Sou colaborador da IKEA da loja de Loulé e deixo este testemunho de forma anónima, por receio de possíveis represálias. O que relato corresponde à minha experiência e àquilo que tenho observado e ouvido de outros colaboradores.
Ao longo do meu percurso na IKEA, tenho sentido e observado situações que considero de pressão, intimidação, assédio moral e sexual, diferenciação no tratamento dos colaboradores. Na minha perceção, existem situações de favoritismo no acesso a oportunidades, horários, funções e desenvolvimento profissional, sendo que determinados colaboradores parecem beneficiar de uma maior proximidade com algumas chefias, enquanto outros são colocados sob maior pressão ou acabam por ser prejudicados.
Considero particularmente preocupante a forma como algumas avaliações são realizadas. Existem situações em que as avaliações parecem ser discriminatórias ou condicionadas pela opinião pessoal das chefias e pela posição que o colaborador assume perante determinadas situações. Quem questiona decisões, apresenta críticas ou procura ajuda pode sentir que posteriormente passa a ser tratado de forma diferente, ficando sujeito a maior pressão, avaliações negativas ou afastamento de oportunidades.
Existe também um sentimento de medo entre alguns colaboradores. A perceção é de que quem fala, apresenta uma reclamação ou procura apoio junto do People & Culture pode ficar exposto e sofrer consequências profissionais. Isto acaba por criar um ambiente em que muitos preferem ficar calados, mesmo quando sentem que alguma coisa não está correta.
Também considero preocupante a perceção de monitorização e falta de privacidade. Existem colaboradores que sentem que determinadas chefias ou outras entidades têm acesso a informações ou acompanham de perto determinadas situações, criando um sentimento de vigilância. Existe ainda a perceção de que há uma rede de pessoas que tende a defender a imagem da IKEA e, simultaneamente, a colocar em causa ou a denegrir a imagem dos colaboradores que apresentam críticas ou denúncias.
Relativamente ao MyView, considero fundamental discutir a verdadeira fiabilidade dos resultados. Muitos colaboradores sentem que o anonimato não é totalmente garantido, o que pode criar uma pressão invisível para responder de forma positiva. Se o objetivo é a melhoria contínua, a gestão não se pode basear em indicadores que possam estar influenciados pelo receio de exposição. Seria importante existirem auditorias externas ao inquérito ou canais de feedback verdadeiramente neutros e independentes.
Na minha experiência, também existe a perceção de que determinados problemas são sistematicamente negados ou desvalorizados. Quando os relatos dos colaboradores são constantemente contestados ou apresentados como inexistentes, aumenta a sensação de que não existe um espaço verdadeiramente seguro para falar.
Os colaboradores devem poder trabalhar num ambiente seguro e respeitador, onde possam dar a sua opinião, contestar decisões, participar em inquéritos e apresentar denúncias sem receio de represálias, perseguições ou avaliações discriminatórias.
Uma empresa que pretende promover uma imagem de respeito, igualdade, confiança e bem-estar deve também garantir que esses princípios são sentidos na realidade pelos seus colaboradores, e não apenas apresentados externamente.