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Resistência a antibióticos: porque está a aumentar e o que fazer para a travar

A resistência aos antibióticos cresce sobretudo devido ao uso inadequado destes medicamentos em seres humanos, animais e ambiente. Para evitar o agravamento, é essencial tomá-los apenas quando prescritos, cumprir rigorosamente o tratamento e adotar práticas de higiene e segurança alimentar que impeçam a propagação de bactérias resistentes.

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15 dezembro 2025
Resistência a antibióticos

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O que são bactérias resistentes?

As bactérias são microrganismos com o dom da omnipresença, espalhando-se por vários ecossistemas, como é o caso de seres humanos, animais e plantas. Algumas são bastante úteis e contribuem, por exemplo, para digerir os alimentos, tornar os nutrientes disponíveis e neutralizar as toxinas. Outras são prejudiciais e favorecem a ocorrência de doenças e até a morte.

Os antibióticos são medicamentos concebidos para matar ou impedir o crescimento das bactérias, ajudando a curar as infeções que aquelas causam em pessoas, animais e, por vezes, plantas. Existem mais de 15 classes de antibióticos, com estrutura química e modo de ação distintos. Um antibiótico pode ser eficaz contra vários tipos de bactérias ou contra apenas um. Certo é que nem todos os antibióticos são eficazes contra todas as bactérias.

Considera-se que as bactérias apresentam resistência aos antibióticos quando determinados antibióticos específicos perdem a capacidade de as matar ou de impedir o seu desenvolvimento. As bactérias resistentes sobrevivem e multiplicam-se, resistindo à ação dos antibióticos de uso mais comum.

Há dois tipos de resistência bacteriana aos antibióticos:

  • resistência intrínseca – tem que ver com a resistência natural de determinadas bactérias;
  • resistência adquirida – quando bactérias normalmente suscetíveis aos antibióticos desenvolvem resistência em resultado de alterações genéticas causadas, por exemplo, pela utilização incorreta de antibióticos.

Quando a doença é causada por bactérias resistentes, o tratamento das infeções torna-se mais difícil.

  • Os médicos têm de prescrever antibióticos diferentes, o que pode atrasar o início do tratamento correto e resultar em complicações de saúde.
  • O doente poderá necessitar de mais cuidados, assim como de antibióticos alternativos mais dispendiosos e com efeitos secundários mais graves.
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Qual a origem da resistência aos antibióticos?

Não são os seres humanos ou os animais que se tornam resistentes aos tratamentos com antibióticos. A resistência aos antibióticos é um fenómeno natural nas bactérias, que evolui ao longo do tempo, geralmente através de alterações genéticas (mutações).

Qualquer uso de antibióticos, mesmo que apropriado e conservador, contribui para o desenvolvimento da resistência bacteriana, mas o seu uso desnecessário e excessivo agrava o problema. A figura seguinte mostra o desenvolvimento da resistência bacteriana.

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Causas da resistência aos antibióticos

Os dois principais promotores da resistência aos antibióticos são:

  • o uso inadequado de antibióticos em seres humanos e animais;
  • a propagação e a transmissão cruzada de bactérias resistentes entre humanos, entre animais, e entre humanos e animais e o meio ambiente.

Impacto na saúde humana

O uso excessivo e inadequado de antibióticos – tanto em humanos como em animais – acelera o desenvolvimento e a propagação de bactérias resistentes.

  • Uso desadequado, isto é, quando não são necessários: por exemplo, constipações e gripes são causadas por vírus, que os antibióticos não eliminam.
  • Administração incorreta: quando não são respeitados a duração do tratamento, as doses prescritas e o intervalo entre as tomas, situações que podem levar a que a quantidade necessária de antibiótico no organismo não seja atingida, e as bactérias sobrevivam.
  • Diagnóstico pouco rigoroso: pode resultar numa prescrição desnecessária ou não adequada aos resultados das culturas microbiológicas. Dados do ECDC indicam que, nos hospitais da União Europeia, não estão a ser realizados com a frequência devida os testes elementares de diagnóstico necessários para a especificação dos tratamentos. Esta situação contribui para a utilização excessiva de antibióticos de largo espectro, que exercem uma pressão geradora de resistências, ao eliminarem as bactérias mais suscetíveis à sua ação e propiciarem a proliferação das mais resistentes. Idealmente, os médicos devem usar antibióticos mais específicos e pelo menor período possível.
  • Falta de acesso ao antibiótico adequado: são comuns as falhas no fornecimento de medicamentos às farmácias, pelo que o antibiótico mais adequado para o combate da bactéria em questão poderá não estar disponível. Nesta situação, há a necessidade de optar por outros antibióticos, nomeadamente, por soluções de largo espectro.

Como se espalham as bactérias resistentes

As bactérias resistentes não afetam apenas os seres humanos, mas também os animais e as plantas. A partir destes, podem disseminar-se pelo meio ambiente, contaminando o solo, a água e o ar. As bactérias resistentes a antibióticos podem espalhar-se através de diferentes vias.

1. Entre seres humanos

  • A principal via de transmissão das infeções é o contacto direto entre quem transporta a bactéria e quem está mais suscetível a contraí-la (por exemplo, através de objetos contaminados ou mãos sujas).
  • O maior risco de infeção com as chamadas superbactérias resistentes acontece nas unidades de cuidados de saúde. Esta situação aumenta o risco de complicações médicas e até a duração dos internamentos.

Para evitar infeções nos hospitais, os profissionais de saúde devem adotar boas práticas:

  • lavar sempre e bem as mãos;
  • usar luvas;
  • respeitar as rotinas de esterilização e desinfeção de equipamentos e superfícies;
  • limitar o contacto entre doentes;
  • e alertar as visitas sobre a importância de cobrir a boca e o nariz com o antebraço ou um lenço de papel, quando tossem ou espirram;

2. Entre animais e seres humanos 

Os antibióticos são também administrados a animais de explorações agrícolas, mesmo saudáveis, tendo em vista a prevenção de doenças decorrentes da sobrelotação dos espaços ou de higiene insuficiente. Trata-se de um uso inadequado e excessivo que potencia resistências: as vacinas e as boas práticas de higiene são, na maioria dos casos, suficientes para prevenir doenças.

Os antibióticos utilizados em animais pertencem aos mesmos grupos químicos dos que são administrados na medicina humana. Desta forma, os animais podem ser portadores de bactérias resistentes a antibióticos igualmente utilizados no tratamento de infeções em seres humanos.

Cientes da necessidade de limitar o uso de antibióticos na produção animal e agrícola, vários países da União Europeia, Portugal incluído, criaram sistemas de vigilância das resistências.

Têm sido desenvolvidas também campanhas informativas, aliadas aos apelos da Organização Mundial da Saúde (OMS), para a lavagem das mãos, a vacinação (para limitar a transmissão de infeções) e a sensibilização para a prescrição e a toma racional destes medicamentos.

Também a DECO PROteste, através dos seus testes a produtos alimentares, tem contribuído para melhorar a literacia das populações.

Bactérias resistentes, como a Campylobacter e a salmonela, podem passar para as pessoas através de:

  • consumo de carne, peixe e ovos pouco cozinhados contaminados;
  • contacto com animais de exploração agrícola vivos portadores das bactérias resistentes;
  • consumo de fruta e legumes cultivados em terrenos fertilizados com estrume proveniente de animais infetados;
  • consumo de água contaminada com os excrementos dos animais infetados.

Como diminuir o risco de ingerir bactérias resistentes através de alimentos e evitar intoxicações alimentares?

  • lave bem as mãos antes de manipular alimentos;
  • lave bem fruta e legumes, para eliminar grande parte dos microrganismos nocivos. Tenha particular cuidado quando os alimentos são consumidos crus;
  • a maioria dos microrganismos morrem a 70ºC. Se cozinhar bem a carne, o peixe e os ovos, anula o risco. Antes de consumir sobras, certifique-se de que todas as partes são aquecidas;
  • manipule os alimentos em separado, para evitar contaminações cruzadas. Por exemplo, ao preparar frango, lave bem as mãos, os instrumentos e as superfícies antes de manusear os legumes, o peixe ou outra carne.

3. Contaminação entre animais, ambiente e seres humanos

As bactérias existentes no ambiente podem ser expostas a antibióticos (por exemplo, a partir das águas residuais), o que permite acelerar o desenvolvimento da resistência bacteriana.

Os antibióticos são descarregados nas águas residuais, tal como os restantes produtos farmacêuticos e substâncias hormonais. Contaminam rios e albufeiras, muitos dos quais fontes da água para consumo humano. Estes poluentes prejudicam a estrutura e a função dos ecossistemas aquáticos, incluindo os biofilmes (algas, bactérias e fungos), que têm um papel essencial na degradação da matéria orgânica presente na água e no fundo dos rios.

Apesar de ser seguro beber água da torneira, a ingestão contínua de água com antibióticos pode potenciar a ocorrência de resistências bacterianas. É, por isso, preciso reduzir a carga de antibióticos libertados para o ambiente e alargar o leque das substâncias prioritárias a controlar com regularidade.

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Consequências das resistências aos antibióticos

O problema tem vindo a agravar-se, sobretudo com o aparecimento de novas estirpes de bactérias resistentes a vários antibióticos em simultâneo (multirresistentes). Estas bactérias chegam a sobreviver na presença de três ou mais antibióticos, e representam uma séria ameaça para a saúde humana, animal e vegetal.

Se não se travar o seu desenvolvimento, num futuro próximo, a medicina terá grande dificuldade em tratar as doenças bacterianas, uma vez que os antibióticos poderão tornar-se ineficazes.

Entre os dez principais problemas de saúde pública

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019, declarou este problema como um dos dez problemas de saúde pública mais graves que a Humanidade enfrenta. Entre 2018 e 2023, a resistência bacteriana aumentou em mais de 40% das combinações de bactérias e antibióticos monitorizadas, sendo mais elevada nas regiões do Sudeste Asiático e do Mediterrâneo Oriental. 

Também a Comissão Europeia apontou o combate às resistências como uma prioridade na área da saúde. E deixou o alerta: sem medidas urgentes, poderemos estar a caminhar para uma era pós-antibióticos, em que infeções simples e feridas de pouca gravidade poderão voltar a ser fatais. É crucial evitar este retrocesso civilizacional.

O que Portugal tem de fazer

Para atingir as metas previstas pela União Europeia para 2030, Portugal deverá:

  • reduzir o consumo total de antibióticos, medido em dose habitante dia (DH), em 9% face a 2019. Isto significa que, em 2030, não devem ser consumidas mais de 17,6 doses diárias de antibióticos por cada mil habitantes;
  • garantir que, pelo menos, 65% dos antibióticos consumidos devem pertencer ao grupo dos menos suscetíveis de causar resistências – o grupo access, de acordo com a classificação AWaRE, da OMS. Em 2024, eram 61,4%, segundo o Infarmed. Esta autoridade considera as metas atingíveis, "através do esforço conjunto e da aplicação de estratégias eficazes".

Principais áreas de combate à resistência bacteriana

  • Utilização mais prudente e eficiente dos antibióticos, tanto nos seres humanos, como nas plantas e nos animais, através de maior sensibilização para o uso racional, ações de vigilância e acompanhamento das infeções, e diagnósticos melhorados.
  • Adoção de cuidados de higiene que impeçam a propagação e a transmissão cruzada de bactérias resistentes, como a higiene das mãos, as precauções no contacto, o isolamento dos doentes e a limpeza.
  • Descoberta e disponibilização de novos agentes antibacterianos, através da investigação e do desenvolvimento.
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