Medo ou entusiasmo? O que dizem os portugueses sobre a inteligência artificial
Os portugueses acolhem a inteligência artificial com um misto de receio e expectativa. Veem o potencial, sobretudo os mais jovens e com mais formação, mas também temem distorções, como a manipulação da opinião pública. Veja os resultados do inquérito da DECO PROteste.
A inteligência artificial veio para ficar, mas ainda não é claro o impacto das novas tecnologias. Neste momento de transição, em que sobram interrogações, a DECO PROteste participou num inquérito online para diagnosticar o sentimento dos europeus.
O estudo foi desenvolvido no âmbito do Consumer Digital Empowerment Index, por sua vez, integrado no Consumer Empowerment Project (CEP), iniciativa lançada em 2022 pela Euroconsumers, de que a DECO PROteste faz parte, e pela Google. O objetivo? Ajudar os consumidores a compreenderem os seus direitos e a fazerem escolhas informadas na era digital.
Lançado na Alemanha, na Bélgica, na Bulgária, na Dinamarca, em Espanha, em França, em Itália, na Polónia, em Portugal e na Suécia, no mês de julho de 2025, o estudo recolheu as opiniões e as experiências de 18 015 participantes, 1950 dos quais portugueses.
A que conclusões gerais chegou? Os participantes europeus reconhecem que a inteligência artificial está cada vez mais presente nas suas vidas, sobretudo na área de informação e média (69%), mas também nas compras (57%) e no ensino e na formação (56 por cento).
Quatro em dez dizem-se capazes de usar serviços baseados em inteligência artificial e pouco mais desta proporção é da opinião de que a nova tecnologia traz melhorias às suas vidas.
Porém, ambivalência é o sentimento mais forte que a inteligência artificial suscita, com ligeira tendência para privilegiarem os riscos face aos benefícios. Conheça todos os resultados do estudo.

Portugueses alinhados com os restantes inquiridos europeus
E como se comparam os portugueses com estas tendências? Dir-se-ia que estão muito alinhados.
- Também admitem ser na área de informação e média que a inteligência artificial mais se faz presente (62%), seguida pelas vertentes de compras e de comunidades e comunicação (ambas com 59%), e de ensino e formação (57 por cento).
- Um rácio de quatro em dez alega estar preparado para manejar tais ferramentas e cerca de metade aponta melhorias no seu quotidiano, decorrentes da ação dos algoritmos.
- E, tal como os demais europeus, tendem, mesmo que ligeiramente, a sublinhar os perigos e as preocupações éticas em desfavor dos benefícios.
Pouca confiança na proteção de dados
A legislação europeia que regula a inteligência artificial só em fevereiro de 2025 começou a ser aplicada. Talvez por ser recente, os portugueses não tenham noção do seu real impacto.
- Quatro em dez ainda não formaram opinião sobre a eficácia da proteção de dados a que as plataformas de inteligência artificial estão obrigadas.
- Tão-pouco confiam que as autoridades fiscalizam as empresas que usam os algoritmos, para garantir que estas o fazem com respeito pela legislação.
Sendo tais algoritmos concebidos, treinados e alimentados por humanos, com os seus valores, preconceitos e objetivos, o inquérito procurou aferir a confiança no seu rigor. Conclusões?
- Dos portugueses, 25% não confiam que as empresas que desenvolvem e implementam estes sistemas o façam de modo justo e responsável.
- Idêntica proporção não confia que as autoridades consigam fazer cumprir a legislação ou fiscalizar as empresas que recorrem a inteligência artificial.
- A confiança, tanto em empresas privadas quanto nas autoridades, é inferior entre os inquiridos que se sentem menos capazes de lidar com serviços baseados na nova tecnologia.
Entre receio e expectativa
E quais são as principais preocupações dos inquiridos nacionais com a inteligência artificial?
- Manipulação da opinião pública é a principal, apontada por 71 por cento. Não admira, se tivermos em conta os escândalos, sobretudo desde 2016, associados à mudança do sentido de voto em referendos e eleições.
- Um pouco abaixo surge a apreensão com as questões de privacidade. Uma fatia de 66% é da opinião de que os algoritmos recolhem dados pessoais, e que esta ação põe em causa a reserva da sua privacidade.
- Seis em dez entendem ainda que os benefícios são insuficientes para compensar os riscos de ciberataques, potenciados pela exposição aos sistemas de inteligência artificial.
E do lado positivo, o que destacaram os participantes portugueses?
- Sobretudo as possibilidades de personalização de serviços e a entrega de resultados mais adequados às necessidades dos consumidores (52 por cento).
- Mas também anteveem potenciais vantagens para a saúde, como novos tratamentos e meios de diagnóstico de doenças (49%), e para o ensino, com exercícios e conteúdos à medida de cada estudante (47 por cento).
E no geral? Os portugueses parecem um pouco mais apreensivos com os riscos, mas também algo mais entusiasmados com os potenciais benefícios, se comparados com os seus congéneres europeus.
Voltar ao topoImpacto da inteligência artificial na vida diária
Da informação e média à administração pública, a inteligência artificial conquistou maior ou menor espaço nas principais áreas que afetam o quotidiano dos portugueses. Mas que impacto demonstram, ao dia de hoje, os algoritmos na sua vida?
- Um pouco mais de metade vê benefícios na qualidade da informação online e na poupança de tempo, mais-valia que, em sua opinião, pode melhorar a produtividade.
- Ligeiramente menos de 50% consideram positivo o efeito no entretenimento e lazer e nas propostas adequadas às necessidades dos consumidores (46% nos dois casos).
- Os benefícios para a atividade profissional são reconhecidos por 39 por cento. Desdobrando este resultado, 74% dos participantes europeus abaixo dos 32 anos, com elevado nível educacional e boa situação financeira, consideram o impacto positivo ou muito positivo. Acima dos 59 anos, apenas 16% pensam da mesma forma.
- Homens com menos de 32 anos e boa situação financeira veem mais benefícios no campo das escolhas dos consumidores: 62% consideram que a inteligência artificial traz propostas mais ajustadas às suas necessidades. Em contrapartida, só 25% dos cidadãos acima dos 66 anos, com dificuldades financeiras, partilham da mesma opinião.
- Uma significativa fatia de portugueses diz-se neutra, não percebendo impactos positivos nem negativos da inteligência artificial na sua vida.
- Só uma minoria vê a influência negativa dos algoritmos, e sobretudo na qualidade da informação online. Para 22%, a inteligência artificial trouxe uma degradação.
E o que pensam os inquiridos europeus sobre a qualidade da informação online?
- Os mais céticos são os que têm mais de 66 anos. Só 27% se dizem entusiasmados com o impacto dos algoritmos na qualidade da informação online.
- A quota de aficionados é maior entre homens abaixo de 32 anos com boa situação financeira (69 por cento).
Metade já usa inteligência artificial
Quatro em dez inquiridos portugueses dizem ter capacidade para integrar as ferramentas de inteligência artificial no seu quotidiano. Mas será que as usam?
- Apenas 16% as usam todos os dias ou com frequência.
- Uma vez, aqui e ali, é o hábito de 35 por cento.
- Estes números mostram um ligeiro aumento da adesão face ao inquérito anterior, cujos dados foram recolhidos em 2024.
- Os restantes 49% repartem-se entre os que conhecem, mas nunca usaram (31%), os que não sabem de que se trata (12%) e os que já usaram, mas por ora dispensam (6 por cento).
A idade, o nível de educação e o patamar económico são os fatores que mais influenciam a capacidade para lidar com as novas tecnologias. Inquiridos com mais de 61 anos mostram-se bastante menos à vontade com estas ferramentas.
E quanto à qualidade dos resultados?
- Cerca de seis em dez portugueses afirmam que os algoritmos lhes fornecem dados precisos, que vão ao encontro das suas necessidades.
- Para 32%, os resultados são neutros: nem úteis nem o seu contrário.
- Já 10% afirmam que a inteligência artificial nenhuma mais-valia lhes traz.
Apesar de haver uma boa perceção da utilidade dos dados, observa-se um pequeno decréscimo comparando com o estudo de 2024.
Com a expansão da inteligência artificial, estarão os portugueses mais exigentes face aos resultados entregues pela nova tecnologia? O inquérito parece sugeri-lo.
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