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Náuseas e vómitos: a ciência por trás de medicamentos e outros produtos

De medicamentos a pulseiras de acupressão, o mercado está cheio de soluções ditas milagrosas contra o enjoo. Será que funcionam? A DECO PROteste analisou a evidência científica disponível para esclarecer a eficácia de fármacos e produtos alternativos para o ajudar a não ser enganado por falsas promessas.

Especialista:
18 abril 2026
Mulher sentada na cama agoniada

iStock

Sentir náuseas ou reflexo de vómito é das sensações mais desagradáveis que se podem experimentar. Porém, por mais incómodas que sejam, o vómito tem frequentemente um nobre objetivo: proteger-nos de substâncias potencialmente nocivas.

O cérebro desempenha um papel central. O "centro do vómito" pode ser ativado por quatro vias: sinais provenientes do sistema digestivo, deteção de substâncias circulantes no sangue, estímulos do sistema vestibular (ouvido interno) relacionados com o equilíbrio e o movimento, ou através de estímulos provenientes dos centros superiores do cérebro, como memórias ou estímulos emocionais e visuais.

A náusea não é uma doença, mas pode ser um alerta.

Com base nas publicações e artigos mais recentes do UpToDate, da NHG (associação de médicos de família dos Países Baixos) e da Prescrire, a DECO PROteste reuniu os factos a saber para quem lida com este problema, especialmente em grupos sensíveis como crianças e grávidas. O veredito é claro: a medicação pode ajudar, mas não é isenta de riscos e deve ser utilizada com cautela.

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Causas mais comuns e o que fazer

As causas de enjoo são várias. Pode ser provocado, por exemplo, por:

  • gastroenterite;
  • intoxicação alimentar;
  • gravidez;
  • enxaqueca;
  • ou pode ser um efeito secundário de medicamentos.

Nas crianças, otites e infeções urinárias também podem desencadear náuseas.

Na maioria dos casos, trata-se de uma situação autolimitada, e o importante é deixar que o corpo recupere: repouso, hidratação e refeições leves costumam ser suficientes. Quando o problema persiste ou é intenso, pode ser necessário recorrer a medicação. É fundamental orientação médica.

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Anti-histamínicos para o enjoo de movimento: funcionam?

Se sofre de enjoo de movimento, tente manter o olhar fixo no horizonte, garanta uma boa ventilação, sente-se no banco da frente do carro ou no meio do avião e evite ler ou usar ecrãs durante o percurso.

Pode ser necessária medicação. Os anti-histamínicos de primeira geração, como o dimenidrinato, presente nos medicamentos Vomidrine, Vomidrin Direct, Viabom, Nauzer e Enjomin, estão aprovados para o enjoo de movimento. Porém, em alguns estudos realizados, 40% dos utilizadores sentiram benefícios contra 25% do grupo placebo, sugerindo um benefício moderado.

Este medicamento deve ser tomado antes da viagem porque é um medicamento com ação profilática. É mais eficaz na prevenção do que após o aparecimento dos primeiros sintomas. Por isso deve ser tomado antes da viagem, para ser absorvido e começar a atuar antes que surjam os enjoos. Além disso, não deve ser usado quando a diminuição do estado de alerta possa ser prejudicial, uma vez que pode provocar sonolência.

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Cuidado com a domperidona

Em enxaquecas com náuseas incapacitantes, a metoclopramida ou a domperidona podem ajudar, mas exigem avaliação médica.

A domperidona é um medicamento sujeito a receita médica e requer especial prudência. Não está aprovada para crianças com menos de 12 anos pela Agência Europeia do Medicamento (EMA). Nesta faixa etária, a eficácia é semelhante à do placebo.

Na população geral, a evidência disponível aponta também para um efeito incerto ou modesto. Além disso, este fármaco está associado a risco de alterações do ritmo cardíaco. Por isso, o seu uso é restrito a doses não superiores a 30 miligramas por dia, e com cuidado especial em pessoas com mais de 60 anos.

A cinarizina também é usada contra alguns tipos de náuseas, mas a sua toma não é recomendada face à escassez de evidências científicas, de acordo com o Prontuário Terapêutico.

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Precauções com crianças pequenas

A utilização de medicamentos em crianças requer cautela. O ondansetrom é um fármaco que parece ter benefício em idade pediátrica para vómitos persistentes associados a gastroenterite aguda. Segundo a NHG, pode ser considerada uma dose única em crianças com mais de três meses com vómitos persistentes. Esta abordagem é suportada por uma revisão da Acta Pediátrica Portuguesa, que mostra que o ondansetrom pode ajudar a evitar internamentos por desidratação e facilitar a reidratação oral.

Para reidratar, deve evitar-se a “mistura de cola” ou refrigerantes. O excesso de açúcar pode agravar a diarreia e a desidratação. O ideal é manter o leite materno ou de fórmula, sem diluição.

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Gravidez: escolhas mais seguras

Até 80% das grávidas sofrem de enjoos, mas a automedicação deve ser evitada. Também a gravidez é um período de maior suscetibilidade. A doxilamina é frequentemente utilizada, e pode ser associada à piridoxina, como acontece em medicamentos como o Bonjesta, mas esta associação não é recomendada. A sua utilização deve ser orientada por um médico.

Em casos de maior intensidade, a metoclopramida pode ser usada. No entanto, o tratamento deve ser o mais curto possível.

Já o ondansetrom é reservado para casos mais graves, como a hiperémese gravídica, caracterizada por náuseas e vómitos persistentes e intensos, de preferência após o primeiro trimestre.

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Gengibre: rebuçados quase só de açúcar

Uma medida não farmacológica que costuma ser utilizada é o consumo de gengibre. Pode ser útil na gravidez, onde parece ter um efeito modesto. Mas atenção à forma como o consome.

A DECO PROteste analisou a rotulagem, por exemplo, dos rebuçados Bio Loves Me: contêm apenas 0,04% de gengibre em pó. Para atingir a dose mínima estudada de 500 miligramas e conseguir ter algum benefício, teria de ingerir várias embalagens, o que dispararia o consumo de açúcar.

Em doses elevadas, o gengibre pode também ter um efeito anticoagulante. Quem toma medicação anticoagulante deve falar com o médico antes de usar suplementos alimentares.

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Coca-cola e pastilhas: mitos que persistem

Beber cola para "acalmar o estômago" é um conselho que atravessa gerações, mas não tem base científica. Pelo contrário, o elevado teor de açúcar pode piorar a desidratação em casos de diarreia. O mesmo sucede com as pastilhas elásticas. Podem ajudar na motilidade intestinal após cirurgia, mas não há evidência robusta de que reduzam a sensação de náusea. Voltar ao topo

Terapias alternativas: os factos por trás das promessas

As pulseiras de acupressão, que prometem que, ao estimular o ponto P6 no pulso, reduzem as náuseas, têm sido estudadas em revisões científicas, como as da Cochrane. Os resultados são inconsistentes, e a qualidade da evidência é geralmente baixa, não permitindo conclusões firmes sobre a sua eficácia.

O mesmo sucede com os óculos antienjoo: em testes controlados, não demonstraram aliviar os sintomas de forma significativa.

Usados em aromaterapia, os produtos à base de óleos essenciais disponíveis no mercado não dispõem, de forma geral, de evidência clínica robusta que comprove eficácia superior ao placebo. Além disso, podem provocar irritação do trato respiratório ou dores de cabeça em pessoas sensíveis.

Produtos homeopáticos baseiam-se em diluições onde não restam ingredientes ativos. Até à data, não foi provado que funcionem melhor do que um placebo.

Na osteopatia, embora as técnicas manuais possam ajudar em dores musculares, não existem estudos robustos que confirmem a sua eficácia no tratamento da náusea.

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Quando consultar o médico imediatamente

Na maioria dos casos, a náusea é um sintoma passageiro. É fundamental procurar adotar medidas não-farmacológicas.

Alguns casos podem, contudo, justificar a análise médica imediata. Veja os sinais de alerta.

Na população em geral

  • Dor abdominal forte.
  • Sangue no vómito.
  • Sonolência.
  • Confusão.
  • Ausência de urina durante um dia.
  • Dor no peito.
  • Vómitos após queda.

Em crianças com menos de dois anos

  • Dor forte de estômago.
  • Recusa em beber líquidos.
  • Ausência de urina por meio dia (12 horas).
  • Sangue no vómito.
  • Presença de diarreia e febre em simultâneo.
  • Falta de resposta normal ou sonolência invulgar.
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