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Três rastreios de cancro que salvam vidas

Cancro da mama, do colo do útero e do cólon e reto são os rastreios previstos no Programa Nacional de Doenças Oncológicas. O objetivo é detetar a doença em fases precoces, quando o tratamento é mais efetivo, e reduzir a mortalidade. Saiba para quem e quando estão recomendados. 

  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Fátima Ramos
04 fevereiro 2021
  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Fátima Ramos
Folha de registo clínico com estetoscópio e laço azul em cima

iStock

Rastrear, em medicina, significa testar indivíduos sem sintomas, aparentemente saudáveis, em busca de alterações que podem ser sinal de doença, o cancro, no caso dos rastreios oncológicos. O objetivo é simples: detetar numa fase precoce, altura em que a eficácia do tratamento é maior, e, assim, reduzir a mortalidade. Pode ainda permitir o combate com terapias menos agressivas do que numa fase mais tardia, quando os sinais se manifestam. Nalguns casos, é possível detetar lesões pré-cancerígenas, por exemplo, no colo do útero e no cólon, e impedir o desenvolvimento do cancro.

Rastreio de cancro com condições

A implementação de um programa de rastreio exige pressupostos: o problema de saúde tem de ser grave, atingir um grande número de pessoas e ser tratável ou curável. A forma como a doença evolui deve ser bem conhecida e haver a possibilidade de identificá-la na fase assintomática.

Ao teste de rastreio, exige-se que seja seguro, fácil de aplicar e tenha elevada sensibilidade e especificidade, isto é, que apresente resultados o mais precisos possível, com poucos falsos negativos (a pessoa está doente, mas o teste dá negativo) e falsos positivos (não há doença, mas o teste dá positivo). É ainda imprescindível que seja bem aceite pela população, por exemplo, em termos de desconforto, dor e frequência.

Feito o exame, todos os casos positivos devem ter acesso à consulta hospitalar, aos exames de diagnóstico e ao tratamento adequado. De nada serve detetar, se não houver capacidade para tratar. Por fim, o custo deve ser economicamente equilibrado.

Reúnem estas condições os três rastreios recomendados em Portugal: cancro da mama, do colo do útero e colorretal. Estão indicados para a população geral, a partir de certa idade. Se, fora dos intervalos aconselhados, houver sintomas ou fatores de risco, como casos de doença na família, o médico dará orientações sobre a vigilância a efetuar.

Rastreio do cancro do colo do útero
Está indicado para mulheres entre os 25 e os 60 anos. Não entram no rastreio as que já têm cancro do colo do útero diagnosticado ou aquelas a quem já tenha sido removido este órgão. O exame também não é recomendado para quem apresente sintomas de doenças ginecológicas, enquanto os mesmos durarem.

Qual é o exame e como é avaliado?

O rastreio é feito através de citologia, também conhecida por teste de Papanicolau, a cada cinco anos. O exame consiste na pesquisa de variantes, os chamados serótipos, do vírus do papiloma humano (VPH ou HPV, na sigla inglesa), associadas a alterações celulares que favorecem o cancro. Se a pesquisa for positiva para os serótipos 16 e 18, a mulher será encaminhada para a consulta especializada (patologia cervical). Se forem detetados outros serótipos, deve ser realizada nova citologia. As utentes com teste negativo, mas que tenham tido um anterior positivo, devem repetir passado um ano. Nos restantes casos, recomenda-se novo exame após cinco anos.

Dados sobre o rastreio ao nível nacional

O Relatório Anual de Acesso aos Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas 2019 revela que houve rastreio em todo o território nacional, com exceção da Região Autónoma da Madeira. Este é, dos três rastreios recomendados, o que tem maior adesão da população: em 2019, foram convidadas 288 695 mulheres, das quais 253 884 (88%) fizeram o exame. Foram detetados 12 565 casos positivos.

Rastreio do cancro do cólon e reto

Destina-se a homens e mulheres entre os 50 e os 74 anos. Estão excluídos do programa de rastreio os utentes a quem foi diagnosticado cancro do cólon e reto, doença inflamatória intestinal ou síndromes hereditárias relacionadas com o cancro do cólon e reto. Também não deverá fazer o exame quem tem queixas gastrointestinais, nomeadamente, alterações significativas do trânsito gastrointestinal nos últimos seis meses, ou hemorragia digestiva. Caso tenha feito uma colonoscopia nos últimos dez anos, ou uma retossigmoidoscopia (semelhante à colonoscopia, mas apenas para a parte final do intestino), nos últimos cinco anos, com resultados normais, também está dispensado do rastreio.

Qual é o exame e como é avaliado?

O rastreio é feito através da pesquisa de sangue oculto na fezes, a cada dois anos. Se o resultado for positivo, o utente deve realizar uma colonoscopia − um tubo munido de câmara permite visualizar o intestino e, se necessário, retirar pequenas porções para análise.

Dados sobre o rastreio ao nível nacional

Segundo dados do Relatório Anual de Acesso aos Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas 2019, a cobertura geográfica do rastreio do cancro do cólon e do reto aumentou consideravelmente entre 2017 e 2019, mas a taxa de adesão ainda é baixa: dos 396 105 utentes convidados, apenas 127 330 (32%) realizaram o exame, tendo-se registado 92 casos positivos.

Rastreio do cancro da mama

Destina-se a mulheres entre os 50 e os 69 anos. Ficam de fora as que já tenham um diagnóstico de cancro da mama ou tenham feito uma mastectomia (extração da mama ou de parte dela por cirurgia), as que tenham feito uma mamografia nos últimos dois anos com resultado negativo e as que tenham próteses mamárias. Se houver uma inflamação na zona da mama, a mulher também não deve ser submetida ao exame.

Qual é o exame e como é avaliado?

O rastreio é feito através de mamografia a cada dois anos. Os resultados são apresentados de acordo com um protocolo internacional de avaliação de mamografia, o chamado BI-RADS (do inglês Breast Imaging Reporting and Database System Score). Se o resultado for negativo (BI-RADS 1 e 2), há que fazer novo exame após dois anos. Caso haja algum sinal suspeito (BI-RADS 3), a mulher é encaminhada para uma consulta de aferição dos resultados. Sendo positivos (BI-RADS 4 e 5), segue-se a consulta especializada (patologia mamária).

Dados sobre o rastreio ao nível nacional

Em 2019, de acordo com o Relatório Anual de Acesso aos Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas, apenas a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo não tinha o rastreio a funcionar em todos os agrupamentos de centros de saúde. Ao nível nacional, foram convidadas 552 322 mulheres para o rastreio no Serviço Nacional de Saúde, das quais 357 332 (65%) o realizaram. Registaram-se 1626 positivos.

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