Dossiês

Resistência a antibióticos: problema de saúde pública a resolver

30 dezembro 2019
resistencia a antobioticos

O professor associado na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, Fernando Ramos, reconhece o uso excessivo de antibióticos em Portugal.

“O futuro é preocupante e o presente já o é"

Portugal encontra-se entre os países que consomem mais antibióticos. Fernando Ramos, professor associado na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, faz uma avaliação dura da situação que a Europa enfrenta.

Há uso excessivo de antibióticos em Portugal?

Sem dúvida que sim. O consumo dos antibióticos de última geração é superior à média europeia. Face a outros países europeus, há uma elevada prescrição de fluoroquinolonas em ambulatório, o que está relacionado com a elevada taxa de resistência a esta classe de antibióticos. Na Europa, Portugal está entre os países com mais elevada taxa de Staphylococcus aureus, resistente à meticilina; de Enterococcus faecium, resistente à vancomicina, e de Acinetobacter baumannii, com resistência combinada a vários antimicrobianos, conforme os dados de vigilância epidemiológica da EARS-Net. À semelhança dos países do leste e sul da Europa, tem-se observado em Portugal uma crescente resistência de Klebsiella spp., a cefalosporinas de terceira geração, e de Escherichia coli, a quinolonas.

Fernando Ramos 
A higiene das mãos é uma das medidas de maior impacto na redução da infeção associada aos cuidados de saúde, afirma Fernando Ramos.  

Quais as medidas mais urgentes para combater a crescente resistência das bactérias?

Existem três vias estratégicas e fundamentais para limitar este problema. Primeiro, o desenvolvimento de novos agentes antimicrobianos, com investimento na investigação e desenvolvimento de fármacos que explorem novos mecanismos de ação. Segundo, a prevenção e o controlo da infeção, incluindo medidas de higiene – a lavagem adequada das mãos – e a despistagem e isolamento dos agentes bacterianos. Por fim, o uso adequado e racional dos antibióticos, na saúde humana e animal. Os antibióticos deverão ser usados se necessário, na dose adequada, com intervalos corretos entre as tomas e com a duração apropriada.

Os técnicos de saúde já têm por hábito lavar as mãos?

A higiene das mãos é, reconhecidamente, uma das medidas de maior impacto na redução da infeção associada aos cuidados de saúde e, consequentemente, na diminuição da resistência aos antimicrobianos e na redução dos custos. O facto de existirem normas oficiais que recomendam a lavagem das mãos pelos profissionais de saúde e a forma correta de o fazer indicia que o panorama atual não deverá cumprir os padrões desejáveis ou apropriados à contenção da infeção.

Por que razão as campanhas de sensibilização não têm resultado?

A questão é pertinente. Nos últimos anos, muito se tem falado de resistência aos antibióticos e dos perigos que decorrem de um cenário de falência destes fármacos. O Dia Europeu dos Antibióticos (18 de novembro) tem criado o cenário para uma campanha mais enfática, mas a mensagem não tem sido devidamente percecionada pelos cidadãos e, em muitos casos, pelos profissionais de saúde.

Quais as doenças com que nos deparamos e quais as mais graves?

A resistência aos antibióticos tem-se desenvolvido em todas as estirpes bacterianas, o que é um fenómeno natural resultante da utilização destes fármacos. O problema coloca-se quando a pressão seletiva, o (ab)uso e o mau uso aceleram e permitem uma disseminação muito mais vasta de genes de resistência do que sucederia se a utilização fosse feita de forma racional. As preocupações centram-se nalgumas estirpes, como o Enterococcus, resistente à vancomicina, o Staphylococcus aureus, resistente à meticilina, a Klebsiella, produtora de betalactamases de espectro alargado, o Acinetobacter, resistente ao imipenemo, a Pseudomonas aeruginosa, resistente ao imipenemo ou Enterobacter, resistente às cefalosporinas de terceira geração. Algumas doenças, já controladas, voltaram a surgir, contando-se já muitas mortes pela ineficácia dos tratamentos.

O futuro será mesmo tão crítico quanto tem sido anunciado?

O futuro é preocupante. O presente já o é. Mas a realidade, sobre a qual devemos refletir, é que, além das numerosas bactérias que têm sido isoladas, e que apresentam resistência a múltiplos antibióticos, foi isolada nos EUA a primeira bactéria, uma Escherichia coli, resistente a todos os antibióticos conhecidos e existentes. Incluindo a colistina, o antibiótico de reserva, e última arma disponível, para tratar infeções que têm resistido a todos os outros tratamentos. Por ano, atribui-se à resistência bacteriana cerca de 25 mil mortes na União Europeia, segundo dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças.

Professor Fernando Ramos

Por ano, atribui-se à resistência bacteriana cerca de 25 mil mortes na União Europeia, por isso, "há receio face ao futuro da antibioterapia", afirma este professor.