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Desconfinamento: portugueses têm medo de voltar às rotinas

Muitos evitam espaços públicos por medo de contágio, anularam programas de férias e adiaram projetos e investimentos. Sete em cada dez portugueses reportam o adiamento de, pelo menos, um serviço de saúde agendado. 

  • Dossiê técnico
  • Bruno Carvalho e Carlos Morgado
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
29 julho 2020 Exclusivo
  • Dossiê técnico
  • Bruno Carvalho e Carlos Morgado
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
Desconfinamento: turista de máscara a andar na rua com mala de viagem

iStock

Em março, declarado o estado de emergência e o confinamento da população, para travar o risco de contágio e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde (SNS), o país parou. Apenas se mantiveram abertos os serviços essenciais, para garantir os bens de primeira necessidade à população. As medidas foram eficazes e evitaram uma curva ascendente abrupta dos novos casos de infeção pelo coronavírus, mas agora é urgente apostar na retoma da economia. 

O nosso inquérito efetuado entre 16 e 20 de julho revela que, apesar da reabertura da maioria dos serviços e do regresso ao trabalho para uma boa parte da população, os portugueses continuam a ter receio de voltar às rotinas anteriores ao início da crise do coronavírus. Mais de três quartos dos inquiridos evita ou deixou mesmo de frequentar os espaços públicos, sejam eles restaurantes, transportes públicos ou centros comerciais, mais de metade cancelou ou adiou as férias e perto de metade adiou projetos inicialmente agendados para este ano, como comprar casa ou um carro novo.

Sete em cada dez portugueses reportam o adiamento de, pelo menos, um serviço de saúde agendado e 22% referem que foram mesmo cancelados desde o início da pandemia. As unidades de saúde devem reagendar essas consultas, exames de diagnóstico e cirurgias adiadas ou canceladas ao longo dos últimos meses, sob pena de vermos aumentar a taxa de mortalidade e de morbilidades por falta de acompanhamento de doentes “não-covid”.

Medo de voltar à rotina

Dois meses e meio após o início do desconfinamento e de uma tentativa de regresso à normalidade, procurámos saber se os portugueses estão a voltar a usar o comércio e os serviços em geral e qual o grau de confiança quanto ao risco de contágio nos transportes, nas lojas e nos serviços de saúde.

Mais de três quartos dos portugueses deixaram de frequentar ou passaram a frequentar menos regularmente os restaurantes, os centros desportivos fechados (ginásios, clubes de fitness, piscinas, etc.), os centros comerciais, as lojas de roupa e calçado e os eventos culturais.

Os supermercados foram os estabelecimentos comerciais que menos sofreram uma quebra na procura, o que mostra que os portugueses afluíram sobretudo aos serviços de primeira necessidade. Para as deslocações, procuraram usar mais veículos privados, como o carro ou a mota.

O medo de infeção pelo coronavírus leva os portugueses a evitar determinados serviços, nomeadamente os transportes públicos: três quartos dos inquiridos consideram-nos pouco seguros quanto ao risco de contágio. Mais de metade terá o mesmo sentimento relativamente aos centros desportivos, às lojas, aos restaurantes e aos eventos culturais. 

Muitos projetos adiados ou cancelados

O impacto financeiro decorrente da crise da covid-19 também poderá contribuir para uma retração dos hábitos de consumo. Num inquérito anterior sobre os efeitos da crise do coronavírus, verificámos que a pandemia teve um impacto direto na situação financeira e profissional dos portugueses. Em maio, 7 em cada 10 inquiridos revelavam ter sofrido uma quebra nos rendimentos devido à crise pandémica, prevendo um agravamento da situação ao longo dos 12 meses seguintes. Não é, por isso, de estranhar que, no atual inquérito, mais de metade dos portugueses refiram ter adiado ou mesmo cancelado investimentos e planos inicialmente previstos para este ano, como comprar carro, casa ou fazer obras.

  • 43% dos portugueses adiaram pelo menos um dos investimentos previstos e já não tencionam fazê-lo até ao fim do ano.
  • 43% dos portugueses adiaram pelo menos um deles mas tencionam fazê-lo ainda até ao final do ano.
  • 7% dos portugueses cancelaram pelo menos um dos investimentos planeados.

Turismo impactado pela pandemia

Também as férias dos portugueses foram em grande parte afetadas pela pandemia. Mais de metade indica que vai gastar menos do que previsto. Cerca de uma em cada cinco famílias afirma que vai ficar em casa e uma mesma percentagem afirma que não vai gastar dinheiro com o programa de férias. Mais de metade opta por fazer férias cá dentro (54%) e apenas 20% no estrangeiro. 

Mais de três quartos dos portugueses consideram que as viagens de avião, de autocarro ou de comboio representam um risco elevado de contágio e mais de metade não tem confiança nas medidas de segurança nos hotéis e alojamentos de férias. 

  • 68% dos inquiridos refere que a crise da covid-19 afetou as suas férias de verão.
  • 44% tinham previsto viajar para o estrangeiro mas só 20% indicam que mantêm/mantiveram o programa.
  • 18% não preveem ter despesas com as férias de verão.
  • 56% referem que vão gastar menos do que inicialmente previsto nas férias.
  • 602 euros é quanto preveem gastar, em média, nas férias.

Atrasos nas consultas, exames e tratamentos

A crise sanitária do coronavírus teve, sem dúvida, um impacto negativo na vida social e financeira dos portugueses. Muitos viram ainda a sua saúde física e mental diminuída, com quase 70% dos inquiridos a reportar o adiamento de, pelo menos, um dos serviços de saúde agendados e 22% a referir o seu cancelamento. Um quinto dos portugueses referem que o adiamento ou o cancelamento das consultas ou tratamentos tiveram um grande impacto na sua saúde.

Sabe-se que a pandemia levou, durante o estado de emergência, ao encerramento de muitos serviços de saúde, nomeadamente de clínicas e de consultórios privados, assim como de dentistas, que se limitaram a atender os casos mais urgentes.

O número de consultas e tratamentos adiados e cancelados é conhecido. Ao mobilizar todos os esforços para o combate à pandemia, cerca de um milhão de consultas nos centros de saúde e 900 mil nos hospitais foram canceladas. Estima-se que, desde março e até agora, ficaram por diagnosticar cinco mil casos de doença oncológica por mês, devido à suspensão de consultas e de cirurgias na generalidade dos centros de saúde e hospitais e, em parte também, devido ao receio dos pacientes de recorrerem aos serviços de saúde. Cerca de metade dos inquiridos confessa ter medo do contágio, sobretudo nos serviços de urgências. As farmácias são, ainda assim, os espaços considerados mais seguros pela maioria dos utentes.

Estes são alguns dos danos colaterais da covid-19 que levam a prever consequências graves para o futuro próximo, com um aumento da taxa de mortalidade e de morbilidades na população portuguesa.

O medo do contágio poderá levar pessoas com sintomas preocupantes a não recorrer a ajuda médica perante uma situação que poderá ser grave (como um enfarte do miocárdio ou um AVC). As autoridades de saúde têm insistido no facto de que é seguro ir ao hospital e de que não se deve adiar uma situação urgente. 

Se é certo que o SNS superou as expetativas na gestão da pandemia, o grande desafio é, agora, retomar e garantir os cuidados relativamente às outras patologias “não-covid”, ao mesmo tempo que se acompanha os doentes “covid”, que poderão precisar de cuidados a longo prazo. Reagendar todas as consultas e os tratamentos interrompidos desde março vai exigir um melhor planeamento e uma articulação entre unidades de saúde.

Reforçar as medidas de segurança e devolver a confiança aos consumidores

Durante a era do confinamento obrigatório, houve uma avalição muito positiva das autoridades, que tem vindo a decrescer um pouco desde o início do desconfinamento. 

O aumento no número de novas infeções pelo novo coronavírus, o SARS-CoV-2, que resultou da reabertura dos serviços e do desconfinamento da população, afetou a confiança na segurança dos espaços públicos e dos serviços. Com este aumento, que era expectável, aumentou também o descontentamento dos portugueses com as medidas do Governo e das autoridades de saúde (a satisfação rondava os 80% na altura do confinamento, tendo passado para 60 por cento).

Para a retoma da economia, o Governo deve reforçar um conjunto de medidas para recuperar a confiança no comércio, nos transportes e nos serviços em geral. 

Os cidadãos, pelo seu lado, são também eles atores essenciais na luta contra o aumento do número de infeções. Agir de modo responsável, seguindo as recomendações do Governo e da Direção-Geral da Saúde (DGS), é muito importante. Usar máscara nos espaços públicos, higienizar frequentemente as mãos, respeitar a lotação nos espaços e o distanciamento social, assim como a etiqueta respiratória, e não ir trabalhar nem frequentar espaços públicos caso tenha sintomas suspeitos de covid-19, são as principais medidas para proteger a população e a economia do País. 

Segundo um inquérito anterior feito junto da população em março de 2020, 9% dos portugueses revelaram ter tido, pelo menos, um dos sintomas característicos da covid-19 (febre, tosse seca ou dificuldades respiratórias) nos últimos 15 dias, mas 77% não contactaram os serviços de saúde e metade revelou não cumprir quarentena. Apenas 12% dos que apresentaram sintomas ficaram em casa, não saindo em nenhuma circunstância. 

Na presença dos sintomas suspeitos referidos, as indicações da DGS são claras: fique em casa, ligue para a linha SNS 24 (808 24 24 24) e siga as instruções.

Dos cerca de 1000 inquiridos que participaram no estudo, 7% revelam ter tido um familiar contaminado com covid-19, tendo 1,2% falecido por causa da doença; no seu círculo social, 21% conhecem alguém que adoeceu e 1,4% alguém que morreu com covid-19.

Os resultados do estudo

Gráficos desconfinamento pandemia

Como fizemos o estudo

Para este estudo, entre 16 e 20 de julho, enviámos um questionário online a uma amostra da população adulta portuguesa entre os 18 e os 74 anos. No total, recebemos 1006 respostas, que foram ponderadas pelas variáveis sexo, idade, região e nível educacional, por forma a refletirem a realidade nacional.

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