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Prisão de ventre: qual é o melhor tratamento?

Medicamentos, suplementos alimentares ou produtos "naturais" para a obstipação? A resposta não é única. Com evidências pouco robustas, há que experimentar, caso a caso. Primeiro, mude o estilo de vida, a alimentação e a ingestão de líquidos. Em situações mais graves, consulte o médico.

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14 março 2026
Plano médio de mulher, na sua cozinha a beber água

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A saúde intestinal é essencial para o bem-estar. Além das funções digestivas, o intestino desempenha um papel importante na defesa do organismo. A obstipação é um problema que pode afetar pessoas de todas as idades e, na maioria dos casos, está relacionado com o estilo de vida, a alimentação ou determinados medicamentos. 

Estima-se que a obstipação afete entre 10% e 15% da população mundial. É mais frequente na faixa etária acima dos 65 anos e no sexo feminino (o risco é maior na fase lútea do ciclo menstrual e durante a gravidez). As causas são multifatoriais. Pouca ingestão de fibra e de água e falta de exercício podem explicar parte do problema. Mas é possível que alguma medicação ou certas doenças, condições físicas ou psicológicas entrem igualmente na equação. Em ambos os casos, é necessário proceder a ajustes (alterar ou retirar a medicação, por exemplo), com vista a contornar a obstipação.       

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O que é a obstipação?

A obstipação é um distúrbio do funcionamento intestinal caracterizado por dificuldade persistente em evacuar. A frequência das evacuações pode variar consideravelmente entre indivíduos: enquanto algumas pessoas evacuam duas a três vezes por dia, outras apenas três a quatro vezes por semana. Assim, a obstipação não é definida apenas pelo número de evacuações, mas sobretudo por uma alteração dos hábitos intestinais acompanhada de desconforto, esforço ou dificuldade na evacuação.
 
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Quatro passos para gerir a obstipação

Um estilo de vida sedentário contribui para o risco de prisão de ventre, bem como uma alimentação com pouca fibra e a ingestão de poucos líquidos. A maioria das orientações terapêuticas para a obstipação recomendam, como primeiro passo, alterações do estilo de vida. Em conjunto, tais alterações são mais eficazes, além de baratas, fáceis e seguras.

  1. Comer fibras (frutas, legumes e cereais) promove o trânsito intestinal. Recomenda-se a quem tem obstipação o reforço da fibra entre 25 a 30 gramas por dia.
  2. Ingestão adequada de água: 1,5 a 2 litros por dia para adultos; 1 a 1,5 litros por dia para uma criança saudável, com dez quilos ou mais; 150 mililitro por quilo corporal, para bebés saudáveis.
  3. Atividade física moderada: 30 minutos por dia (caminhar ou andar de bicicleta) ou 140 minutos por semana.
  4. Melhorar a rotina da casa de banho. Estabeleça um padrão regular de evacuação. Não deixe para mais tarde...
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Quando deve ir ao médico?

Consultar um profissional de saúde é inadiável se a prisão de ventre não melhorar com a mudança de estilo de vida ou de medicação. Mas há outros sinais que não deve ignorar e que implicam o aconselhamento de um médico.

  • A prisão de ventre é regular ou sente-se inchado.
  • Tem sangue nas fezes ou o seu tom é preto.
  • Perde peso involuntariamente.
  • Está obstipado e sente-se cansado, enjoado ou sempre nauseado, vomita ou tem febre.
  • Está a tomar medicação que causa obstipação.
  • Nota mudanças súbitas nos hábitos intestinais, como fezes mais duras ou menor frequência de evacuação.
  • Tem dores de barriga ou dores ao evacuar.
  • Tem a sensação de que algo bloqueia a evacuação (como se algo estivesse a obstruir) ou que uma parte do intestino está a sair.
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Que medicamentos se usam no tratamento da obstipação?

Se as alterações de estilo de vida (atividade física mais frequente e consumo de mais fibra e água) não surtirem o efeito desejado, pode avançar-se para a medicação, através de laxantes, para os quais existem provas de alguns resultados positivos.  

Laxantes expansores de volume fecal

São normalmente a primeira opção de tratamento para a obstipação. Podem conter fibras insolúveis e solúveis. O efeito é a absorção de água, levando a um trânsito intestinal mais rápido e facilitado. Mas é essencial beber líquidos suficientes: no mínimo 1,5 a 2 litros por dia. O exemplo mais conhecido é o psyllium, fibra solúvel extraída da casca das sementes da planta medicinal Plantago ovata. Em Portugal, existem dois medicamentos com esta substância: o Mucofalk e o Agiolax. Mas também pode ser encontrada em vários suplementos alimentares. São seguros, baratos e fáceis de usar

Laxantes osmóticos

São os medicamentos em relação aos quais existem os melhores dados de eficácia e de segurança. Favorecem a retenção da água, o que amolece as fezes e aumenta o seu volume, facilitando a evacuação. Em particular, há evidências da eficácia e segurança, a curto e longo prazo, do macrogol em doentes com obstipação crónica. A lactulose é uma alternativa. Contudo, na obstipação crónica, demonstrou ser menos eficaz, nomeadamente na frequência das dejeções, consistência das fezes e alívio da dor abdominal. Ambas as substâncias estão presentes em medicamentos disponíveis em Portugal.

Laxantes de contacto ou estimulantes

Aumentam a motilidade intestinal e a água no intestino. Dividem-se em dois tipos. As antraquinonas de origem vegetal, como a folha de sene, são comercializadas como medicamento ou suplemento alimentar. Já os derivados do difenilmetano, como o bisacodilo ou o picossulfato de sódio, estão disponíveis como medicamento. A sua eficácia está menos bem documentada do que a dos laxantes osmóticos. Por haver falta de dados sobre a sua segurança a longo prazo, são apenas recomendados para uma utilização de curta duração.

Laxantes emolientes

Facilitam a passagem das fezes pelo intestino, sem estimular as contrações intestinais. Em Portugal, apenas existem sob a forma de parafina líquida. Embora os supositórios retais e os enemas retais, contendo laxantes emolientes, sejam frequentemente utilizados em doentes com obstipação, o nível de evidência sobre a sua eficácia é considerado baixo. 

Secretagogos

Em Portugal, apenas a linaclotida está disponível mediante receita médica para a síndrome do intestino irritável com obstipação moderada a grave, apresentando evidência de eficácia moderada a elevada. É geralmente reservada como terceira linha terapêutica. A diarreia é o efeito adverso mais frequente.

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Quivi e ameixa seca desbloqueiam?

O quivi é a única peça de fruta fresca à qual a Comissão Europeia concedeu, em agosto de 2025, autorização para usar a alegação de saúde "o consumo de quivis verdes contribui para o normal funcionamento intestinal, ao aumentar a frequência das fezes".

A alegação limita-se aos quivis verdes frescos que forneçam um mínimo de 200 gramas de polpa. O consumidor deve ser informado de que o benefício se obtém com a ingestão diária daquela quantidade. Porém, tal não significa que outras frutas não possam ter o mesmo efeito. Na verdade, o facto de os quivis serem até agora a única fruta com uma alegação de saúde deve-se sobretudo ao facto de a empresa Zespri ter investido muito tempo e dinheiro para a conseguir.

A EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos) concedeu à ameixa seca uma alegação de saúde, em 2012: "As ameixas secas contribuem para a função intestinal normal."  

quivi é mais bem tolerado do que as ameixas secas e o psyllium. É importante estar atento ao teor calórico e glicémico destes frutos. Uma advertência especialmente importante para doentes com comorbilidades, como obesidade ou diabetes mellitus.

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Probióticos, prebióticos e simbióticos

Iogurtes, kefir, kombucha, tempeh ou miso podem conter probióticos, com algum efeito positivo na prisão de ventre. Tal como os simbióticos, na maioria vendidos como suplementos alimentares ou sob a forma de alimentos enriquecidos com prebióticos e probióticos (daí o nome simbiótico).

Dada a grande variedade de produtos probióticos e simbióticos, existem grandes diferenças e inconsistências entre os estudos. O mesmo acontece com os prebióticos, como a inulina, presente na aveia, na maçã, nos frutos secos e nas leguminosas.

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Obstipação: os produtos "naturais" são melhores?

A crença de que os chamados produtos "naturais" para tratar a obstipação são mais seguros do que os produtos "sintéticos" é um equívoco. Os produtos naturais não são mais seguros. Muitos contêm substâncias ativas idênticas, com riscos, contraindicações e interações semelhantes.

O risco pode ser ainda maior com os produtos ditos naturais. A concentração, dose e pureza dos ingredientes são menos reguladas e controladas. Para os fabricantes, o estatuto dos suplementos alimentares facilita a combinação de substâncias ativas num só produto, o que pode até aumentar o risco de efeitos secundários. Por exemplo, psyllium e antracinonas de origem vegetal, como a sene, podem ser vendidas como medicamento e como suplemento alimentar. 

Nos suplementos alimentares, há menos garantias de que contenham a substância ativa nas quantidades indicadas no rótulo e de que não está contaminado com ingredientes que possam aumentar o risco de efeitos secundários.

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Perguntas frequentes

A atividade física e a rotina intestinal fazem diferença?

Sim. A atividade física regular ajuda a estimular o funcionamento do intestino. Recomendam-se 30 minutos de atividade moderada por dia (como caminhar ou andar de bicicleta) ou cerca de 140 minutos por semana. Criar uma rotina regular para ir à casa de banho e não adiar a evacuação também ajuda a manter um padrão intestinal saudável.

O que pode causar prisão de ventre?

A prisão de ventre pode estar associada a um estilo de vida sedentário, alimentação pobre em fibras e ingestão insuficiente de líquidos. A combinação de mudanças no estilo de vida é geralmente a forma mais eficaz, simples e segura de prevenir e melhorar este problema.

Quando devo procurar aconselhamento médico?

Deve consultar um médico se a prisão de ventre não melhorar com mudanças no estilo de vida ou com utilização de medicação, ou se ocorrer com frequência, acompanhada de inchaço ou desconforto persistente.

Que hábitos alimentares ajudam a prevenir a prisão de ventre?

Consumir alimentos ricos em fibra, como frutas, legumes e cereais integrais, ajuda a melhorar o trânsito intestinal. Recomenda-se uma ingestão diária suplementar de 25 a 30 gramas de fibra para pessoas com obstipação. Também é importante beber líquidos suficientes.

Que sinais de alerta associados à prisão de ventre justificam avaliação médica?

Procure aconselhamento médico se notar:

  • que a obstipação não melhora com alterações do estilo de vida ou com medicação;
  • sangue nas fezes ou fezes de cor preta;
  • perda de peso involuntária;
  • náuseas persistentes, vómitos, cansaço ou febre;
  • mudanças súbitas nos hábitos intestinais (por exemplo, fezes mais duras ou menor frequência de evacuação);
  • dor abdominal ou dor ao evacuar;
  • sensação de bloqueio ao evacuar ou saída de uma parte do intestino;
  • que a toma de medicamentos pode estar a causar obstipação.

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