Mundial 2026: quando o futebol deixa de ser um jogo e passa a um leilão

Publicado a 07 abril 2026
Magda Moura Canas
Magda Canas Corporate Affairs & Public Relations DECO PROteste

Na derradeira fase de vendas de última hora para os jogos do Mundial 2026, volta a impor-se uma pergunta incontornável: estamos perante um dos maiores eventos desportivos ou perante um mercado sem regras onde o consumidor está desprotegido?

Magda Moura Canas
Magda Canas Corporate Affairs & Public Relations DECO PROteste
iStock venda de bilhetes para o Mundial
O futebol é, por natureza, um fenómeno popular e inclusivo. Transformá-lo num produto de luxo acessível apenas a quem aceita pagar qualquer preço é desvirtuar essa essência. Não pode haver regras dentro das quatro linhas e um mercado sem regras fora delas.

A DECO PROteste, enquanto membro da Euroconsumers, acompanha e subscreve a queixa já levada à Comissão Europeia contra a FIFA. A questão vai muito além do preço dos bilhetes. O verdadeiro problema está na forma como esse preço é definido e imposto aos adeptos.

Quando um operador detém uma posição de monopólio, como sucede neste caso, tem responsabilidades acrescidas – não pode comportar-se como se fosse intocável. A FIFA não pode tratar os adeptos como meros licitadores numa plataforma de leilão, sujeitando-os a preços flutuantes, arbitrários e opacos. Cria um ambiente de incerteza que fragiliza o consumidor e subverte a lógica do jogo.

Preocupante ainda é a opacidade. Os consumidores compram sem saber exatamente onde se vão sentar, que jogo vão ver, ou mesmo se terão direito a reembolso em caso de adiamento, interrupção ou término do jogo muito depois da hora prevista, por exemplo. A isto juntam-se práticas que pressionam à decisão imediata, exploram a urgência e o receio de perder uma oportunidade única, técnicas de venda agressiva que, num mercado equilibrado, seriam inaceitáveis. Sob o ponto de vista jurídico, estas práticas levantam sérias dúvidas à luz do direito do consumo europeu. Transparência, informação pré-contratual e lealdade nas práticas comerciais não são meros princípios abstratos, são direitos concretos dos consumidores. De todos os consumidores.

A fase “last minute” não pode ser um pretexto para agravar estes riscos. Pelo contrário, deveria ser o momento para garantir regras claras: preços estáveis, informação completa e condições justas. O futebol é, por natureza, um fenómeno popular e inclusivo. Transformá-lo num produto de luxo acessível apenas a quem aceita pagar qualquer preço é desvirtuar essa essência. Não pode haver regras dentro das quatro linhas e um mercado sem regras fora delas.

Proteger o consumidor é, também aqui, proteger o próprio espírito desportivo. Porque quando o acesso ao jogo se torna um exercício de especulação, o desporto perde muito ainda antes do pontapé de partida.

Sabia que...?

São 48 os países que vão disputar o Mundial de Futebol 2026, que se realiza entre 11 de junho e 19 de julho no Canadá, no México e nos EUA.

 

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