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Reduflação: produtos mais caros, mas com menos quantidade

Algumas marcas reduziram a quantidade de produto nas embalagens, mas o preço não baixou. Em alguns casos até subiu. A prática não é fraude, mas deve ser claramente comunicada aos consumidores.

11 novembro 2022
embalagens de planta original creme para barrar com 400 g e 450 g

João Ribeiro

Já alguma vez ficou com a impressão de que a embalagem de margarina que habitualmente comprava está a acabar mais depressa? Pode não ser apenas uma suspeita ou gula durante as refeições. Algumas marcas reduziram mesmo a quantidade de produto nas suas embalagens. Mas, no supermercado, o consumidor está a pagar o mesmo ou até mais por uma menor quantidade de produto.

Entre o final de fevereiro e o início de novembro, o preço de um cabaz alimentar de bens essenciais já aumentou mais de 25 euros (cerca de 14 por cento). Em alguns bens alimentares, o aumento de preços já ultrapassou os 40% no mesmo período, um sinal evidente da subida da taxa de inflação nos últimos meses. Em outubro, a inflação atingiu níveis históricos e chegou aos 10,1% em Portugal, segundo o INE, e aos 10,7% na zona euro, de acordo com o Eurostat. 

Os consumidores têm sido, como em todas a crises, os primeiros a sentir o impacto da volatilidade do mercado na carteira. No entanto, o aumento generalizado de preços nem sempre é visível ou direto e poderá ser ainda maior do que é percecionado pelos consumidores. É que algumas marcas estão a reduzir o tamanho das suas embalagens e a cobrar o mesmo, ou até mais, por uma menor quantidade de produto. Nos últimos tempos têm surgido muitos exemplos desta prática no comércio em Portugal.

Produtos mais caros, mas com menos quantidade

A prática não é nova e chama-se reduflação. Reduzir a quantidade de produto nas embalagens mantendo o preço – ou até aumentando – é uma estratégia da indústria em períodos de inflação. Fazê-lo não é fraude, se a informação no rótulo do produto e na etiqueta do preço estiver correta, mas traduz-se num aumento de preços que pode passar despercebido e é suscetível de poder induzir os consumidores em erro.

Aumento de preço na Planta Original acima dos 20%

Um dos exemplos que encontrámos foi o da Planta Original Creme para Barrar. A 1 de março deste ano, ainda com uma embalagem de 450 gramas, este produto custava 3,19 euros nas lojas online da Auchan, do Continente e do Minipreço. Na loja online do Pingo Doce estava à venda por 2,39 euros.

 
A 1 de março deste ano, o Planta Original Creme para Barrar tinha 450 gramas.

No entanto, a 1 de novembro, a embalagem tinha já menos 50 gramas de produto e estava mais cara. Nas lojas online da Auchan, do Continente e do Minipreço, uma embalagem de Planta Original Creme para Barrar de 400 gramas custava 3,49 euros, o que se traduz numa subida real de 23,2% face a 1 de março. Na loja online do Pingo Doce, a 1 de novembro, o preço estava em 2,79 euros, o que, na realidade, corresponde a 31,38% de aumento em relação a 1 de março deste ano. 

Um observador menos atento, que não tivesse em conta a redução de 50 gramas no peso da embalagem, iria pensar, erradamente, que, a 1 de novembro, este produto estava mais caro 9,4% nas lojas online da Auchan, Continente e Minipreço, e 16,74% no Pingo Doce online.

 
As embalagens do creme vegetal para barrar têm atualmente menos 50 gramas, mas o preço não diminuiu.

Nesquik Achocolatado em pó com menos 10 gramas

O Nesquik Achocolatado em pó é outro exemplo. Este produto tinha, a 1 de março deste ano, uma embalagem de 400 gramas que custava 2,29 euros nas lojas online do Continente, do Minipreço e do Pingo Doce. Na loja online da Auchan este produto era vendido, nesta data, por 3,09 euros.

 
A 1 de março, o Nesquik Achocolatado em pó tinha uma embalagem com 400 gramas de produto. Atualmente, são 390 gramas.

A 1 de novembro, porém, as embalagens de Nesquik Achocolatado em pó já tinham 390 gramas, ou seja, menos 10 gramas do que anteriormente, e estavam mais caras. No início deste mês, nas lojas online da Auchan e do Continente, este produto estava à venda por 3,29 euros. No Minipreço custava 2,74 euros e no Pingo Doce custava 2,29 euros. Na prática, tendo em conta a alteração da embalagem, estes preços representam uma subida de 2,62% no Pingo Doce, de 9,06% na Auchan, de 22,71% no Minipreço e de 47,16% no Continente, em comparação com os preços praticados a 1 de março deste ano.

Comparando os preços do produto nas duas datas, sem considerar a redução de 10 gramas no peso da embalagem, erradamente, diríamos que o preço se tinha mantido na loja online do Pingo Doce, e teria aumentado 6,47% na da Auchan, 19,65% na do Minipreço e 43,67% na do Continente.

 
Comparando o preço em março com o preço em novembro, sem ter em conta a redução do peso, teríamos um aumento de 43,67% nesta embalagem de Nesquik Achocolatado em pó.

Reduflação não é fraude, mas nem sempre é transparente

Desde que a quantidade efetiva não seja inferior àquela que é anunciada no rótulo da embalagem do produto, nem àquela que consta no preço de venda afixado no estabelecimento comercial, não há nada de fraudulento nesta prática. Diferente seria, por exemplo, comunicar um quilo de produto e a embalagem vendida ter apenas 900 gramas, o que seria uma fraude.

Embora a reduflação não seja, em si mesma, uma prática ilegal, numa altura de subida generalizada de preços (inflação), a diminuição da quantidade de produto, mantendo ou aumentando o preço, é entendida como uma estratégia usada pelos fabricantes para "mascarar" a subida de preços, fazendo com que pareça menor do que na realidade é.

A DECO PROTESTE exige maior transparência para que este tipo de práticas se torne mais percetível para os consumidores. A alteração de componentes do produto mantendo o preço deve ser claramente comunicada pelas marcas para que os consumidores percebam, de forma transparente, o que estão a comprar. Continuaremos a acompanhar este tema e, enquanto organização de defesa do consumidor, daremos o devido seguimento às denúncias que os consumidores nos façam chegar relativamente a este tipo de práticas.

Planeie as idas ao supermercado

Para poupar nas idas ao supermercado, o mais importante é planear. Se quer evitar comprar um produto alvo de reduflação, analise bem os preços por litro, quilo ou unidade. Nem sempre os produtos que parecem mais baratos são os que têm os preços mais baixos. Para conseguir poupar ainda mais nas suas compras, aceda ao simulador de preços dos supermercados online e saiba qual o mais barato no seu concelho.

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