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Prescrição social: a intervenção que vai além dos medicamentos

Em Lisboa, as unidades de saúde familiar da Baixa e Almirante põem em prática a prescrição social, projeto que visa devolver os utentes mais isolados ao contacto social, desde o exercício físico à aprendizagem, numa abordagem múltipla para aliviar perturbações de saúde mental.

Prescrição social

Enric Vives-Rubio e José Fernandes/4See

Levadas pelo pedalar ágil e seguro de Amos Panesse, voluntário indonésio a residir em Portugal há cerca de um ano, Augusta Luís e Maria Pires, ambas septuagenárias, quebram a rotina e rendem-se ao trishaw e ao mote da associação Pedalar Sem Idade: pelo direito ao vento nos cabelos. Ambas viúvas, uma há nove meses, outra desde 2017, cultivam uma amizade antiga, desde os anos 70, quando Augusta Luís, vinda de Timor, se mudou para Lisboa. Em matizes diferentes, a solidão acomete-as. Um sintoma identificado na Unidade de Saúde Familiar (USF) da Baixa, e perante o qual o circuito da prescrição social se põe em marcha. Na comunidade, uma das respostas é a associação sem fins lucrativos Pedalar Sem Idade, que oferece passeios a idosos e com mobilidade reduzida, alinhando-se na filosofia do envelhecimento ativo. Esta é uma das histórias que ilustram muitas outras ouvidas nas unidades de saúde familiar da Baixa e Almirante, na capital, e em relação às quais estes profissionais de saúde tentam obter uma resposta na prescrição social. 

À entrada da USF da Baixa, em Lisboa, por onde entram utentes de 95 nacionalidades, na maior concentração de imigrantes da capital, pode ler-se a mensagem, generalizada desde o início da pandemia: “Se tem tosse, febre, falta de ar, alterações no paladar e no cheiro, por favor, volte para casa...” O mesmo se lê em bengali, hindi, mandarim e inglês. O multilinguismo enraíza numa babel cultural concentrada num dos espaços históricos mais emblemáticos de Lisboa, espraiada desde o final da Avenida Almirante Reis até ao Cais das Colunas, à beira Tejo. Subindo algumas centenas de metros, no mesmo passeio, a paisagem humana muda, e os rostos, predominantemente lusos, envelhecem. Ao longo desta faixa citadina heterogénea, a abordagem da prescrição social, observando o indivíduo na plenitude, extravasa a medicina, com ganhos em saúde. Cingida ainda a duas unidades, mas com várias interessadas em mimetizar o projeto, Mariana Oliveira, coordenadora da USF Almirante, não hesita: “A prescrição social justifica-se em todo o lado.”

 
Conheceram-se no Clube da Gravidez, em Lisboa, criado por Kamal Bhattarai. Rita Aryal, em cima, partilha a sua experiência com grávidas a viver há pouco tempo no País. Gita Maharjan, em baixo, grávida, encontra a bússola num país ainda estranho.

Prescrição social facilita integração

Rita Aryal e Gita Maharjan têm em comum o Nepal como território de origem, mas separa-as, tanto como as une, a maternidade. A primeira já foi mãe em terras portuguesas. A segunda debate-se com as aflições da primeira gravidez num país estranho. No Clube da Gravidez, no Martim Moniz, a poucos minutos a pé da USF da Baixa, nos idiomas nativos, trocam saberes e preenchem solidões e desenraizamentos, num grupo feminino oriundo de países como Índia, Paquistão, Bangladesh ou Nepal. É o conhecimento a desocupar dúvidas. Os serviços são gratuitos. Só em 2021, mais de 60 gestantes chegaram a este local referenciadas por profissionais daquela unidade de saúde, sob a batuta da prescrição social, projeto iniciado em 2018 e que propõe suprir o isolamento, ditado, neste caso, pela barreira linguística e pela desadaptação. Sara Caldas, enfermeira na USF da Baixa e especialista em saúde materna, não duvida: “A prescrição social facilitou a integração das mulheres imigrantes. Vêm sem família e, de certa forma, estão restritas ao marido. A rede de parcerias ajudou a que a população tivesse mais respostas em certas situações.” Kamal Bhattarai, nepalês, é o rosto do Clube da Gravidez, integrado na NIALP (Nepalese Intercultural Association Lisboa, Portugal), um em dezenas de parceiros que disseminam a prescrição social.

A saúde ao encontro da comunidade

Uma simples ferramenta informática entrelaça os intervenientes no projeto da prescrição social − médicos de família, enfermeiros, assistentes sociais e entidades que recebem utentes com sinais de isolamento e perturbações de saúde mental, como depressão. De forma inédita, é a saúde que “vai ao encontro da comunidade”, salienta Andreia Coelho, assistente social na USF da Baixa. “A prescrição social tem mais-valias, para além da nossa intervenção. É uma ação muito concertada desde o momento em que o utente chega. Fazemos um plano de intervenção, no qual há um alargamento das respostas biopsicossociais. A ideia não é uma intervenção biomédica. É uma resposta não médica, que vê o utente na sua plenitude. O médico até pode receitar algum medicamento, mas encaminharmos o utente para fazer voluntariado, por exemplo, no Jardim Botânico de Lisboa, ajudará a resolver a depressão. Pode reduzir a utilização de medicação, a sobreutilização dos serviços de saúde, das urgências, etc. Temos ganhos em saúde, para o utente e para o Sistema Nacional de Saúde”, explica. O colega de profissão, Diogo Silva, complementa: “Através dos parceiros da comunidade e do diagnóstico social, o objetivo é termos um outcome [resultado] em que consigamos complementar os graus de satisfação do utente, para haver melhorias no estado social e clínico.”

 
Da USF da Baixa. Sara Caldas (1) – enfermeira –, Andreia Coelho (2) e Diogo Silva (3) – assistentes sociais – e Martino Gliozzi (4) – médico de família e coordenador. Da USF Almirante, Paula Massano (5) – assistente social – e Mariana Oliveira (6) – médica de família e coordenadora.

Martino Gliozzi, coordenador da USF da Baixa, não vacila quando calcula que “em cerca de metade das consultas não há uma solução médica. A solução é social. A prescrição social diminuiu a frustração da equipa que, às vezes, tem à frente problemas sociais e não pode resolvê-los com medicamentos. E mudou a forma como as pessoas olham para a saúde. Perceberam que resolver a parte social tem impacto na saúde mental e física. Foi um empowerment [empoderamento]”. Paula Massano, assistente social na USF Almirante, alinha: “Uma vantagem é o modelo e o envolvimento dos profissionais de saúde no serviço social. Sabemos que muitas das situações que levam à consulta de saúde são sociais.”

Utente tem de acreditar no projeto para não desistir

A prescrição social ativou as respostas dos parceiros da comunidade e estruturou-as. “Fazemos a diferença. Enquanto médicos de família, sempre tivemos uma visão holística da pessoa. Mas, agora, perante um doente com sinais de isolamento, conhecemos efetivamente associações que podem funcionar como uma espécie de comprimido mágico, diferente daquilo que tínhamos antes”, afirma Mariana Oliveira, coordenadora da USF Almirante. Embora, como reforça Paula Massano, que referenciou já cerca de 200 utentes desde o início do projeto, em 2019: “É preciso que a pessoa se identifique com o projeto e perceba a mais-valia, senão desiste.” Opinião partilhada por Andreia Coelho: “O utente tem sempre de concordar e ser um pouco agente do seu próprio plano.”

As desistências fazem parte da hesitação de muitos utentes com sintomas depressivos e com parcas estratégias para descolar dos seus labirintos. A arte está em aliciá-los e retê-los. Teatros, museus, associações de valências numerosas, juntas de freguesia, centros de dia, instituições particulares de solidariedade social – IPSS – (26, no total) estendem a mão para apoio logístico, aprendizagens, experiências e voluntariado. A intervenção ultrapassa a busca de equilíbrios na saúde mental pelo cimentar dos laços sociais. Materializam-se igualmente soluções logísticas e económicas. Um leite específico para um bebé fornecido por várias associações ou o reforço das competências linguísticas para encontrar emprego, necessidades assentes em casos de vulnerabilidade financeira e social, mudam vidas. Por afinar está a compreensão mais cabal do sucesso ou insucesso da experiência dos utentes na comunidade, ao qual não é alheia a pandemia, que impôs um compasso de espera.

Quase 500 utentes alvo de prescrição social

A Escola Nacional de Saúde Pública, no âmbito do Grupo de Investigação para a Implementação e Avaliação da Prescrição Social, e sob a batuta de Sónia Dias, Cristiano Figueiredo (mentor do projeto e médico de família na USF da Baixa) e Louíse Hoffmeister, estuda e estrutura os números, validando um corpo teórico sobre os benefícios da prescrição social. Entre setembro de 2018 e fevereiro de 2021, realizaram-se 495 referenciações por profissionais de saúde das USF da Baixa e USF Almirante. Os utentes são maioritariamente do sexo feminino (67,7%) e migrantes (39,2%), de mais de 22 nacionalidades. Alargar a prescrição social ao resto do País é a pretensão. Algumas unidades estão a caminho e o Health Parliament Portugal, que reúne ideias para renovar o Serviço Nacional de Saúde (SNS), é um defensor deste modelo, que assegura boas doses de âncoras na comunidade.

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