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Caso AstraZeneca abala confiança, mas maioria dos portugueses quer ser vacinada

O caso AstraZeneca trouxe dúvidas sobre a segurança das vacinas contra a covid-19, mas apenas 5% dos inquiridos recusam serem inoculados e 10% dizem que talvez não o sejam. Num estudo com quatro países europeus, portugueses são os mais confiantes.

  • Dossiê técnico
  • Bruno Carvalho e Susana Santos
  • Texto
  • Inês Lourinho
08 abril 2021
  • Dossiê técnico
  • Bruno Carvalho e Susana Santos
  • Texto
  • Inês Lourinho
Mulher com máscara cirúrgica a receber vacina no braço esquerdo, aplicada por um profissional de saúde vestido com equipamento de proteção contra a covid-19

iStock

Em meados de março, foram levantadas suspeitas sobre a segurança da vacina da AstraZeneca contra a covid-19. A Agência Europeia de Medicamentos foi informada sobre 30 episódios tromboembólicos, isto é, sobre a formação de coágulos sanguíneos, em cerca de cinco milhões de indivíduos vacinados. Raros, mas potencialmente graves, estes casos levaram à suspensão temporária da vacina em vários países, entre os quais Portugal, seguindo o princípio de precaução até que fosse estabelecida, ou não, uma relação de causa-efeito. A Agência Europeia de Medicamentos concluiu na altura que os benefícios na prevenção da hospitalização e da morte por covid-19 eram superiores aos riscos, além de não ter sido provada nenhuma relação entre tais episódios e a toma da vacina. Mas, para muitos europeus, sujeitos às declarações de alguns responsáveis políticos e a uma sobre-exploração dos casos na comunicação social, o mal estava feito, e a desconfiança alastrou-se a todas as vacinas.

Para apurarmos a dimensão deste mal-estar, entre 26 e 30 de março, realizámos um inquérito online em Portugal, em Espanha, em Itália e na Bélgica junto da população entre os 18 e os 74 anos, sendo que, dos quatro países, o último foi o único que não suspendeu a administração da vacina da AstraZeneca. Obtivemos 4005 respostas válidas, 1001 das quais com origem no nosso país. Os resultados espelham as opiniões e as experiências dos participantes no estudo.

A confiança na vacina da AstraZeneca ficou abalada para 63% dos portugueses. Mas não foi a única a sofrer o embate. Entre os nossos conterrâneos, 41% também reportaram um impacto negativo sobre as restantes. Não significa, porém, que os portugueses recusem a vacinação. Apenas 5% estão certos de uma tal decisão e 10% hesitam, com mais probabilidade para o “não”.

Neste estudo a quatro, a total confiança nas vacinas em geral, e nas que pretendem prevenir a covid-19 em particular, é superior nos portugueses. Mesmo 55% dos que reportaram efeitos negativos em relação à confiança na vacina da AstraZeneca estão dispostos a avançar para a inoculação sem pensar duas vezes.

Já em abril, depois da recolha dos dados para o nosso estudo, a Agência Europeia de Medicamentos admitiu uma possível ligação entre a vacina da AstraZeneca e casos raros de formação de coágulos, mas sublinhou que os benefícios continuam a superar os riscos.

Portugueses mais informados estão mais confiantes

O caso AstraZeneca tem abalado a confiança na segurança de todas as vacinas, contra a covid-19 ou não. Mas também a organização do plano de vacinação, a prestação da Agência Europeia de Medicamentos e a defesa da saúde dos cidadãos pelo Governo e pela Direção-Geral da Saúde estão debaixo de escrutínio. Cerca de três em dez inquiridos confessam que o caso AstraZeneca teve um impacto negativo na forma como avaliam cada um destes aspetos.

O caso AstraZeneca abalou a confiança em...

Ainda assim, e apesar de os números terem crescido ligeiramente face a um inquérito que realizámos em janeiro deste ano, apenas 35% alegam bons ou muito bons conhecimentos sobre os efeitos secundários das vacinas contra a covid-19. Quanto mais elevado o nível educacional dos participantes no estudo, maior é esta proporção. Já os meandros do plano de vacinação estão ao alcance de 42%, enquanto a eficácia das vacinas é do domínio de quase metade (48 por cento).

Considera-se bem ou muito bem informado

 

Os menos informados ou com um nível educacional mais baixo foram os que mais concordaram com a decisão do Governo de suspender a vacina da AstraZeneca.

Quanto aos produtos da Janssen, da Pfizer e da Moderna, o nível de confiança é semelhante: em todos os casos, apenas 6% dos inquiridos mostram um forte receio face aos efeitos secundários.

Maioria dos portugueses à espera da vacina

Apesar da comoção social, se fossem convocados para serem inoculados na próxima semana, 59% dos portugueses que ainda não a tomaram aceitariam a proposta sem reservas e mais 26%, apesar das dúvidas, provavelmente seguir-lhes-iam o exemplo. Aliás, face ao inquérito de janeiro deste ano, são agora mais 9% os que dizem querer vacinar-se. Quanto mais bem informados se afirmam os inquiridos, maior é a predisposição para receber a vacina. Por outro lado, esta vontade é também superior na faixa etária acima dos 64 anos.

Se fosse chamado para ser vacinado na próxima semana, aceitaria?

 

Os números recolhidos em Portugal são um pouco mais favoráveis do que os registados em Espanha e contrastam com os referentes a Itália e Bélgica. No país vizinho, 52% não teriam dúvidas em receber a vacina, enquanto na Bélgica este valor é de apenas 47% e em Itália de 45 por cento. Aliás, em Itália, a vontade de ser vacinado recuou 8% face ao estudo de janeiro.

Os 41% de portugueses que têm algum tipo de hesitações apontam o receio dos efeitos secundários como principal justificação (59 por cento). Não pertencer a um grupo de risco pesa na decisão de 36 por cento. Já a desconfiança em relação a algumas vacinas contra a covid-19 é manifestada por 32 por cento. Os motivos mais relacionados com uma postura antivacinas ou com teorias da conspiração, como interesses ocultos ou suspeição face ao processo de desenvolvimento e aprovação das vacinas, são muito menos invocados. E os que dizem não confiar em vacinas em geral ou que a covid-19 não é muito diferente de uma gripe sazonal são ainda mais residuais.

Quais as razões para recusar ou ter dúvidas sobre a vacina contra a covid-19?

O nosso estudo revela, contudo, que o caso AstraZeneca abala sobretudo as certezas, e não tanto as ações. Mesmo 55% dos que nos informaram terem sofrido um impacto negativo na confiança face à vacina da AstraZeneca, se chamados para inoculação na próxima semana, compareceriam sem vacilar. Cerca de 29% teriam de pensar um pouco, mas o mais certo seria apresentarem-se igualmente.

Certificado verde parece boa ideia, mas...

Com a fadiga pandémica instalada, todos procuram formas de voltar a uma vida normal, e o Digital Green Certificate ("certificado verde digital"), uma proposta da Comissão Europeia, parece agradar. Além de atestar a vacinação, garante a recuperação de quem teve covid-19 e um teste RT-PCR negativo.

São cerca de sete em dez os portugueses que pensam ser uma boa medida para se poder circular na União Europeia novamente. E voltamos a ser os mais entusiastas: entre espanhóis, italianos e belgas, esta proporção oscila entre cinco e seis por cada dez.

A maioria dos portugueses também concorda que pode ser uma forma de evitar a propagação da doença (63 por cento). No entanto, ainda não é claro se a vacina inibe a transmissão da doença.

O entusiasmo com o certificado verde, popularmente conhecido como "passaporte das vacinas", não afasta perplexidades, e 62% apontam uma possível discriminação financeira entre quem já recebeu a vacina e quem espera por ser inoculado, que, para circular no espaço europeu, terá de sujeitar-se a quarentenas ou pagar testes do seu bolso. Claro que, se os testes forem gratuitos, todos os cidadãos ficam em pé de igualdade.

Este resultado sugere que, embora, à primeira vista, o certificado possa ser uma boa solução, existem aspetos a limar. Aliás, a discriminação seria ainda maior se, tal como cerca de metade defende, sobretudo seniores dos 60 aos 74 anos, o passaporte fosse também pedido à entrada de restaurantes, cinemas, ginásios e outros espaços fechados. A medida poderia, por exemplo, excluir as camadas mais jovens da população, que ainda não tiveram acesso à vacina. E que também estão desejosas de escapar à fadiga pandémica.

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