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Som envolvente dos televisores topo de gama não convence

Som surround num televisor é o último grito do marketing. Testámos aparelhos da LG, Panasonic, Samsung e Sony, e as vantagens para o consumidor são mínimas.

  • Dossiê técnico
  • António Alves
  • Texto
  • Inês Lourinho
09 junho 2021
  • Dossiê técnico
  • António Alves
  • Texto
  • Inês Lourinho
Televisão sobre uma mesa, numa sala com iluminação fornecida por um candeeiro de pé. No ecrã, pode ver-se um apoiante da seleção portuguesa de futebol, de costas e de braços abertos, virado para uma arena

iStock

Prometem que, se um helicóptero começar a voar num canto do ecrã e o atravessar até sair de cena, o telespetador consegue acompanhar o som como se a aeronave pairasse por cima da sua cabeça. Às portas do Euro 2020, serão estes televisores uma forma de nos transportarmos até às bancadas dos estádios para acompanharmos a Seleção das Quinas?

A nova ideia das marcas é introduzir o som envolvente (surround) num televisor. Lembra-se dos sistemas 5.1, com cinco colunas satélite e um subwoofer, para reproduzir os graves? Imagine agora tudo isso dentro de um fino painel, sem cabos a atravessar a sala, nem um enxoval de colunas a ocupar espaço. Mas como conseguem os fabricantes emagrecer estes equipamentos para caberem no televisor?

Várias pequenas colunas de som, múltiplos canais sonoros e muita manipulação digital dos sinais de áudio propõem-se fazer o serviço, com a ajuda da reflexão das ondas sonoras nas paredes, sobretudo no teto. A combinação de técnicas leva os fabricantes a reclamarem maior precisão a reproduzir o palco sonoro e algum efeito envolvente.

Para esta investigação, selecionámos quatro televisores das principais marcas, com diferentes alegações, mas que revelam um ponto em comum: todos foram muito bem avaliados ao nível do som estéreo nos nossos testes. O lote incluiu o LG 55UN73006LA, o Panasonic TX-55HZ2000, o Samsung QE55Q90T e o Sony XR-55A90J.

As alegações mais ambiciosas cabem aos televisores da Samsung e da Sony, seguidos de perto pelo modelo da Panasonic. Já o aparelho da LG, ainda que não seja diretamente comparável, por pertencer a um segmento inferior, apresenta boa qualidade sonora.

A ideia não foi, assim, verificar qual dos fabricantes tem melhor desempenho, mas confrontar as alegações com os efeitos percecionados pelos consumidores. Para tal, recorremos a um painel de especialistas em testes de áudio. Mas, ao contrário dos livres diretos de Ronaldo, conhecidos como mísseis tomahawk, ou das fintas desconcertantes de Bernardo Silva, aqui, mesmo os sistemas mais sofisticados, como o da Samsung, produzem efeitos que não são percetíveis para a maioria dos utilizadores, desprovidos de um ouvido treinado.

O nosso teste não mostra grandes diferenças no som

Efeito envolvente, separação dos canais de som, precisão a representar o palco sonoro e efeito da utilização dos diferentes modos sonoros foram os critérios que examinámos ao detalhe. Para cada televisor, o painel de especialistas escolheu os parâmetros de som que conduziam ao melhor resultado quanto à precisão a representar o palco sonoro e ao efeito envolvente.

Para tornar a comparação mais fiável, e tendo em conta que as nuances sonoras só são retidas pelo cérebro durante um breve instante, instalámos os quatro televisores de forma que os membros do painel pudessem alternar entre os vários aparelhos rapidamente, com as funções de mute e unmute. Na prática, apenas um televisor reproduzia som de cada vez.

Os televisores, que estavam a receber o mesmo vídeo em simultâneo, com perseguições policiais e resgates de helicóptero, foram posicionados a igual distância de uma parede, mas com grande espaçamento entre si.

Nenhum membro do painel conseguiu indicar o televisor mais preciso a representar o palco sonoro, o que mostra, de forma clara, que se trata de sistemas de utilidade duvidosa e cuja perceção muda muito de pessoa para pessoa.

Ainda assim, reunidos todos os comentários, verificámos que os televisores com maior número de colunas e com manipulação digital do sinal de áudio mais sofisticada demonstraram um palco sonoro ligeiramente mais amplo e preciso. O televisor da Samsung acabou por ser o melhor. Seguiu-se, de muito perto, o aparelho da Sony e, por fim, o da LG e o da Panasonic.

Ainda não vale a pena investir em televisor com surround

O teste mostra que as alegações dos fabricantes são mais um golpe de marketing do que uma vantagem efetiva para os consumidores. Nos melhores sistemas, como o da Samsung, caso o utilizador esteja realmente concentrado em verificar se a direcionalidade do som acompanha a imagem, acaba por notar um efeito subtil. Mas, para a maioria das pessoas, sem um ouvido treinado, não é de todo percetível ou, na melhor das hipóteses, é ténue.

Além disso, o efeito depende de vários fatores, como o posicionamento do televisor face ao sofá, o formato da sala e os materiais usados nessa divisão, caso de tapetes ou cortinados. Os sistemas assentam na reflexão do som nas paredes, e a localização destes elementos estruturais não é a mesma em todas as casas.

O efeito também parece ser menos percetível com o uso de volumes sonoros mais moderados, o que é um problema para quem não gosta ou não pode elevar os decibéis.

E vale a pena investir? Os efeitos são realmente modestos. Por isso, se não prescinde de um som preciso e envolvente, a solução é voltar aos saudosos sistemas 5.1, os tais com cinco colunas satélite e um subwoofer, para debitar os graves.

 

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