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Alternativas à carne: consumidores pouco informados e reticentes

Deixar de comer carne de animais para optar por carne concebida em laboratório? É um cenário ainda longínquo para a maioria dos consumidores, que valorizam o preço e temem as consequências para a saúde. 

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05 maio 2025
Carne de laboratório

iStock

Grande parte dos portugueses desconhece a chamada carne de cultura, concebida em laboratório através de células de animais. Reduzir o consumo de carne tradicional só se poria em cima da mesa se as alternativas fossem mais baratas, afirma uma boa fatia (64%) dos mil inquiridos pela DECO PROteste, num inquérito realizado em Portugal, Espanha, Itália e Bélgica, em janeiro de 2025. O sabor fala mais alto, bem como a tradição e a falta de vontade de reduzir a ingestão de carne tradicional.

Mais de um terço dos inquiridos não está disposto a reduzir o consumo de carne. Estar consciente do impacto ambiental da produção de um quilo de bife de vaca – 25 quilos de alimento para animais, sem falar da quantidade de água, do uso de terra e de energia necessários – não parece pesar na escolha daquilo que põem no prato. As carnes vão para a mesa, em média, três vezes por semana, de acordo com o mesmo estudo da DECO PROteste. Em simultâneo, quatro em dez inquiridos, e sobretudo mulheres acima dos 50, afirmam ter reduzido o consumo de carne nos últimos cinco anos, enquanto dois em dez mostram vontade de o fazer no próximo ano. Porém, apesar da ainda prevalência do consumo de carne, 40% dos inquiridos acreditam que, no espaço de dez anos, a regra será ingerir quantidades menores de carne.

Em paralelo, novas tendências e alimentos não alteraram o facto de a esmagadora maioria serem omnívoros. Ou seja, tanto ingerem produtos de origem animal, como vegetal. Quase 90% dos portugueses comem carne e peixe, enquanto apenas um em nove se diz flexitariano (maior ingestão de alimentos de base vegetal e redução ou consumo esporádico de proteína animal). Já vegetarianos declarados são 1,4 por cento.  

Um em três portugueses não pretende comer menos carne

Nos últimos cinco anos, 42% dos inquiridos reduziram o consumo de carne. Apesar disso, os portugueses estão longe de mudar os hábitos alimentares. O perfil do consumidor é tradicionalista, continuando a privilegiar a proteína animal. E cerca de três em dez (38%) não tencionam alterar a quantidade de carne que saboreiam no dia-a-dia. Principal justificação? Não prescindir do sabor que a carne proporciona. O aspeto cultural também é um fator de peso. Mas igualmente não se estar disposto a mudar a rotina alimentar.

A maioria dos portugueses come carne, vermelha ou branca, mais do que duas vezes por semana, enquanto o consumo de peixe ou de marisco se concentra entre um a dois momentos para quase 60% dos inquiridos. Quanto à carne e aos produtos vegetarianos processados, limita-se a uma vez por semana ou menos, para mais de metade. Leite, queijo e iogurtes integram a dieta três ou mais vezes, no mesmo período, para 76 por cento. As leguminosas ocupam também uma boa parcela: mais do que duas refeições por semana. Tal como quase um terço dos que responderam comem frutos secos e sementes.

Comer carne de laboratório se for barata e melhor para a saúde

A ideia de substituição não é popular entre mais de 40% dos inquiridos, que preferem diminuir o consumo de carne a trocá-lo por outras fontes de proteína. Além disso, mais de metade dos portugueses temem os efeitos para a saúde da ingestão de carne de cultura. 

De igual modo, uma nova alternativa à carne, produzida a partir do processo de fermentação de precisão (processo biotecnológico que utiliza microrganismos para produzir proteínas), apenas é conhecida por 30% dos inquiridos. Já o conhecimento sobre alternativas à carne à base de plantas, produtos vegetarianos processados, comida feita de insetos e de algas é quase generalizado.

O cenário é um pouco mais otimista se a carne de cultura fosse aprovada para consumo humano pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA). Nesse caso, cinco em dez portugueses estariam mais dispostos a experimentar carne de laboratório. Ainda assim, adotar esta fonte alternativa de proteína estaria dependente da condição de ser benéfico para a saúde, de ter um preço acessível e de assegurar o sabor e a textura habituais.     

Consensual para a maioria dos inquiridos é o facto de a produção de carne de cultura dever ser regulada pelas autoridades competentes, para garantir o acesso universal e para prevenir monopólios. Também grande parte (57%) de quem respondeu ao inquérito considera que a União Europeia deveria ser mais ativa no apoio à produção e à venda de alternativas sustentáveis à carne. E 40% pensam que os receios dos produtores de carne não devem impedir a União Europeia de enveredar pela inovação alimentar.

O que leva os portugueses a comprar carne? 

O aspeto do alimento e o preço são os grandes motores para escolher carne. Fatores como valor nutricional, método de criação e alimentação do animal são ligeiramente mais importantes do que o impacto ambiental. Este aspeto, aliás, encontra-se ligado à situação económica: quanto mais difícil o equilíbrio financeiro, menos importância se atribui às consequências ambientais da produção de carne. Contudo, cerca de sete em dez inquiridos gostariam de obter mais informação sobre as implicações que a produção de carne exerce sobre o ambiente. 

 

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