COMUNICADO

Barómetro DECO PROTESTE: uma em quatro famílias portuguesas perdeu grande parte do rendimento em 2020

25 março 2021
Homem com ar angustiado, em grande plano, e mulher com criança ao colo, em segundo plano. Ambiente doméstico.

Mais de um quarto dos agregados inquiridos referiram que o seu rendimento sofreu cortes iguais ou superiores a 25 por cento.

O novo Barómetro da DECO PROTESTE revela que a pandemia veio evidenciar as desigualdades sociais já vividas, afirmando que duas em três famílias portuguesas enfrentam dificuldades para suportar os custos inerentes ao dia-a-dia. O relatório ilustra, geograficamente, quais as áreas mais afetadas e quais as despesas mais pesadas para as famílias portuguesas neste novo contexto. 

Após a auscultação de 4 690 agregados, a organização de defesa do consumidor afirma que as duras decisões políticas sobre a atividade económica, com maior peso em determinados setores, arrastaram milhares de portugueses para um limite da sua capacidade financeira, situação apenas atenuada pelos apoios do Estado como por exemplo as moratórias ou os regimes de lay-off, que colocam o país “ligado à máquina”. Atualmente, duas em três famílias portuguesas enfrentam dificuldades para suportar os custos inerentes ao dia-a-dia. 

Segundo Bruno Santos, Public Affairs da DECO PROTESTE, “mais de um quarto dos agregados inquiridos referiram que o seu rendimento sofreu cortes iguais ou superiores a 25%”. Para Bruno Santos, “é seguro dizer que estas famílias integram o patamar dos 63% que passam dificuldades financeiras e dos 6% que enfrentam uma situação crítica. Estas quebras de rendimento são explicadas pela perda de emprego, a inatividade profissional e a redução salarial”.

Segundo o Barómetro da DECO PROTESTE, 31% dos agregados situam-se no campo “conforto financeiro”, mostrando facilidade em pagar as suas contas, mas não mais do que isso. Partindo dos dados do Instituto Nacional de Estatística, no segundo trimestre de 2020, cerca de um milhão de pessoas estava a trabalhar a partir de casa, diminuindo as despesas com transporte e alimentação em restaurantes. A nível de lazer, muitas salas de espetáculo e comércio funcionavam a meio gás, algumas viagens foram canceladas, contribuindo para a poupança dos portugueses. Esta situação fez com que as famílias em dificuldade diminuíssem em 2020, comparativamente com os dados apresentados em 2019, melhoria que reflete apenas a redução de gastos.

Quando as restrições se levantarem, as expectativas para 2021, declaradas estudo da organização de defesa do consumidor, acentuam o pessimismo e as dúvidas do último ano.

Gastos mais difíceis de suportar pelos portugueses

A necessidade de equipamento para as aulas a partir de casa é a explicação lógica para o acréscimo de dificuldade em honrar as despesas de educação, em 2020, em todas as regiões, à exceção de Lisboa e Vale do Tejo, de acordo com os dados do Barómetro.
Enumerando, porém, as parcelas a que mais dificilmente as famílias conseguem fazer face, os gastos com o automóvel (combustível, manutenção e seguros) ocupam o topo da lista. Seguem-se as despesas com dentista, férias grandes (viagens e estadias), manutenção da casa (obras, pinturas, etc.) e óculos e aparelhos auditivos.

Áreas mais afetadas economicamente

Porto, Vila Real, Setúbal e Aveiro são os distritos a Norte onde as famílias vivem com mais dificuldades. O Barómetro da DECO PROTESTE identificou o distrito de Vila Real com mais agregados em zona de desconforto (82%) e, no Centro, Aveiro (79 por cento). Em Leiria e Setúbal, as percentagens também andam na casa dos 70 por cento.

Nas regiões Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo, as despesas com o lazer são as referidas com maior frequência como as mais difíceis de pagar, embora também lhes seja atribuído menor valor. No segundo lugar dos gastos mais expressivos, posicionam-se os associados à saúde. Por sua vez, é desigual o peso económico das despesas com a habitação e com a saúde. Revela-se mais pesado no Centro (42% de dificuldade), quando comparado com o Norte (32 por cento). Da mesma forma, é no Centro que os dispêndios com a mobilidade (automóvel e outros transportes) são mais acentuados. Em Lisboa e Vale do Tejo, os custos com a alimentação e a educação têm menos força do que no Norte e Centro, regiões nas quais são maior fonte de preocupação no dia-a-dia.
Os distritos de Bragança, Braga, Castelo Branco e Lisboa apresentam menor sufoco financeiro.

Por sua vez, no Sul e Ilhas, o Algarve e Madeira sofreram o maior impacto nos rendimentos. As atividades dependentes do turismo, quase congeladas, tiveram um papel a desempenhar no encurtamento da liquidez. Mais de 40% dos inquiridos no Algarve e na Madeira dão conta de um decréscimo do rendimento em 25% ou mais. O estudo da DECO PROTESTE apurou que, na região mais a sul, no distrito de Faro, as dificuldades financeiras atingem mais de 80% das famílias. Em terras alentejanas, o cenário é um pouco melhor, mas, ainda assim, os dados são igualmente preocupantes. No distrito de Évora, contabilizaram-se 76% de agregados em esforço. E, na região dos Açores, identificada até há pouco tempo como a mais pobre de Portugal, o Barómetro detetou 75% das famílias em dificuldade.

As despesas com a habitação revelam-se mais difíceis de debelar na região algarvia (53%), em claro contraste com o Alentejo ou com Lisboa e Vale do Tejo, onde se identificou uma inacessibilidade financeira de 34 por cento. É igualmente no Algarve (46%), mas também nos Açores (43%), que os custos com o lazer são mais difíceis de suportar. Na Madeira, ficam-se pelos 30 por cento. Já este arquipélago é a única região onde a saúde é o gasto mais problemático, à frente das despesas com a habitação, que lideram as dificuldades nas outras zonas. A mobilidade (automóvel e outros transportes) é, em regra, a terceira despesa mais desafiante para os orçamentos familiares.

Sobre a DECO PROTESTE
A DECO PROTESTE é a maior e mais representativa organização portuguesa de defesa dos consumidores. Intervém em cerca de 20 grandes áreas da vida dos consumidores através dos seus estudos, testes, análises de produtos e serviços, pareceres técnicos de especialidade e ações reivindicativas. O seu objetivo é criar consumidores mais informados e, por isso, mais exigentes e proativos na defesa dos seus direitos. Integra o grupo internacional Euroconsumers, que reúne organizações de defesa dos consumidores de Espanha, Itália, Bélgica e Brasil. 
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