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Produtos para a queda de cabelo: as promessas em que não deve acreditar

Suplementos alimentares e produtos cosméticos como champôs, loções e ampolas prometem travar a queda, estimular o crescimento e devolver densidade ao cabelo, entre outros benefícios. Mas terão mesmo essa capacidade, ou aliciam os consumidores com efeitos que dificilmente conseguem atingir? Saiba do que deve desconfiar ao ler os rótulos.

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18 maio 2026
Homem sem cabelo

iStock

A DECO PROteste analisou a rotulagem de nove suplementos alimentares comercializados como sendo para a queda de cabelo, que, em janeiro, eram mais frequentes em lojas especializadas e generalistas portuguesas. Os preços variam entre 12 e 58 euros por embalagem de 30 cápsulas ou ampolas.

De acordo com a organização de consumidores, apenas dois desses produtos cumprem a lei ao nível da rotulagem: Cistitone Forte BD e Phyto Phytophanere Cabelo & Unhas. Estes limitam‑se a alegações autorizadas pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) para alguns micronutrientes, como a biotina, a vitamina B6 e o zinco, presentes na respetiva composição.

 
Cistitone Forte BD e Phyto Phytophanere Cabelo & Unhas não fazem alegações de eficácia não autorizadas.
 Nos restantes sete, segundo a DECO PROteste, a fronteira da legalidade é ultrapassada. 

A questão legal dos produtos para a queda de cabelo

Os suplementos alimentares enquadram‑se na categoria de alimentos e, como tal, são regulados pela legislação alimentar europeia. Apesar das várias promessas, não podem fazer referência a problemas de saúde ou afirmar que têm um efeito terapêutico. Também não podem sugerir que a sua ação pode modificar o funcionamento do organismo – por exemplo, reverter a queda de cabelo. Todas estas afirmações são incorretas e ilegais.

A União Europeia permite as seguintes alegações para cabelo, pele e unhas:

  • biotina – contribui para a manutenção do cabelo normal;
  • cobre – contribui para a pigmentação normal do cabelo;
  • niacina (vitamina B3) – contribui para a manutenção de pele normal;
  • selénio – contribui para a manutenção do cabelo e unhas normais;
  • vitamina B2 – contribui para a manutenção de pele normal;
  • vitamina B6 – contribui para a síntese normal de cisteína;
  • vitamina C – contribui para a formação normal de colagénio para o funcionamento normal da pele, contribui para a proteção das células contra o stress oxidativo e aumenta da absorção de ferro;
  • zinco – contribui para a manutenção do cabelo, pele e unhas normais.

Qualquer alegação relacionada com plantas, atualmente, não está autorizada.

Algumas das substâncias encontradas nos suplementos alimentares analisados, como a saw palmetto ou a boswellia, encontram-se numa lista de avaliação pendente. De acordo com um acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia, enquanto a EFSA não emitir um parecer final, estas alegações não podem ser utilizadas nos produtos. Foi o critério que a DECO PROteste utilizou na análise dos rótulos.

Quanto aos produtos cosméticos, como champôs, loções ou ampolas, a legislação europeia é clara: o efeito destes produtos consiste apenas em melhorar a aparência estética do cabelo. É possível que a condição do cabelo melhore, por exemplo, tornando-se mais fácil de pentear, mais robusto, mais hidratado, mais elástico ou menos quebradiço. Mas não mais do que isso.

7 promessas que não deveriam ser feitas

Conheça, a seguir, os tipos de alegações não autorizadas encontrados nos sete suplementos alimentares que não cumprem as regras da EFSA.

 
Os produtos à margem da lei: ArkoPharma Forcapil Antiqueda, Bailleul Ecophane, Ducray Anacaps Expert, Ducray Anacaps Reactiv, Isdin Haircare Lambdapil Antiqueda, Klorane KeratinCaps e Olistic Next Hair Nourishing Supplement. 

1. Efeito antiqueda

  • ArkoPharma Forcapil Antiqueda
  • Isdin Haircare Lambdapil Antiqueda
  • Ducray Anacaps Expert

2. Reforço/aumento da força do cabelo

  • ArkoPharma Forcapil Antiqueda
  • Ducray Anacaps Reactiv
  • Klorane KeratinCaps

3. Aumento da energia do cabelo

  • Klorane KeratinCaps

4. Crescimento do cabelo

  • Bailleul Ecophane
  • Ducray Anacaps Reactiv
  • Olistic Next Hair Nourishing Supplement

4. Nutrição do bolbo capilar

  • Klorane KeratinCaps

5. Promoção do bem-estar/da saúde do cabelo

  • Olistic Next Hair Nourishing Supplement

6. Aumento da longevidade do cabelo

  • Olistic Next Hair Nourishing Supplement

7. Alegações ligadas a plantas específicas

  • ArkoPharma Forcapil Antiqueda: avenca e cavalinha
  • Ducray Anacaps Expert: cabelo-de-vénus (ou avenca)
  • Ducray Anacaps Reactiv: mirtilo
  • Olistic Next Hair Nourishing Supplement: ashwagandha (o uso desta planta foi proibido na Dinamarca, por ser uma substância potencialmente perigosa para a saúde humana), boswellia, cavalinha, palmeira-anã (saw palmetto), salvia officinalis

Do que são feitos os produtos antiqueda de cabelo?

Apesar da variedade de marcas e formas de apresentação dos suplementos alimentares que se posicionam como antiqueda de cabelo, os ingredientes destes produtos não diferem muito.

As substâncias dividem‑se em três grandes categorias:

  • micronutrientes – vitaminas (do complexo B, como ácido fólico, biotina, niacina ou B3, vitaminas C, D ou E), minerais (cobre, ferro, selénio, silício ou zinco) e aminoácidos (cisteína ou metionina);
  • extratos de origem vegetal – palmeira-anã ou saw palmetto, sementes de abóbora, milhete ou millet, sementes de uva, chá verde, mirtilo, etc.;
  • complexos patenteados – combinam nutrientes básicos e extratos botânicos, apresentando‑os numa fórmula que pode fazer parecer que o produto é algo mais do que um simples suplemento multivitamínico.

Porque não funcionam os produtos para a queda de cabelo?

O tipo de calvície mais comum, sobretudo nos homens, é a alopecia androgénica, de origem genética. São raros os casos em que a queda de cabelo está diretamente associada a défices nutricionais. Com estes dados, percebe-se que as situações em que os suplementos alimentares ou os produtos cosméticos podem ser úteis são muito limitadas.

Além disso, não existem evidências claras de que a suplementação com estes nutrientes e extratos vegetais possa ajudar quem sofre de queda de cabelo por diferentes motivos.

DECO PROteste reivindica maior fiscalização dos produtos para a queda de cabelo

Susana Santos, responsável pelo estudo da DECO PROteste, considera que as mensagens que “proliferam” nestes produtos "criam expectativas irrealistas”. Segundo a especialista, as marcas “aproveitam a vulnerabilidade de quem procura solução para um problema, muitas vezes, angustiante”.

“É urgente reforçar a fiscalização e proteger os consumidores de promessas infundadas”, defende Susana Santos, motivo pelo qual a DECO PROteste “reportou” os resultados da análise aos rótulos dos suplementos alimentares à Direção-Geral de Alimentação e Veterinária.

A responsável lembra ainda que o processo de autorização, por parte da EFSA, de alegações de saúde em suplementos alimentares à base de plantas está parado há mais de dez anos. “Urge finalizar esse processo, de modo que as regras sejam claras para todos”, sublinha Susana Santos.

Segundo a responsável, “o problema não é apenas de comunicação”. Na Dinamarca, o uso de ashwagandha, presente num dos suplementos alimentares analisados (Olistic), foi proibido, devido a possíveis efeitos no sistema endócrino, no fígado e na saúde reprodutiva, incluindo risco de aborto. A substância está agora sob avaliação europeia.

 

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