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Telemedicina pode ser uma solução, mas precisa de regras

As teleconsultas e a monitorização e hospitalização de doentes em casa podem ajudar a equilibrar a prestação de cuidados e facilitar o acesso por parte dos utentes, mas é preciso acautelar a confidencialidade e a eficácia do serviço.

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Fátima Ramos
29 junho 2020
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Fátima Ramos
Mão feminina a segurar um telemóvel com a imagem de um médico

iStock

Em tempo de pandemia, a teleconsulta foi dos recursos usados por médicos de família para atenderem os seus pacientes, mas também um meio para acompanhar doentes crónicos seguidos nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Este tipo de consultas integra a chamada telemedicina, que permite a interação remota, em muitos casos, através do telefone, entre os profissionais de saúde e os seus doentes, reduzindo as deslocações e facilitando o acesso a quem se encontre longe. Mas a mudança de paradigma, de presencial para “à distância”, implica questões éticas e legais, sobretudo em relação à confidencialidade dos dados.

Estudos mostram eficácia das consultas à distância 

Vários estudos têm avaliado a efetividade das consultas à distância, em comparação com o acompanhamento tradicional. Na maioria das situações avaliadas, não encontraram diferenças entre as duas abordagens. Foi o que sucedeu num estudo que avaliou a mortalidade por insuficiência cardíaca e em sete investigações sobre o tratamento de doenças mentais e abuso de substâncias. No controlo da glicemia, da pressão arterial e do colesterol, a balança parece até pesar para o lado da telemedicina.

Contudo, a aposta neste tipo de acompanhamento terá de assentar em dados que garantam que os cuidados aos doentes não são prejudicados, devendo ainda ser bem definidas as situações que podem ser acompanhadas à distância.

Alexandre Lourenço e Maria de Belém Roseira defendem regras para a teleconsulta

A telemedicina é definitivamente uma área a desenvolver, segundo Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. Para isso, defende que têm de ser criadas “regras, standards e regulamentação, e definidos os casos clínicos que podem ser tratados por esta via”, bem como prever a formação dos profissionais e capacitação das redes informáticas. “É uma área que podemos aumentar muito e que pode ser uma grande ajuda para melhorarmos a atividade, sabendo que há casos que não podem ser tratados desta forma e populações que não estão capacitadas para o efeito”, remata o responsável da associação.

Mas a falta de capacidade no domínio das tecnologias da informação e comunicação não pode excluir ninguém dos cuidados de saúde. Para Maria de Belém Roseira, presidente do Conselho Geral da Fundação para a Saúde – SNS, o Serviço Nacional de Saúde terá de ser sempre “um poderoso instrumento de combate às desigualdades” e, se o utente não estiver capacitado para beneficiar dos cuidados à distância, terá de ter garantido o atendimento de forma clássica.

“A telemedicina não é a panaceia absoluta, porque a relação médico/doente vive, sobretudo, do contacto humano presencial”, advoga Maria de Belém Roseira. Contudo, vê-a como uma forte aliada em circunstâncias extraordinárias, como as que vivemos durante a pandemia. Defende ainda que, em condições normais, pode facilitar o contacto entre profissionais, por exemplo, para a discussão de casos complexos e o seu diagnóstico, e também o atendimento de doentes, se houver vantagens ao nível do tempo de acesso, do seguimento de doença ou, mesmo, em termos ambientais e económicos, devido à redução das deslocações.

Consultas à distância no privado a que preço?

Na medicina privada, além das questões da qualidade do serviço e da privacidade dos dados, põe-se a questão do preço: este tipo de consultas deve ter o mesmo custo das presenciais? Questões a responder antes de avançar para a generalização das consultas à distância.

Doentes seguidos em casa

A monitorização de doentes em casa tem potencial para melhorar a qualidade de vida dos mesmos, quando incorporada na gestão de doenças crónicas. Há evidência do benefício deste tipo de seguimento, por exemplo, em doentes com insuficiência cardíaca. Além da melhoria das condições clínicas, os pacientes revelam melhor qualidade de vida e maior satisfação.

Em Portugal, existem vários projetos bem-sucedidos nesta área. “A própria hospitalização domiciliária, monitorizada por equipas hospitalares, também pode ser desenvolvida. Existem vários caminhos para melhorar a experiência do doente, evitando internamentos e permitindo, até, que estejam melhor acompanhados remotamente”, ajuíza o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.

A aplicação prática terá de ser avaliada caso a caso, tendo em conta critérios clínicos e a vontade do doente, mas também, se pertinente, as condições da casa em que vive e o apoio familiar que recebe. Antes de tomar a decisão, “é preciso balancear os pontos negativos e positivos”, refere Alexandre Lourenço, acrescentando: “Estou convencido que a maioria das situações cairá para o lado dos benefícios. Mas os casos terão de ser analisados pela equipa que acompanha o doente e, claro, ter autorização do próprio.”

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