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Covid-19: quantos dias de isolamento?

O período de isolamento por causa da covid-19 é, em algumas situações, de 10 dias. Mas, para as pessoas que contactaram com casos positivos, o tempo de isolamento profilático pode ser reduzido de 14 para 10 dias, se realizarem teste. Explicamos as diferentes situações.

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Alda Mota e Rita Santos Ferreira
30 julho 2021
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Alda Mota e Rita Santos Ferreira
pessoa em isolamento ou quarentena por covid-19 olha através de uma persiana de uma janela

iStock

Em situações específicas, uma pessoa que tenha testado positivo à covid-19 tem alta clínica e pode sair de casa ao fim de dez dias desde que não apresente sintomas há mais de três, sem ter necessidade de apresentar um teste negativo. A regra gera mais confusão quando posta a par das orientações para os casos suspeitos que tiveram contacto com um caso positivo: estes continuam a ser obrigados a manter-se em isolamento durante 14 dias, a não ser que testem negativo ao décimo dia. 

De acordo com a norma da Direção-Geral da Saúde, pelo princípio de precaução, as medidas de isolamento devem também ser aplicadas às pessoas vacinadas contra a covid-19, até mais dados serem conhecidos, incluindo os de efetividade vacinal.

Visto deste prisma, algo parece não estar bem decidido: uma pessoa que confirmadamente tem a doença pode sair de casa ao fim de dez dias e quem não se sabe se é ou não portador do vírus é obrigado a manter-se em quarentena durante mais tempo.

Porque mudou o período de isolamento face à covid-19?

A decisão de reduzir o período de isolamento de um caso covid-19 positivo – quer apresente ou não sintomas –, para dez dias em algumas situações baseia-se sobretudo na análise da evidência científica e nos novos estudos que têm sido efetuados ao modo como se comporta o novo coronavírus. 

Em primeiro lugar, é do conhecimento científico que o facto de se testar positivo, ou seja, de ser detetado ácido ribonucleico (RNA) viral num teste molecular usado para pesquisa do novo coronavírus (RT-PCR), não significa necessariamente que a pessoa possa transmitir o vírus. Os fatores que determinam o risco de contágio são a capacidade de replicação do SARS-CoV-2 (ou seja, se o vírus é ou não competente), se o paciente tem sintomas (como tosse, que pode disseminar gotículas contaminadas) e o comportamento do doente aliado a fatores ambientais (por exemplo, se consegue manter o distanciamento social e se frequenta ou não espaços fechados que sejam devidamente arejados).

Além disso, sabe-se hoje que entre a exposição ao SARS-CoV-2 e o início dos primeiros sintomas existe um período de um a três dias durante o qual a carga viral vai aumentando e que, mesmo na ausência de sintomas, há já a possibilidade de transmissão do vírus. Neste tempo, a pessoa pode nem sequer desconfiar que está contaminada porque o corpo não mostra qualquer sinal. Quando surgem os primeiros sintomas de contaminação por covid-19, já a carga viral está próxima do seu limite máximo. Nesta fase, a pessoa não só é portadora do vírus como este tem um potencial de contágio galopante. O risco de transmissão é maior quando começam os sintomas ou nos dias mais próximos do início dos sintomas e nos primeiros cinco dias depois de a doença se ter manifestado.

Fonte: "Virology, transmission, and pathogenesis of SARS-CoV-2", The BMJ, 2020 (adapt.).

Os dados apontam também que, cinco a dez dias depois do contágio, o corpo da pessoa infetada inicia gradualmente a produção de anticorpos. Considera-se expectável que esses anticorpos tenham um efeito gradualmente neutralizante face ao vírus, o que reduzirá o risco de transmissão do mesmo.

Nos estudos efetuados, em pacientes com formas ligeiras a moderadas da doença, o vírus competente (com capacidade para se replicar e transmitir) não foi detetado dez dias depois do aparecimento dos primeiros sintomas. Segundo ficou documentado, em algumas pessoas com manifestações severas da doença, o sistema imunitário não reagiu de forma tão expedita, tendo sido possível detetar formas competentes do vírus 10 a 20 dias depois do aparecimento dos primeiros sinais. Contudo, foi estimado que, em 88% a 95% dos casos, 10 e 15 dias, respetivamente, após o aparecimento dos primeiros sintomas, os vírus detetados eram não-competentes (ou seja, não se replicavam nem se transmitiam).   

Assim, a DGS considera que, se pelo menos a partir do sétimo dia depois dos primeiros sinais da covid-19 não houver manifestações clínicas da doença (como tosse, febre ou falta de ar) nem a necessidade de recorrer a medicação para mitigar os sintomas (por exemplo, baixar a febre) durante três dias seguidos, é seguro ao décimo dia o infetado ter alta e retomar as suas atividades, porque a baixa carga viral do SARS-CoV-2 que eventualmente ainda transporta – aliada à resposta imunológica do organismo – levará a que a probabilidade de contaminar alguém seja muito reduzida.

Já para quem teve contacto com casos positivos, e não apresenta manifestações clínicas da doença, é difícil determinar onde começou a incubação, uma vez que a mesma ocorre 2 a 14 dias após o contacto com o vírus. Logo, mantém-se a necessidade de esperar 14 dias para ver se surgem sintomas e assegurar que se passa o período crítico de contágio. No entanto, todos os contactos (quer de alto ou baixo risco) devem realizar teste laboratorial para a SARS-CoV-2 até ao quinto dia após a última data de exposição ao caso confirmado. No caso dos contactos de alto risco, se o resultado for negativo e permanecerem assintomáticos, realizam novo teste ao décimo dia após a última exposição. Se este último teste também der negativo, poderá acabar o isolamento profilático.

Os contactos de alto risco, aos quais tenha sido estabelecido o fim do isolamento profilático antes do 14.º dia após a última exposição, devem reforçar o cumprimento das medidas de prevenção e controlo de infeção, nomeadamente, limitar os contactos com outras pessoas, reduzindo as suas deslocações ao indispensável (por exemplo, trabalho, escola, casa), e adotar as medidas preventivas permanentemente, até ao 14.º dia após a data da última exposição de alto risco.

Os contactos com exposição de alto risco, mas com história de infeção pelo SARS-CoV-2 há menos de 90 dias, não necessitam de fazer isolamento profilático, mas devem seguir as seguintes medidas:

  • automonitorizar e registar, diariamente, sintomas compatíveis com a covid-19, bem como medir e registar a temperatura corporal, duas vezes por dia; 
  • limitar os contactos com outras pessoas, reduzindo as suas deslocações ao indispensável, e adotar as medidas preventivas em permanência;
  • contactar o SNS 24 se surgirem sintomas compatíveis com a covid-19.

Um estudo efetuado na Coreia do Sul, em 2020, revelou ainda que a carga viral e a probabilidade de deteção do vírus SARS-CoV-2 é semelhante tanto em pessoas que revelem sinais da doença como assintomáticas, indicando que as assintomáticas representam também uma fonte de transmissão do vírus.

Isolamento por covid-19: veja cada caso

Face à evolução das investigações científicas a este nível, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Estados-Membros foram aconselhados a refletir sobre as medidas relativas ao isolamento das pessoas portadoras do vírus SARS-CoV-2. Tendo em conta os novos dados científicos e o grande esforço em termos técnicos e de recursos, foi revista a necessidade de realização de dois testes RT-PCR em 24 horas (que tinham de ser negativos para ser declarado o fim do isolamento) para alguns doentes covid-19 positivos.

O objetivo das normas é diminuir o recurso desnecessário a unidades prestadoras de cuidados de saúde e devolver a vida ativa às pessoas a partir do momento em que a evidência científica mostra que o risco de transmissão do vírus para a sociedade é já residual.

Isolamento de dez dias é para quem?

Os doentes com um teste covid-19 positivo que tenham apresentado sinais ligeiros a moderados da doença deixaram de estar obrigados ao isolamento de 14 dias indicado para os casos suspeitos, desde que dez dias depois do início dos sintomas durante três dias consecutivos tanto não tenham febre (sem tomar antipiréticos) como apresentem uma melhoria significativa dos sintomas. Reunidas essas condições, o período de isolamento termina findos dez dias, sem necessidade de realizar teste laboratorial.

Também para doentes covid-19 positivos assintomáticos, ou seja, as pessoas sem qualquer manifestação clínica da doença, mas que tenham obtido um resultado positivo no teste, o isolamento termina dez dias após a realização do teste laboratorial que estabeleceu o diagnóstico de covid-19, também sem necessidade de fazer novo teste.

No caso de contactos de risco, em que o risco de geração de cadeias de transmissão a pessoas com condições associadas a evolução para a covid-19 grave é baixa, ou seja, que não trabalhem, por exemplo, em estruturas residenciais para idosos, unidades de cuidados continuados integrados e outras respostas dedicadas a pessoas idosas, a autoridade de saúde pode estabelecer o fim do isolamento profilático mediante a obtenção de um resultado negativo num teste PCR, após o décimo dia de contacto com uma pessoa infetada.

E quem fica 20 dias em isolamento?

Quem tiver manifestações graves ou críticas da doença fica sujeito a um período de isolamento de 20 dias desde o início dos sintomas, desde que durante três dias consecutivos não tenha febre (sem tomar antipiréticos) e, simultaneamente, apresente uma melhoria significativa dos sintomas. Neste grupo estão também incluídos os imunodeprimidos (independentemente da gravidade da doença). Tal como nos casos anteriores, o fim das medidas de isolamento é determinado pelo cumprimento desses critérios, sem necessidade de realização de teste laboratorial para SARS-CoV-2.

Quem é obrigado a fazer quarentena (isolamento profilático de 14 dias)?

Para os casos suspeitos que tiveram contacto com pessoas que testaram positivo (por exemplo, uma pessoa que esteve exposta a um caso confirmado de covid-19 ou a material biológico infetado com SARS-CoV-2, dentro do período de transmissibilidade), o período de isolamento profilático depende do nível de exposição (de alto ou de baixo risco). Uma exposição de alto risco leva a isolamento profilático (quarentena) de 14 dias, sendo avaliado caso a caso pelas autoridades a antecipação para dez dias após teste negativo.

O fim antecipado do isolamento profilático carece de avaliação caso a caso, sendo especialmente importante em contactos que pertencem a contexto de risco, nomeadamente estruturas residenciais para idosos, unidades de cuidados continuados integrados e outras respostas dedicadas a pessoas idosas.

São também considerados ambientes  de risco, e merecedores de avaliação caso a caso, as instituições de acolhimento de crianças e jovens em risco, as escolas, os contextos laborais, os estabelecimentos prisionais e as instituições de acolhimento para populações migrantes e refugiados.

Os contactos com risco elevado de transmissão a pessoas com condições associadas a evolução para covid-19 grave, como, por exemplo, cuidadores informais, também estão sujeitos a avaliação caso a caso pelas autoridades de saúde.

Se tiver testado positivo, é preciso fazer teste após o isolamento?

Em alguns casos, o fim das medidas de isolamento não obriga à realização de um teste laboratorial para SARS-CoV-2, ou seja, não é necessário obter um resultado negativo num teste à covid-19 para voltar a sair de casa e retomar a vida normal. Mas há exceções, para as quais é necessária a apresentação de um resultado negativo, uma vez que existe um risco residual de transmissão do vírus, que, nestes casos, não é aceitável:

  • profissionais de saúde ou prestadores de cuidados de elevada proximidade a doentes vulneráveis que iniciam atividade laboral após o fim do isolamento;
  • doentes que vão ser admitidos em estruturas residenciais para idosos, unidades da rede nacional de cuidados continuados, unidades de cuidados paliativos, ou similares;
  • necessidade de transferência intra-hospitalar para áreas não-dedicadas a doentes covid-19.

É importante lembrar que o fim do período de isolamento não representa o fim das medidas de higiene e etiqueta respiratória, bem como os cuidados respeitantes ao distanciamento social e uso de máscara.

Não fazer o teste à covid-19 representa risco?

Anteriormente, era necessário apresentar dois testes RT-PCR negativos em menos de 24 horas para declarar o fim do isolamento. Atualmente, a não-realização do teste a alguém antes diagnosticado covid-19 positivo representa um risco, mas este é residual.

Ponderados riscos e benefícios, considerou-se que, por um lado, a hipótese de transmissão do vírus passados os sintomas é mínima na maioria dos casos e, por outro, a confiança apenas no resultado do teste RT-PCR cria sérios problemas (por exemplo, esgota recursos e condiciona o acesso a novos pacientes que possam necessitar de cuidados de saúde mais urgentes).

Pode haver situações em que este risco residual é inaceitável, por exemplo, no caso de pessoas com uma elevada probabilidade de transmitirem o vírus para grupos vulneráveis ou pessoas em situações ou ambientes de alto risco. Nesses casos, e nos pacientes que apresentem sintomas durante um longo período, a ciência indica que fazer o teste é recomendado e pode ser útil.

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