Alterações climáticas: o que pensam os portugueses?
A maioria dos portugueses já sente o impacto das alterações climáticas, revela inquérito da DECO PROteste.
Nove em cada dez portugueses afirmam já terem sentido o efeito das alterações climáticas: mais de metade notaram-nas em locais importantes para si e 44% garantiram que já foram afetados por elas, ainda que indiretamente. É o que revela um inquérito conduzido pela DECO PROteste, em conjunto com as suas congéneres de Espanha, Itália e Bélgica.
E de que mais padecem os portugueses inquiridos? O impacto regional das alterações climáticas também é revelado pelas respostas: os residentes no Algarve, por exemplo, queixam-se do aumento do consumo de energia e da chuva cada vez menos intensa no inverno, levando à falta de água, que já é crónica por aquelas paragens. Os participantes no inquérito que residem no Norte, por sua vez, lamentam uma diminuição na disponibilidade de alimentos.
Muitos portugueses sentem-se afetados
Outras causas para o impacto sentido pelos portugueses
A perceção nacional deste fenómeno planetário pode esbarrar, porém, noutras razões para determinados lamentos. É que 82% dos inquiridos associam as alterações climáticas à subida dos preços dos alimentos. Os devaneios do clima podem servir para os justificar, em parte – a quebra das rotas de distribuição alimentar e a limitação da exportação de cereais da Ucrânia, devido à guerra, também concorrem, com certeza, para o agravamento deste problema. E a mesma justificação pode ser aplicada à perceção dos inquiridos quanto à escassez de alimentos (uma preocupação para 67%) ou para outras perdas materiais ou despesas imprevistas não especificadas (64% das respostas).
Mulheres mais preocupadas com as alterações climáticas
Dos 55% que se afirmam muito preocupados com as alterações climáticas, a maioria são mulheres. São elas que confessam estar sujeitas a maior inquietação, quando confrontadas com o problema. A medida da ansiedade, algo que pode definir-se como "ecoansiedade" (as aspas significam que não se trata de um sintoma clínico comprovado, mas de uma sensação), foi avaliada, no inquérito, através de um conjunto de perguntas que se refletem em dois índices. Após análise, conduzem ao nível de "ecoansiedade", numa escala de 1 a cinco. A maior parte dos inquiridos quedou-se em valores de 1,5 ou 1,6 na escala, e apenas 3% se situaram em valores entre os 3 e os 5, sinal já passível de traduzir uma ansiedade intensa.
Mais preocupados têm menos qualificações
O inquérito também demonstrou que a angústia sentida perante este fenómeno aumenta à medida que as qualificações dos respondentes diminuem. Uma das observações, nesta parte do estudo, posta à avaliação dos inquiridos na tal escala de 1 a 5, dizia: "Tenho dificuldade em equilibrar as minhas preocupações sobre sustentabilidade com as necessidades da minha família." Será a ansiedade motivada pelos escassos meios económicos para acompanhar o passo de uma vida mais amiga do ambiente?
A pergunta pode não estar diretamente relacionada com a condição socioeconómica dos inquiridos. Seja como for, quase 70% afirmaram não aderir a um estilo de vida mais sustentável por ser demasiado caro, ou por não disporem desses valores no presente.
Para 54%, há uma falta de apoio financeiro ou de subsídios para que o cidadão comum possa posicionar-se como um indivíduo sustentável num planeta em alerta climático. Relevantes são também os 27% que dizem que os benefícios daí extraídos não compensam as despesas.
Maioria já alterou comportamentos
No entanto, uma larga maioria – 71% – já mudou comportamentos em relação a, pelo menos, dois hábitos alimentares (consumir alimentos sazonais ou biológicos, por exemplo) e a mesma proporção quanto ao uso de produtos, como o aumento do tempo de duração de equipamentos tecnológicos até serem trocados ou descartados.
A mobilidade aparece também em destaque. No top das alterações de comportamentos de consumo, em relação a este aspeto crucial para uma vida mais sustentável, aparecem a prática de uma condução mais económica (67%) e o uso mais frequente de transportes públicos (49%) e da bicicleta (29% já adotaram).
Alguns equívocos sobre as alterações climáticas
Foi ainda feito um quiz aos inquiridos, com sete perguntas para respostas com "verdadeiro" ou "falso". Mais de metade só acertaram em duas perguntas (63 por cento).
Outro número intrigante traduz a quantidade de pessoas que não consideram que haja consenso entre os cientistas em relação às causas das alterações climáticas: 30 por cento. Muitos erraram na resposta. Esta parte do inquérito pode, contudo, ter sido só mal interpretada. O ímpeto dos portugueses na adoção dos comportamentos que consideram ao seu alcance para se atingir uma vida mais sustentável não parece ter esmorecido.
Como podem os consumidores ser mais sustentáveis?
O inquérito revelou, ainda, que grande parte dos cidadãos considera insuficientes as medidas de governos, nacionais e europeus, para combater as alterações climáticas. O Parlamento Europeu aprovou a Lei Europeia do Clima, que aumenta a meta de redução de emissões líquidas de gases com efeito de estufa para, pelo menos, 55% até 2030 e estabelece a meta de neutralidade climática até 2050. Portugal está a desenvolver esforços para reduzir os impactos ambientais.
O consumidor pode alterar comportamentos:
- reduza o consumo de energia – instalando janelas eficientes e aparelhos de ar condicionado, optando por equipamentos elétricos ou eletrónicos mais eficientes, e encaminhando para a reciclagem produtos no fim da sua vida útil;
- poupe água – feche a torneira enquanto lava os dentes, tome duches rápidos, prefira a máquina da loiça à lavagem à mão, ou opte por cabeças de chuveiro eficiente e redutores de caudal nas torneiras;
- na mobilidade, sempre que possível, ande a pé, de bicicleta ou trotineta, e de transportes públicos. O carro é necessário? Os elétricos têm menores impactos ambientais.
Como foi feito o estudo
O inquérito foi conduzido em papel e online, entre setembro e novembro de 2024, e foram recolhidas 4205 respostas válidas em quatro países – Bélgica, Espanha, Itália e Portugal –, 1511 das quais de participantes portugueses. Os dados publicados referem-se ao nosso país. A amostra foi tratada de modo a refletir a distribuição de portugueses entre os 18 e os 74 anos em termos de género, região e nível educacional, podendo ser consideradas tendências representativas da população nacional. As respostas traduzem as opiniões e as experiências dos inquiridos.
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