Nuno Rico: "O nível de endividamento das famílias faz recear o impacto da subida das taxas de juro"

Publicado a 22 junho 2026

O conflito no Médio Oriente continua a pressionar as taxas de juro, devido aos receios inflacionistas gerados pela subida dos custos energéticos. Nuno Rico, economista da DECO PROteste, explica quem será afetado, quanto podem subir as prestações e o que podem fazer os consumidores para proteger o orçamento familiar.

João Ribeiro Nuno Rico

A evolução recente das taxas Euribor indica uma tendência de subida. O que está a acontecer?

Para além da inflação, uma das consequências do conflito no Médio Oriente tem-se sentido nas taxas de juro e, por consequência, na prestação da casa que muitas famílias pagam ao banco. No início do ano, existia a expectativa de estabilização ou, quando muito, de ligeira subida das taxas durante o primeiro semestre de 2026. No entanto, desde o início de março que se observa uma alteração dessa tendência.

Desde então, começou a verificar-se um movimento de subida das Euribor, que se consolidou ao longo das últimas semanas. Não se trata ainda de uma subida ao mesmo ritmo intenso da ocorrida em 2022, e é difícil prever durante quanto tempo irá durar, mas os sinais são claros. Desde o início de março, a Euribor a seis meses — o indexante mais utilizado em Portugal — já subiu mais de 18 por cento. Já a Euribor a 12 meses, o segundo indexante mais usado, registou um agravamento que ultrapassou os 26 por cento.

Quando podem as famílias sentir o impacto desta subida nas prestações do crédito à habitação?

Isso acontecerá à medida que o respetivo contrato for revisto. No caso de quem tem revisão da prestação em junho, o que vai contar é a média mensal da Euribor de maio. Se a tendência atual se mantiver, essa média deverá ser superior à da última revisão, em função da maturidade do indexante (3, 6 ou 12 meses), o que irá certamente traduzir-se num aumento da prestação.

Com a recente alteração nas taxas diretoras do Banco Central Europeu (BCE), esta tendência de subida será consolidada. Apesar da postura cautelosa demonstrada pelos responsáveis pela instituição, se o conflito se prolongar ou agravar, e se os principais indicadores económicos — como a inflação — continuarem a subir de forma significativa, nova subida poderá acontecer em próximas reuniões do BCE.

De que valores de aumento estamos a falar nas prestações da casa?

Segundo estimativas da DECO PROteste, considerando a evolução já verificada em maio, uma família com um crédito à habitação de 150 mil euros, a 30 anos, com um spread de 1% e indexado à Euribor a seis meses, poderá enfrentar um aumento de pelo menos 33 euros na prestação mensal.

A média da Euribor a 6 meses voltou a atingir os 2,5%, o que já não acontecia desde janeiro de 2025. No caso da Euribor a 12 meses, a média mensal já se aproxima dos 3%, o que significa que a prestação poderá aumentar mais de 60 euros mensais.

Se olharmos para o conjunto da carteira ativa de crédito à habitação com taxa variável em Portugal, a maior preocupação vai para os contratos mais recentes, cuja prestação média é 74% superior à média do total da carteira. Além disso, o endividamento das famílias está a subir de forma muito significativa. No último ano, subiu 38,4 milhões de euros por dia, em média, o que faz alertar sobre os possíveis impactos de uma subida das taxas de juro.

Sabia que...?

Desde o início de março, a Euribor a seis meses subiu mais de 18 por cento. Já a Euribor a 12 meses registou um agravamento que ultrapassou os 26 por cento.

Todas as famílias com crédito à habitação vão sentir este aumento?

Não necessariamente. Estes potenciais agravamentos só se aplicam a quem tem um contrato com taxa variável indexada à Euribor e apenas quando o contrato for revisto, de acordo com a maturidade do indexante.

Por exemplo, quem tiver um contrato indexado à Euribor a 12 meses e tenha tido revisão da prestação em fevereiro só voltará a ter atualização em fevereiro de 2027. Até lá, é impossível antecipar qual será a evolução das taxas de juro.

O que podem fazer os consumidores perante este cenário de incerteza?

Este é um bom momento para as famílias analisarem as condições do seu crédito à habitação e compararem com as melhores ofertas disponíveis no mercado. Essa comparação pode ser feita, por exemplo, através do simulador da DECO PROteste.

Perante um contexto de maior incerteza, optar por uma taxa mista de curto prazo — até dois anos — pode ser uma forma de proteger o orçamento familiar de eventuais aumentos significativos das prestações associados à subida da Euribor. Pode recorrer ao serviço Proteste Crédito para o ajudar neste processo.

Se o consumidor encontrar uma proposta com uma taxa nominal inferior à soma da Euribor com o spread que tem atualmente contratado, pode conseguir poupar de imediato vários euros na prestação mensal. O importante é que o consumidor seja proativo e faça esta avaliação o mais rapidamente possível, de forma a salvaguardar o orçamento familiar nestes tempos conturbados.

 

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