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"Bilhete de identidade não define idade"

Biologicamente, estamos mais novos, assegura o cardiologista Manuel Carrageta. Apesar de desvalorizadas, muitas pessoas de idade mais avançada estão capazes de dar de si à sociedade. A outras, com múltiplas doenças, os serviços de saúde não respondem de forma eficaz. Falta aos médicos formação para tratar o doente, e não a doença.

Dr Manuel Carrageta

João Ribeiro

Manuel Carrageta, cardiologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, defende que “não é pelo bilhete de identidade que vamos determinar a idade, é pelo estado funcional”. Advoga cuidados médicos mais adaptados a uma visão conjunta de várias patologias, já que, nas pessoas de idade mais avançada, é comum encontrar múltiplas doenças em simultâneo. Apesar disso, hoje em dia, os 70 anos são os novos 60, se nos compararmos com o estado biológico de há meia centena de anos.

Continua a fazer sentido considerar uma pessoa idosa a partir dos 65 anos?

De modo nenhum. A partir dos anos 50 e 60, por cada década, a esperança de vida média aumenta dois a três anos. Há muito mais pessoas com muito mais idade. É uma sociedade envelhecida. Mas o ritmo de envelhecimento também reduziu, até mais do que o aumento da esperança de vida. As pessoas de 70 anos são aquelas que, nos anos 50 e 60, tinham 60 anos. Biologicamente, estão menos envelhecidas. Quem tem 65 anos é um reformado precoce ou prematuro. Está talvez no auge das suas capacidades, pela experiência e pelos conhecimentos. É uma perda para a sociedade. Existem profissões penosas, repetitivas, com pouca criatividade e imaginação, e muito exigentes fisicamente. Em certos empregos, até podem reformar-se mais cedo. Mas parte das atividades são feitas em escritório, a trabalhar ao computador, com máquinas, etc. Fisicamente, está-se perfeitamente capaz. Há um movimento de envelhecimento progressivo, imparável, das sociedades desenvolvidas. Os que trabalham são cada vez menos, para, no fundo, sustentar os que não o fazem, porque estão reformados, ou desempregados, ou são muito jovens. Isto vai criar problemas. Talvez seja um desperdício perder-se a experiência de pessoas de 65 ou 70 anos numa sociedade carecida de mãos para produzir. Não teriam de trabalhar o dia inteiro, mas, além do apoio aos netos, do voluntariado, etc., podiam apoiar empresas e colmatar a falta de pessoas para produzir e sustentar a sociedade. É inevitável, porque deixou de ser atrativo ter crianças. Saímos da sociedade agrícola, em que era bom ter crianças, precisávamos de braços para trabalhar. Agora, as crianças são um encargo terrível.

Qual é o caminho?

Temos de estudar a maneira de a sociedade se adaptar. Não é pelo bilhete de identidade que vamos determinar a idade: é pelo estado funcional. Se a pessoa está capaz, se tem experiência, pode ter incentivos, ter uma reforma, mas produzir mais alguma coisa e contribuir. É uma situação que vai evoluir lentamente e demorará décadas. Mas haverá uma altura em que será um imperativo, por não haver capacidade produtiva para suprir as necessidades de uma grande população.

Os serviços de saúde estão preparados para acompanhar os mais idosos?

Não estão preparados, porque os médicos estudaram por livros orientados para uma doença. As manifestações de doença em idade avançada são diferentes. Um enfarte do miocárdio aos 50 anos manifesta-se por uma dor no peito. Na maioria das pessoas de idade avançada, não há dor. Desmaiam, têm a sensação de cansaço intenso e tonturas, caem, ficam confusas, não sabem o que sentem: aquilo a que chamamos delírio, confusão mental aguda. Com uma insuficiência cardíaca, aos 50 anos, tem-se falta de ar durante o esforço. Aos 80 anos, é mais cansaço do que falta de ar. Essa pessoa não vai ao médico. Pensa que é da idade, quando a idade não é uma doença, não dá sintomas. Os médicos têm de ser chamados à atenção para estas situações, porque foram educados na doença aguda e para especialidades. Os cardiologistas sabem tudo sobre cardiologia, os nefrologistas tudo sobre o rim, mas não sabem sobre o resto. As orientações terapêuticas são baseadas em ensaios clínicos, estudos, em que são incluídos doentes com aquela doença, e excluídos os pacientes com outras doenças associadas. Ainda por cima, normalmente, excluem-se as pessoas com mais de 70 anos. Ora, com esta idade, não se tem uma única doença, mas várias. Temos de aprender a tratar várias doenças ao mesmo tempo. Os médicos sentem necessidade, sobretudo os de medicina interna e familiar, que tratam a maioria dos doentes, de aprofundar os conhecimentos em geriatria. Há doenças que surgem com o envelhecimento. Algumas até se vão controlando, como as cardiovasculares. Sabemos hoje qual é a causa de um enfarte do miocárdio ou de um AVC. Para além de a própria pessoa tomar conta de si própria e de controlar o seu estilo de vida, temos meios terapêuticos para controlar os fatores de risco e reduzir imenso a probabilidade de ocorrer uma doença cardiovascular. Mas existem patologias mais complicadas, como o cancro e as demências, que são um grande desafio. E há uma coisa de que não se fala, mas muito importante, que é o síndroma de fragilidade. São as pessoas de muita idade, que andam devagar, não conseguem levantar-se da cadeira, têm dificuldade em despir-se...

A formação médica já contempla a vertente da geriatria?

De uma forma muito, muito insuficiente. É como dizia Confúcio, não podemos mudar o vento, temos de adaptar a vela ao vento, e continuar a navegar em frente. Aqui é a mesma coisa. Temos de nos adaptar à realidade. A sociedade tem de se adaptar ao envelhecimento. O século XXI vai ser o século do envelhecimento. A medicina tem de se adaptar ao envelhecimento. E assim sucessivamente. As cidades e os transportes públicos têm de se adaptar. Tem de haver uma mudança. E quanto mais depressa for feita, mais é ajustada à realidade, e, portanto, melhor a qualidade de vida das populações.

 
"A interação social é fundamental para o envelhecimento ativo. Temos de sair da nossa zona de conforto e fazer novas atividades. Se estamos sempre no nosso conforto, não somos estimulados. Essa falta de estímulos acelera o declínio."

Os idosos são discriminados nos serviços de saúde?

Não sei. Se for perguntar às pessoas idosas, a maioria sente-se discriminada nos hospitais. A não ser verdadeiro, é preciso combater este paradigma de se sentirem negligenciadas por terem uma idade avançada. Do ponto de vista médico, penso que não é ético negar um tratamento a alguém, por mais idade que tenha, desde que esteja comprovado que é eficaz e seguro. É preciso estabelecer a diferença. Uma coisa é racionalizar a medicação e a terapêutica: sou a favor. Outra coisa é racionar a terapêutica em função da idade. Não digo que aconteça, mas garanto-lhe que a geração mais velha acredita nisso.

A Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável 2017-2025 prevê unidades para agudos, triagens adaptadas, articulação entre serviços...

Estou inteiramente de acordo com essas medidas, mas a implementação tem ficado no papel. Há um lugar ou outro em que acontece, como centros de saúde amigos das pessoas idosas, mas é mais pelo empenhamento local. Os idosos têm manifestações diferentes e precisam de cuidados mais complexos. O problema é quem vai para a urgência com uma pneumonia, com 75 anos, confuso, frágil, não tem força, etc. Beneficiava muito em ser tratado por pessoal preparado e treinado. Precisava de uma unidade de cuidados intensivos para idosos, geriátricos, que não existe. E devia começar, nem que fosse um modelo, num hospital universitário, nos principais centros, em Lisboa, no Porto, em Coimbra ou em Braga. Ou deixar os hospitais voluntariarem-se para fazerem essas unidades, que implicam investimento em recursos humanos, materiais, etc. Os médicos mais jovens, os internos, ficariam com uma formação que lhes permitiria serem mais eficazes numa consulta, num centro de saúde ou numa urgência no hospital. Criaríamos uma cultura. Aprenderíamos a tratar melhor as pessoas idosas.

O envelhecimento ativo é um conceito meramente teórico ou está a ser implementado?

O envelhecimento ativo é o envelhecimento com um estilo de vida saudável: é a atividade física diária. Recomenda-se uma marcha de meia hora, cinco dias por semana, em passo rápido. Tem de haver a tentativa de conservação da massa muscular. Devem ser feitos, duas ou três vezes por semana, durante dez minutos, exercícios de força e também de equilíbrio, por causa das quedas, e alongamentos, para manter a elasticidade das artérias. A alimentação deve ser a mediterrânica, mas com sal reduzido. E não fumar, dormir o suficiente e ter interação social. A pessoa não se pode isolar, tem de ter amigos, e fazer voluntariado, aprender uma nova língua ou a tocar um instrumento. A interação social é fundamental para o envelhecimento ativo. Temos de sair sempre da nossa zona de conforto e fazer novas atividades. Se estamos sempre no nosso conforto, não somos estimulados. Essa falta de estímulos acelera o declínio. O nosso declínio tem um plano inclinado, que pode ser na vertical, mas pode ser um planalto no Alentejo, que quase não desce nada. 

Como levamos as pessoas a ter essas atividades?

É preciso preparar a reforma e manter-se ativo. O que vejo, e está documentado, é que, ao fim de seis meses a dois anos, entra-se em depressão. É um vazio, porque o trabalho é a nossa identidade social. Somos conhecidos pelo que fazemos e começamos a sentir-nos desvalorizados, não considerados. É por isso que as pessoas têm de preparar a reforma e manter-se ativas. Verificou-se que, se as pessoas vão para o sofá, dormir e ver televisão, o risco de demência aumenta 3% ao ano. Ao fim de cinco anos, são 15 por cento. A demência é perder a independência e, sobretudo, a dignidade. Há uma desvalorização das pessoas assim que se reformam, ao contrário do que acontece nas sociedades orientais e africanas. Há muito idadismo, discriminação em função da idade. O idadismo é o preconceito mais prevalente na nossa sociedade, que faz mal às pessoas. As pessoas que são descredibilizadas, negligenciadas, desconsideradas, sofrem e degradam-se. Adoecem mais e morrem mais depressa. Deixam de ter propósito na vida. Ter propósito é fundamental. Não temos o direito de faltar ao respeito e de desconsiderar as pessoas de idade avançada. É um aspeto fundamental, é uma revolução. No Japão, que é o país com maior esperança de vida, as pessoas de idade são os sábios. 

Qual é o papel da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia nesta mudança da sociedade?

Apoiar a investigação, aprofundar os conhecimentos, formar médicos e promover a literacia da população em geral relativamente ao envelhecimento. Em 2021, elaborámos as orientações para a vacinação das pessoas idosas. São as que morrem mais de doenças infecciosas, com covid-19, gripe, pneumonias. Um plano nacional de vacinação seria muito útil. A vacinação é tão importante para os idosos como para as crianças. Temos dois milhões e 200 mil pessoas com mais de 65 anos, e um milhão e 400 mil pessoas com menos de 14 anos. A sociedade mudou. Também as vacinas se estão a adaptar à nova população e têm um papel importante no envelhecimento saudável.

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