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Açúcar causa cancro: mito ou verdade?

Circulam alertas online que associam o açúcar a cancro e a recomendação de eliminar todo o tipo de açúcares da alimentação, para evitar e combater doenças oncológicas. Saiba o que está por trás desta crença, o que diz a ciência e o que fazer para reduzir o risco de cancro ou combater a proliferação de células cancerígenas.

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07 janeiro 2026
Jovem mulher com donut no dedo sobre fundo azul turquesa

iStock

O mito de que “o açúcar alimenta o cancro” tem origem numa interpretação errada de uma antiga descoberta. Em 1920, o cientista alemão Otto Warburg (Prémio Nobel de medicina em 1931) observou que as células cancerígenas consomem mais glicose e a um ritmo mais acelerado do que as células saudáveis.

Este metabolismo diferenciado das células malignas — conhecido por "efeito Warburg" — levou a que se espalhasse a ideia de que o consumo de açúcar era causador e responsável pelo crescimento de tumores. 

Desmistificar esta ideia é essencial para evitar práticas perigosas, como restrições alimentares que podem comprometer a imunidade e a recuperação durante tratamentos oncológicos.

O que diz a ciência sobre glicose e células cancerígenas?

O argumento de que as células cancerígenas dependem da glicose — molécula produzida pelo corpo a partir dos hidratos de carbono simples (também denominados açúcares) ingeridos para fornecer energia — e que, por isso, a privação de açúcares as impede de proliferarem — parece lógica. Mas é uma simplificação incorreta de processos biológicos complexos, que pode ter consequências graves. 

Hidratos de carbono geram glicose, a fonte da energia celular

Os hidratos de carbono (ou açúcares) são um nutriente essencial: a sua digestão dá origem à glicose, cuja principal função é fornecer energia aos milhões de células que asseguram a nossa sobrevivência.

De forma simplificada, podem ser divididos em dois tipos: dependendo da quantidade de moléculas de açúcar que compõem a cadeia dos hidratos de carbono, estes podem ser simples (como a frutose e o açúcar de mesa) ou complexos, como o amido. 

EHT — Quadro Resumo: Hidratos de Carbono
HIDRATOS DE CARBONO SIMPLES versus COMPLEXOS
O que os distingue? Simples Complexos
Estrutura molecular Cadeias curtas de unidades de açúcar Cadeias longas de unidades de açúcar
Açúcares mais comuns 

Sacarose: açúcar de mesa (formado por uma molécula de glicose e uma de frutose)

Frutose: açúcar naturalmente presente na fruta

Lactose: açúcar do leite

 Amido: presente em alimentos como pão, massas, batatas, leguminosas, etc. 
Características

De digestão rápida, fornecem energia de forma quase imediata.

Têm um sabor adocicado.

De digestão lenta, proporcionam uma libertação de energia prolongada e maior sensação de saciedade.

Quanto mais longas são as cadeias de hidratos de carbono menor é o sabor doce

No caso dos hidratos de carbono simples (ou açúcares simples), é importante distinguir os que ocorrem naturalmente nos alimentos dos que são adicionados para lhes conferir sabor doce.

  • Os açúcares naturais estão presentes em alimentos como a fruta (frutose) e o leite (lactose). São alimentos nutricionalmente interessantes, uma vez que também fornecem outros nutrientes que não açúcares, como fibras, vitaminas e minerais.
  • Os açúcares adicionados encontram-se em produtos como bolos, refrigerantes e sobremesas. Estes alimentos fornecem essencialmente energia, mas poucos outros nutrientes.

Na alimentação, devemos privilegiar os hidratos de carbono complexos, como o amido, de digestão longa e libertação mais duradoura de energia. Durante a digestão, a saliva e os sucos digestivos degradam o amido em moléculas de glicose, que circulam no sangue, onde são absorvidas pelas células, para lhes fornecer energia.

Como as cadeias de moléculas de açúcares dos hidratos de carbono simples são curtas, a sua degradação em moléculas de glicose é mais rápida, o que explica que forneçam energia celular mais depressa do que os hidratos de carbono complexos. 

A reter:glicose obtida pela digestão dos açúcares é usada diretamente pelas células como "combustível". É essencial para o funcionamento de todas as células do corpo, sejam elas saudáveis ou não.

Qual o risco de "matar à fome" células cancerígenas?

Tentar “matar à fome” as células tumorais através da eliminação do açúcar da dieta não é eficaz nem seguro.

Essa abordagem privaria também as células saudáveis de energia, podendo comprometer o sistema imunitário, a função muscular e a recuperação durante os tratamentos oncológicos.

Ora, os doentes com cancro enfrentam com frequência perda de peso e de massa muscular, o que torna essencial garantir uma ingestão calórica e nutricional adequada. Não se deve seguir dietas restritivas ditas milagrosas.

Além disso, em caso de privação total de hidratos de carbono, o organismo continua a produzir glicose no fígado a partir de gorduras e proteínas. Ou seja, o corpo assegura sempre níveis mínimos de glicose no sangue, independentemente da alimentação, precisamente porque essa molécula é indispensável à vida celular e à nossa sobrevivência.

A reter: eliminar os açúcares da alimentação privaria também células saudáveis de energia. Tal compromete a imunidade e a recuperação dos doentes em tratamento.

O verdadeiro problema do açúcar simples: excesso e obesidade

Note que, por si só, o açúcar simples não causa cancro, mas convém restringir o seu consumo. As dietas ricas em açúcares simples e produtos ultraprocessados contribuem para o aumento de peso e obesidade. Esta, sim, aumenta o risco de cancro. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o American Institute for Cancer Research (AICR) reconhecem a obesidade como um dos principais fatores de risco modificáveis para o desenvolvimento de vários tipos de cancro, incluindo os da mama (pós-menopausa), cólon, pâncreas, fígado e endométrio.

Como reduzir o risco de cancro?

A alimentação equilibrada e variada é, portanto, fundamental na prevenção e no acompanhamento de doentes oncológicos.

Eis as recomendações gerais: 

  • Modere o consumo de açúcares simples e os alimentos ultraprocessados (refrigerantes, bolos, snacks industrializados, entre outros).
  • Privilegie alimentos com hidratos de carbono complexos (pão, cereais integrais, batata, leguminosas, etc.).
  • Aumente a ingestão de fibra (frutas, legumes, cereais integrais).
  • Garanta uma ingestão adequada de proteínas para preservar a massa magra;
  • Hidrate-se bem;
  • Procure manter o peso saudável;
  • Siga um estilo de vida ativo.

Atenção: os regimes alimentares que suprimem grande parte dos hidratos de carbono (como a dieta cetogénica) são perigosos. Estes nutrientes são a fonte de energia de todas as células e garantem a nossa sobrevivência. Não há forma de privar seletivamente as células cancerígenas de glicose sem afetar as saudáveis.  

6 dicas essenciais sobre cancro e alimentação

O açúcar não causa cancro, mas os doces em excesso não fazem parte de uma alimentação saudável, já que promovem o aumento de peso. A obesidade, por sua vez, aumenta o risco de vários tipos de cancros. Eis seis dicas a reter.

  1. Procure seguir uma alimentação variada e equilibrada, manter o peso adequado e um estilo de vida ativo. É a melhor forma de prevenir a obesidade e o risco de cancro.
  2. Durante tratamentos oncológicos deve garantir-se um plano nutricional equilibrado, onde não faltem nutrientes importantes para o bom funcionamento do sistema imunitário.
  3. Não altere a dieta nem siga conselhos que circulam nas redes sociais sem provas de segurança e eficácia. Informe-se com um médico ou nutricionista sobre o plano alimentar adaptado à sua condição e ao tipo de tumor.
  4. O segredo da alimentação saudável está no equilíbrio. A roda dos alimentos mostra, de forma simplificada, como garantir todos os nutrientes essenciais e na dose certa.
  5. Os hidratos de carbono complexos (presentes no pão, nas leguminosas e nos cereais, por exemplo) devem representar 50% da ingestão diária de calorias. Os hidratos de carbono simples adicionados nos doces e sobremesas, por sua vez, não entram na roda dos alimentos, pois em nada contribuem para uma dieta saudável. O seu consumo deve ser apenas ocasional e em pequenas quantidades.
  6. O livro Sabor e equilíbrio inclui inúmeras receitas ricas em cor, sabor e nutrientes essenciais, para uma alimentação saudável e equilibrada. 

Questões frequentes sobre açúcar e cancro

Veja a resposta a mais dúvidas frequentes sobre o consumo de açúcar e risco de cancro.

Eliminar todos os açúcares previne e trava o cancro?

Não. Restringir severamente os açúcares pode comprometer a energia necessária às células saudáveis e à recuperação durante tratamentos oncológicos. Mesmo sem ingestão de hidratos de carbono, o organismo produz glicose a partir das gorduras e proteínas. Tal não é boa ideia durante tratamentos oncológicos (quimioterapia, por exemplo), pois é habitual haver perda de peso e massa muscular.

O que é o efeito Warburg?

O que distingue as células cancerígenas das normais é o seu metabolismo alterado. As células tumorais têm necessidades energéticas muito elevadas e recorrem a uma via metabólica chamada glicólise anaeróbia — mesmo na presença de oxigénio. Este fenómeno, conhecido como efeito Warburg, permite-lhes transformar rapidamente a glicose em energia e em compostos necessários à síntese de novas células, embora com menor eficiência energética. Esta “estratégia metabólica” contribui para o rápido crescimento do tumor.

Esta característica é utilizada na tomografia por emissão de positrões (PET), um exame que avalia a atividade metabólica dos tecidos. Ao administrar-se uma pequena quantidade de glicose radioativa, os tumores tornam-se visíveis (como áreas de maior consumo energético). Isso demonstra que as células cancerígenas utilizam mais glicose, mas não que o açúcar provoque cancro nem que a sua restrição possa travá-lo.

Que hidratos de carbono privilegiar?

Privilegie hidratos de carbono complexos (pão, arroz, leguminosas, cereais integrais, batata), que fornecem energia de forma sustentada e maior saciedade. A fruta e o leite incluem hidratos de carbono simples, como frutose e lactose, respetivamente, além de outros nutrientes saudáveis, como fibra, vitaminas, cálcio, etc.

Já os açúcares simples adicionados, como a sacarose, não têm interesse de um ponto de vista nutricional, pelo que é aconselhável moderar o seu consumo

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