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Telemedicina pode ser uma solução, mas precisa de regras

As teleconsultas e a monitorização e hospitalização de doentes em casa podem ajudar a equilibrar a prestação de cuidados e facilitar o acesso por parte dos utentes, mas é preciso acautelar a confidencialidade e a eficácia do serviço. No privado, o preço da consulta à distância é idêntico ao da presencial.

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos e Teresa Rodrigues
  • Texto
  • Fátima Ramos
02 novembro 2020
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos e Teresa Rodrigues
  • Texto
  • Fátima Ramos
Mão feminina a segurar um telemóvel com a imagem de um médico

iStock

Durante a primeira fase da pandemia, o número de teleconsultas disparou e, nalguns casos, esta opção parece ter vindo para ficar. No Serviço Nacional de Saúde (SNS), o utente não pode marcar uma teleconsulta: é o médico que a propõe. Já nas clínicas e hospitais privados, a consulta à distância surge como mais uma opção para os doentes.

Este tipo de consultas integra a chamada telemedicina, que permite a interação remota, em muitos casos, através do telefone, entre os profissionais de saúde e os seus doentes, reduzindo as deslocações e facilitando o acesso a quem se encontre longe. Mas a mudança de paradigma, de presencial para “à distância”, implica questões éticas e legais, sobretudo em relação à confidencialidade dos dados.

Estudos mostram eficácia das consultas à distância 

Vários estudos têm avaliado a efetividade das consultas à distância, em comparação com o acompanhamento tradicional. Na maioria das situações avaliadas, não encontraram diferenças entre as duas abordagens. Foi o que sucedeu num estudo que avaliou a mortalidade por insuficiência cardíaca e em sete investigações sobre o tratamento de doenças mentais e abuso de substâncias. No controlo da glicemia, da pressão arterial e do colesterol, a balança parece até pesar para o lado da telemedicina.

Contudo, a aposta neste tipo de acompanhamento terá de assentar em dados que garantam que os cuidados aos doentes não são prejudicados, devendo ainda ser bem definidas as situações que podem ser acompanhadas à distância.

Alexandre Lourenço e Maria de Belém Roseira defendem regras para a teleconsulta

A telemedicina é definitivamente uma área a desenvolver, segundo Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. Para isso, defende que têm de ser criadas “regras, standards e regulamentação, e definidos os casos clínicos que podem ser tratados por esta via”, bem como prever a formação dos profissionais e capacitação das redes informáticas. “É uma área que podemos aumentar muito e que pode ser uma grande ajuda para melhorarmos a atividade, sabendo que há casos que não podem ser tratados desta forma e populações que não estão capacitadas para o efeito”, remata o responsável da associação.

Mas a falta de capacidade no domínio das tecnologias da informação e comunicação não pode excluir ninguém dos cuidados de saúde. Para Maria de Belém Roseira, presidente do Conselho Geral da Fundação para a Saúde – SNS, o Serviço Nacional de Saúde terá de ser sempre “um poderoso instrumento de combate às desigualdades” e, se o utente não estiver capacitado para beneficiar dos cuidados à distância, terá de ter garantido o atendimento de forma clássica.

“A telemedicina não é a panaceia absoluta, porque a relação médico/doente vive, sobretudo, do contacto humano presencial”, advoga Maria de Belém Roseira. Contudo, vê-a como uma forte aliada em circunstâncias extraordinárias, como as que vivemos durante a pandemia. Defende ainda que, em condições normais, pode facilitar o contacto entre profissionais, por exemplo, para a discussão de casos complexos e o seu diagnóstico, e também o atendimento de doentes, se houver vantagens ao nível do tempo de acesso, do seguimento de doença ou, mesmo, em termos ambientais e económicos, devido à redução das deslocações.

Preço da consulta à distância idêntico ao da presencial

Na medicina privada, além das questões da qualidade do serviço e da privacidade dos dados, põe-se a questão do preço. Para conhecê-lo, em julho, telefonámos para vários hospitais e clínicas que anunciavam serviços de telemedicina, sem nos identificarmos como colaboradores da DECO PROTESTE. Conseguimos resposta de dez. A maioria disponibiliza teleconsultas para múltiplas especialidades e com preço idêntico ao das versões presenciais. A única exceção é a clínica SANFIL Medicina, que indicou cobrar 60 euros por uma teleconsulta de medicina geral e familiar, e 75 euros pela presencial.

Quisemos saber o preço de todas as especialidades disponíveis nos estabelecimentos. Quando tal não foi possível, porque, por exemplo, dispunham de muitas especialidades com custos diferentes, solicitámos o valor da de cardiologia. Nos casos em que esta não existia, forneceram o preço da teleconsulta de medicina geral e familiar.

Quanto custam as teleconsultas?
Unidade de saúde Consulta Preço (€)
Centro Médico Alegria Clínica geral 45
Hospital da Luz Todas as especialidades 90 a 93
Hospital da CUF Todas as especialidades 98
Hospital Lusíadas Cardiologia 98
Hospital Trofa Saúde Cardiologia 45
Sanfil Medicina Medicina geral e familiar 60
Grupo HPA Saúde Cardiologia 55
Hospital de Loulé Todas as especialidades 50 a 80
Joaquim Chaves Saúde Medicina geral e familiar 95
Hospital SAMS Medicina geral e familiar 50

Consultas por telefone ou via internet

A marcação da teleconsulta no privado é feita da mesma forma que a presencial: em geral, por telefoneou através das aplicações ou dos sites dos estabelecimentos de saúde

Em sete dos que contactámos, a teleconsulta só pode ocorrer se o cliente dispuser de ligação à internet e um equipamento com microfone e câmara. Em quase todos, a consulta processa-se através da plataforma online dos hospitais, que enviam ao paciente um link de acesso. O grupo HPA Saúde, o Hospital de Loulé e o Hospital SAMS indicaram que a consulta também pode decorrer por telefone.

Doentes seguidos em casa

Outra vertente da telemedicina é a monitorização de doentes em casa. Quando incorporado na gestão de doenças crónicas, este acompanhamento tem potencial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Há evidência do benefício, por exemplo, em doentes com insuficiência cardíaca. Além da melhoria das condições clínicas, os pacientes revelam melhor qualidade de vida e maior satisfação.

Em Portugal, existem vários projetos bem-sucedidos nesta área. “A própria hospitalização domiciliária, monitorizada por equipas hospitalares, também pode ser desenvolvida. Existem vários caminhos para melhorar a experiência do doente, evitando internamentos e permitindo, até, que estejam melhor acompanhados remotamente”, ajuíza o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.

A aplicação prática terá de ser avaliada caso a caso, tendo em conta critérios clínicos e a vontade do doente, mas também, se pertinente, as condições da casa em que vive e o apoio familiar que recebe. Antes de tomar a decisão, “é preciso balancear os pontos negativos e positivos”, refere Alexandre Lourenço, acrescentando: “Estou convencido que a maioria das situações cairá para o lado dos benefícios. Mas os casos terão de ser analisados pela equipa que acompanha o doente e, claro, ter autorização do próprio.”

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