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Portugueses querem União Europeia mais forte, mas não a qualquer preço

Um inquérito realizado em dez países europeus revela cidadãos mais exigentes: querem liderança global, comércio aberto e autonomia estratégica. No entanto, recusam comprometer a qualidade dos produtos ou agravar o custo de vida. Os portugueses estão entre os mais pessimistas.

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28 abril 2026
Homem com um tablet na mão em frente a um edifício com bandeiras da união europeia

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Os portugueses anseiam por uma União Europeia (UE) mais forte, autónoma e influente no mundo. Deixam um aviso claro, contudo. Essa ambição não pode ser feita à custa do poder de compra nem da qualidade dos produtos.

Esta é a principal conclusão de um inquérito promovido pela Euroconsumers, um grupo de organizações de consumidores europeias do qual a DECO PROteste faz parte. Foram ouvidas, em fevereiro de 2026, as vozes de cidadãos de dez países: Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Hungria, Irlanda, Itália, Polónia e Portugal.

O estudo, que contou com cerca de dez mil participantes, 1010 dos quais portugueses, traça o retrato de consumidores cada vez mais atentos ao impacto da geopolítica no seu quotidiano.

Os cidadãos mostram-se alinhados com os valores europeus, mas apreensivos quanto ao futuro. Exigem uma atuação mais assertiva de Bruxelas, enquanto mantêm uma postura pragmática em relação ao comércio e às relações internacionais.

O inquérito foi realizado entre 19 e 23 de fevereiro, apenas alguns dias antes do início do conflito entre os EUA e o Irão. A eventual influência desta crise na opinião dos cidadãos não está refletida nos resultados do estudo.

União Europeia altamente respeitada, mas com influência global enfraquecida

Os dados demonstram que a esmagadora maioria dos portugueses vê a UE como um forte protagonista na ordem mundial. Oito em cada dez consideram-na uma grande potência económica e uma força política de referência ao nível global. Bastante acima da média europeia, que se situa em torno dos 60 por cento.

Três quartos dos portugueses que responderam ao inquérito acreditam que a UE oferece um espaço de elevada qualidade de vida, quando comparado com outras regiões do mundo.

Ainda assim, essa perceção não se traduz plenamente em influência internacional. Apenas 48% dos inquiridos lusos consideram que a UE tem verdadeiro peso militar, embora substancialmente acima da média europeia, que é de 36 por cento.

Muitos entendem que a UE teve falhas na forma como lidou com crises internacionais recentes: 48% acham que não esteve ao nível do exigido na Ucrânia e 72% na Faixa de Gaza.

No caso dos Estados Unidos da América (EUA), apenas 38% dos portugueses se reveem na forma como a UE tem lidado com as políticas da administração de Donald Trump.

A maioria acredita, no entanto, que o problema vem de dentro: 72% dos inquiridos consideram que a divisão política entre os Estados-membros mina a influência da UE no mundo.

Relação com os Estados Unidos da América perde centralidade

O inquérito revela uma mudança significativa na perceção da relação com os EUA. Apenas 22% dos inquiridos portugueses acreditam que este país continuará a ser um parceiro fiável, enquanto cerca de metade defende que a UE deve procurar novas alianças.

Analisando os dados de cada país, observa-se que Portugal e Bélgica estão entre os países mais céticos quanto ao futuro da aliança com os EUA. A maior aceitação vem da Polónia, onde 38% dos inquiridos confiam na parceria. 

Tarifas como arma política

Mais de três quartos dos inquiridos lusos consideram que a ameaça das tarifas dos EUA sobre a UE não tem objetivos puramente económicos, servindo antes como um instrumento de pressão política.

A estratégia dos cidadãos é clara: 73% defendem que a UE deve responder com medidas equivalentes. Os húngaros são os menos recetivos: pouco mais de metade apoiaria esta medida.

Quase 60% dos portugueses têm a perceção de que as tarifas tiveram um impacto negativo no custo de vida para as suas famílias, e 72% consideram que os efeitos se estenderam também às economias nacionais.

Como consequência, metade afirma ter reduzido ou mesmo deixado de comprar produtos de origem norte-americana. Portugal é, aliás, apenas ultrapassado nesta tendência pela Dinamarca (55 por cento). Hungria (24%) e Polónia (36%) são os países onde menos se sente este efeito.

Numa negociação com os EUA com vista à eliminação das tarifas, 44% dos inquiridos portugueses consideram que a UE poderia ceder nas restrições ligadas ao ambiente, muitas vezes apontadas como uma desvantagem pelas companhias americanas que operam na Europa.

No entanto, quando se trata da legislação ligada à segurança alimentar e digital, menos de 30% dos cidadãos estão dispostos a ceder

Portugueses entre os mais preocupados com a instabilidade

Embora muitos europeus sintam que os conflitos internacionais ainda têm impacto limitado no quotidiano, o pessimismo quanto ao futuro é generalizado.

Mais de oito em cada dez portugueses antecipam um agravamento do custo de vida. Tão pessimistas quanto a este aspeto só os irlandeses (81 por cento).

Os portugueses são ainda os que mais preveem um agravamento do estado geral do mundo (78%), a par dos franceses (77 por cento).

A possibilidade de a UE entrar em guerra no espaço de três anos também preocupa muitos. Quatro em cada dez portugueses acreditam que tal pode acontecer com a Rússia, ou até mesmo numa guerra mundial. Cerca de 20% acreditam ser possível uma guerra entre os EUA e a UE.

Os inquiridos lusos são os que mais acreditam numa guerra mundial a curto prazo. Os polacos são os mais inclinados para uma guerra entre a UE e a Rússia (45 por cento). Na maioria dos países do estudo, uma guerra entre a UE e os EUA está no horizonte de um quinto dos inquiridos. 

Solidariedade existe, mas com limites económicos

Perante tensões geopolíticas, os portugueses demonstram solidariedade: 73% apoiam a Dinamarca e a Gronelândia contra os EUA, mesmo que tal tenha um impacto económico, como o aumento do preço dos bens e dos serviços.

Quase oito em cada dez consideram ainda que eventuais sanções dos EUA a qualquer Estado-membro representam um ato hostil contra a UE como um todo.

Ainda assim, 47% consideram que a estabilidade económica nacional deve prevalecer sobre a solidariedade política, o que parece indicar que muitos cidadãos estão disponíveis para apoiar uma UE mais assertiva, mas esperam contrapartidas concretas que protejam as suas condições de vida.

Relações comerciais mais abertas, de preferência com os mesmos padrões de qualidade

O comércio internacional surge como um pilar central para os consumidores, tanto pela dimensão económica como estratégica.

A maioria dos portugueses reconhece que os acordos comerciais com países extracomunitários permitem aceder a mais produtos e a melhores preços (70%), bem como reforçar parcerias internacionais (85 por cento).

Quase nove em cada dez inquiridos defendem que, em resposta às tarifas de Donald Trump, a UE deveria negociar novos acordos comerciais, para reduzir a dependência.

Cerca de metade dos inquiridos acredita que o fortalecimento da ligação com países asiáticos como o Japão e a Coreia do Sul deve ter máxima prioridade para a UE, enquanto 31% apontam para a China.

A aposta no comércio internacional não pode, contudo, depender da redução da qualidade dos produtos e dos serviços.

O caso do acordo comercial entre a UE e os países da América latina (Mercosur) é paradigmático. Dois terços dos portugueses apoiam a aposta nesta parceria, mas 30% consideram que a mesma pode levar à importação de produtos de qualidade inferior.

Ainda assim, os portugueses são os menos pessimistas nesta questão. Franceses (59%) e polacos (49%) são os que temem maior introdução de produtos fracos no mercado da UE.

União Europeia mais autónoma e produtiva, precisa-se

O estudo mostra um apoio robusto à ideia de uma Europa mais autónoma e menos dependente de parceiros externos.

Cerca de 85% dos portugueses acreditam que a UE deve investir em tecnologia própria, para reduzir a dependência em relação aos EUA, e 82% defendem o mesmo para o setor da defesa.

Os cidadãos pedem também o reforço da produção interna, com os seguintes setores no topo das prioridades:

  1. indústria alimentar e agricultura – 91%;
  2. indústria farmacêutica e equipamentos médicos – 90%;
  3. produção de energias renováveis (painéis solares, turbinas eólicas, etc.) – 84 por cento.

Cerca de metade dos inquiridos portugueses defende ainda que o reforço do mercado único europeu é preferível a uma aposta no desenvolvimento de novos acordos comerciais com países fora da UE.

Ao mesmo tempo, 78% consideram que os consumidores europeus deveriam dar prioridade à compra de produtos e serviços de países da UE. Portugal é líder nesta posição, a par da Itália e da Espanha.

Contudo, esse apoio tem limites: apenas cerca de metade dos consumidores está disposta a pagar mais por produtos europeus.

Euroconsumers diz levar a voz dos consumidores às discussões globais

A Euroconsumers, responsável pelo estudo, considera que os resultados do mesmo refletem que “empoderar os consumidores e melhorar os mercados andam de mãos dadas”.

Os consumidores podem “pressionar os mercados para fornecerem produtos melhores, aumentarem a concorrência e soluções que respondam às necessidades quotidianas”, pode ler-se num comunicado da organização europeia.

Regra geral, os cidadãos “sentem-se distantes das discussões” acerca de comércio, autonomia estratégia ou geopolítica, motivo pelo qual a Euroconsumers considera “essencial” levar a perspetiva dos consumidores aos debates globais sobre economia.

euroconsumers Este projeto é uma iniciativa conjunta da Euroconsumers. Reunindo cinco organizações nacionais de consumidores e dando voz a um total de mais de 1,5 milhões de pessoas em Portugal, Espanha, Itália, Bélgica e Brasil, a Euroconsumers é o principal grupo de consumidores do mundo em informação inovadora, serviços personalizados e defesa dos direitos dos consumidores.

 

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