa faz contas. É essencial apostar em postos rápidos e ultrarrápidos. Na rede pública há uma assimetria enorme entre o interior e o litoral, entre os grandes centros urbanos e as zonas com menos população."
Diogo Teixeira, Razão Automóvel
"A União Europeia aponta para a criação de uma nova categoria de veículos, o carro pequeno elétrico europeu, feito na Europa. Portugal tem uma importância acrescida, porque a Autoeuropa vai produzir o ID.1, que será o carro elétrico mais barato da Volkswagen."
"Potencialmente saiu o Euromilhões à Autoeuropa. A Comissão Europeia quer dar mais clareza à indústria automóvel, responsável por 13 milhões de postos de trabalho na Europa."
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